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#Romances#Literatura Brasileira

O Turbilhão

Por Coelho Neto (1906)

O bonde apareceu. Entraram e ela, antes de sentar-se, voltou-se para o lado da casa que deixara, suspirando. Estou só pensando em Violante... e, depois dum silêncio, perguntou baixinho: Soubeste ontem alguma coisa?

— Mamede disse-me que está na pista do cocheiro.

— Que cocheiro?

— Do carro em que ela fugiu.

— Foi de carro!?

— Naturalmente.

Calaram-se. O bonde fez uma parada perto da Rua do Núncio. para a Muda.

— E se prendessem o cocheiro? Ele deve saber onde ela está. — Mamede vai ver.

Depois dum longo tempo de recolhimento, levada aos trancos pelo bonde, Dona Júlia levantou os olhos e, na sacada duma casa, viu duas mulheres de penteadores brancos: uma sentada, a ler, deixando à mostra um pedaço de perna gorda, a outra muito debruçada, com os cabelos soltos, esvoaçando.

— Que rua é esta? — Lavradio.

A velha acenou com a cabeça e, como se lhe bastasse a informação, aquietou-se.

— Aqui é a Polícia. Foi aqui que eu estive, disse Paulo.

D. Júlia inclinou a cabeça e foram-se-lhe os olhos por um largo portão, ao longo dum túnel sombrio.

— Ah! meu Deus, se essa gente quisesse!...

Quando chegaram ao Largo da Lapa a timidez retomou-a. Ergueu-se pesadamente e, agarrando-se aos balaústres, foi descendo com esforço.

— Já não sei andar. Se eu saísse sozinha perdia-me por aí. Por onde é? Que sol, Paulo! Isto faz mal. Estou tonta — parece que sai fogo das pedras.

Abriu a sombrinha e convidou o filho. — Chega para nós dois.

— Não, mamãe; eu estou acostumado. Não se incomode comigo.

Ela voltava-se de quando em quando, assustada, como se houvesse ouvido rodar de carros.

— Aquilo ali é o Passeio Público, não é? — É sim, senhora.

A velha suspirou fundamente.

— Quando vocês eram pequenos, vínhamos quase todos os domingos aqui, com o velho. — E ficou a olhar saudosamente o arvoredo.

— Mas acho isto mais largo...

— Sim, senhora: é que foi aproveitada uma parte do terreno do Convento. — Logo vi.

Tudo lhe causava admiração: os bondes, em tandem, os carros, os prédios novos. Diante do mar não se pôde conter: parou, lançando os olhos livremente pelas águas que faiscavam; dando, porém, com a Igreja do Outeiro, tremeram-lhe os lábios numa prece. E confessou que estava mais contente porque tinha aquela alegria ante os olhos.

— E os meus santos! — exclamou de repente, estacando.

— A senhora não os arrumou?

— Sim, mas com os balanços da carroça...

— Fique descansada.

— A casa é ainda muito longe?

— Não, senhora. Não vê aquela árvore? É ali. O ponto é magnífico, não acha? Aqui está tudo à mão. Depois, a vantagem de não termos vizinhos fronteiros. — Lá também não tínhamos.

— Pois sim, mas aqueles trens, aquela lufa-lufa de máquinas... Quem podia com aquilo?!

— Eu já estava acostumada; até me distraía. — Mau gosto. É aqui, mamãe.

Júlia levantou o olhar, examinando a casa, chegou um pouco adiante para ver o jardim vizinho e, como Paulo empurrasse a porta, a mulher do lado debruçouse à janela, curiosamente.

— Quem é essa moça?

— Não sei.

— Não vá ser uma dessas mulheres...

Entraram. O cheiro das tintas enchia toda a casa como um hálito mau. Paulo, porém, abriu de par em par as janelas e o ar penetrou correndo os aposentos, purificando o ambiente. Dona Júlia detinha-se, examinava os papéis, o soalho, ainda úmido da lavagem, o teto; abria as bicas, para que a água corresse e, no quintal, ficou um momento parada, pensativa, até que o filho apareceu à porta da cozinha.

— Então?

— É boa. Só o que tem é que é muito devassada.

Paulo levantou os olhos. Pela janela de uma casa alta via-se o interior de um quarto, onde um homem ruivo, em mangas de camisa, meio curvado, fazia o laço da gravata ao espelho.

— Sim, tem esse defeito, mas também pelo preço, neste ponto, não se podia achar coisa melhor.

Dona Júlia concordou, voltando a examinar os aposentos, um a um, com cuidado minucioso. Na sala, chegou um instante à janela, voltou-se para a montanha: lá estava a igreja, muito branca, dominando o mar, como uma atalaia.

Tão embevecida ficou que não via os bondes passando, cheios, rápidos como os trens que, diante da outra casa, iam e vinham, dia e noite, abalando a rua tranqüila. A mulher, à janela da casa contígua, com o colo farto achatado no peitoril, acompanhava os bondes com um olhar cobiçoso, sorrindo e, quando a rua reentrava no sossego, punha-se a cantar, bambaleando-se.

As andorinhas não tardaram. Como Dona Júlia já conhecia a casa, tirou a capa e foi determinando a colocação dos móveis. As duas da tarde, pouco depois de haver partido a última carroça, chegou Felícia, cansada, suada, com embrulhos, queixando-se da soalheira.

(continua...)

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