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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

Entretanto, uma pessoa que penetrara no quarto muito antes do duque e, sentada num dos ângulos da sala, vira-o chegar, sem que o duque desse pela sua presença, levantou-se da cadeira que ocupava e aproximou-se silenciosamente dele.

O êxtase do fidalgo não o deixou perceber a pessoa que fizera ficar de pé por trás dele.

No momento em que o duque, sem mais poder conter-se, levantava-se do tapete, sentiu um peso sobre os ombros e tornou a cair de joelhos.

— Não te levantes — ordenou-se uma voz meio contida, mas ferozmente enérgica.

Aterrado, o sr. de Bragantina levantou a cabeça... Era a duquesa!

— Não te levantes — dizia ela nervosamente. — Pede perdão a tua filha.

— Minha filha! — gaguejou o duque, fulminado pela aparição da mulher.

— Sim, tua filha, desgraçado!... a mãe acaba de morrer miseravelmente, viúva de um dos teus lacaios...

Daí a sete dias, dava-se liberdade a Manuel de Pavia e aos indivíduos suspeitos do crime.

A língua do boato murmurava que, no dia seguinte ao da descoberta do crime, o duque se levantara acabrunhado como um doente; que recebera a visita do dr. Louro Trigueiro; que começara-se a dizer então que as jóias tinham sido encontradas.

Era o caso, que o chefe de polícia, visitando Pavia na casa de detenção, ameaçara-o com a energia do duque, que o reduziria à última miséria, se não revelasse o lugar onde estavam depositadas as jóias. O criminoso, exigindo garantias de impunidade, confessou tudo e declarou que o tesouro da coroa estava enterrado num lugar que ele mostraria... Senhor destas disposições de Pavia, dr.

Trigueiro correu a comunicá-las ao duque.

Encontrou o fidalgo de mau humor como nunca lhe encontrara. Com as novidades do chefe de polícia, o duque ficou mais sereno. É que o sr. de Bragantina, profundamente abalado com a surpresa que tivera em casa de Pavia, temia que a permanência deste em detenção desse lugar a comentários, os quais, somando-se aos murmúrios necessariamente provocados pelo procedimento da duquesa, levantariam um rumor terrível ao redor do seu nome...

— Participe ao Pavia — disse rapidamente o duque ao chefe de polícia — que, daqui a sete dias, ele está livre e virá desenterrar as jóias... É só o tempo de se buscar provas de culpabilidade e inocência... Isto é o que o senhor dirá, se por acaso algum estranho perguntar por que estiveram presos tão pouco tempo... Por fim de contas, não foram as provas que fizeram conhecer-se o criminoso... Foi uma suspeita que ninguém teria o direito de levantar... A polícia fui eu. Depois... o negócio acabou maravilhosamente... Para dar algum colorido característico, eu expulso de meu serviço o particular e o Inácio... Ao patife do Pavia, o mais que posso fazer-lhe é deixá-lo no ofício para que um dia um cacete honesto esmaguelhe a nuca, aí em qualquer esquina do arrabalde... Veja que sou justo...

Tempos mais tarde, apresentou-se na quinta um caixeiro, procurando sequiosamente pelo sr. Manuel de Pavia e apresentando um cartão de visita com o nome de Aleixo de tal...

Mais tarde ainda, numa pequena festa que houve na aldeola da quinta, por ocasião de um casamento de um lacaio do duque de Bragantina, a noiva, uma mocetona rechonchuda e corada, conversando com as amigas sobre o roubo das jóias da coroa, remexia os olhos e os ombros, a falar:

— O meu minguinho não me enganou... Eu assegurava que o negócio havia de dar em muita porcaria ou em muito silêncio... Digam lá vocês se no palácio mexese mais no negócio dos ladrões... Depois da morte de sinhá Emília, que Deus guarde na sua glória... Coitada, morreu nos braços da sra. duquesa, que fugiu da casa da Gertrudes como uma doida... só muito depois disso é que me contaram em segredo que as jóias tinham sido achadas no quintal de seu Mané de Pavia e que o sr. marquês d’Etu andou muito contente abraçando os inquilinos dos cortiços feito maluco...

Eu bem dizia... eu bem dizia...

Fim

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