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#Contos#Literatura Brasileira

Tentação

Por Adolfo Caminha (1896)

E daí a pouco um aroma fino, de sabonete, de pó-de-arroz e de essência de Houbigant espalhava-se em toda a casa — no primeiro e no segundo andar —; fechavam-se gavetas com açodamento, farfalhavam sedas e tiniam jóias. D. Branca por um lado e Adelaide por outro, esmeravam-se nas toilettes como se fossem a um baile ou a alguma festa de rigor.

— Pronta?

— Pronta... — respondeu a esposa do bacharel, dando um jeito no vestido, ao mesmo tempo que se revirava para o grande espelho do toucador.

E saíram de chapéu-de-sol aberto, uma jovialidade infantil, pelas ruas de Botafogo, a tomar o bonde. Os passageiros olhavam-nas com esse olhar curioso e indiscreto que às vezes confunde uma mulher honesta com uma horizontal. Adelaide ia um pouquinho no ar, um bocadinho gauche, às voltas com a luva da mão esquerda que não queria abotoar, sempre tímida, em contraste com os modos vivos da esposa do secretário.

Um senhor de óculos e barba grisalha cumprimentou-as.

— Quem é?

— Não conheço... — Nem eu...

D. Branca não se lembrava, ou fazia que se não lembrava: era um dos titulares de Botafogo, o comendador Beltrão, dono de uma grande fábrica de cigarros. Não gostava de cumprimentar os homens de fisionomia idosa. — "Ora, o

Beltrão... um velho!"

— E se encontrarmos o Sr. Furtado? — balbuciou Adelaide. — Melhor... voltamos em boa companhia.

Mas o pensamento da jovem senhora estava no outro, no bacharel, no Evaristo. - Que diria ele, depois? Que ela já o não consultava em seus negócios, que não era a mesma Adelaide, que não fazia caso dele, talvez... E como explicar a sua ida à Rua do Ouvidor, como convencê-lo de que D. Branca a arrastava responsabilizando-se perante ele, como? Os homens não acreditam facilmente nas mulheres, enquanto não as vêem chorar, enquanto não as vêem de rojo a seus pés... Há dois anos que eram casados e nunca Evaristo duvidava das suas palavras; mas agora, no Rio de Janeiro... quem sabe? talvez não as aceitasse logo, como na província. Outras idéias. O mundo é todo cheio de contradições...

— Vamos voltar? — propôs ela à amiga.

E ia pretextar uma dor de cabeça, uma dor no fígado, um incômodo qualquer, mas D. Branca atalhou:

— Voltar? Que idéia! Eu, nem que me pagassem; meu rico vestidinho há de dar que falar hoje à Rua do Ouvidor. Voltar por quê?

— Por causa do Evaristo... — sorriu timidamente Adelaide.

— Ora, minha filha, tenha juízo! Então você é alguma criança? O Sr. Evaristo é um rapaz inteligente, um homem de bem, um cavalheiro... Os tolos é que prendem as mulheres, como se elas fossem escravas. Já lhe disse que me responsabilizo...

— Eu sei, mas...

— Não admito razões. A senhora vai comigo; quem a leva sou eu. E, em todo o trajeto de Botafogo à Rua do Ouvidor, uma e outra mereceram grandes elogios, grandes exclamações e vivos olhares de capitalistas e doutores que, mesmo na faina dos seus negócios, nunca se descuidam do sexo amável.

No ponto dos bondes houve um senhor que lhes dirigiu a seguinte frase cheia de ocultas intenções, numa voz melíflua e carinhosa:

— Como são lindas!

E outro, mais adiante:

— Oh, que beleza!

E ainda outro, já em plena Rua do Ouvidor:

— Deliciosas!

Tudo gente séria, moços bem vestidos, de colarinho alto e chapéu de forma e anéis de brilhante.

Adelaide não sabia como pisar, nem que jeito desse às mãos, nem onde pusesse os olhos, vendo surgir, de repente, o bacharel e agarrar pela gola do fraque um homem daqueles, e culpá-la, e dar escândalo! Arrependia-se mil vezes de ter acedido às instâncias de D. Branca.

A esposa do secretário, num coquetismo de mulher fácil, abanando-se com o rico leque de plumas, uma ostentação imperiosa de sedas e gazas resplandecia ao lado da amiga. Todos os olhares cravavam-se nela, no seu belo porte de mundana, nas suas formas rijas que o espartilho evidenciava, torturando-a.

— Bela rapariga! — foi uma das exclamações que lhe chegaram ao ouvido. E ela como que redobrou de altivez, aprumando-se, garbosamente.

O instinto ou o que quer que seja levou-a a tomar o caminho da Praça, pela Rua Direita. A mulher tem uma espécie de faro tão pronunciado e admirável como em certos animaizinhos de estima. D. Branca ia pelo faro, quando quem lhe havia de surgir? o visconde, o respeitabilíssimo Santa Quitéria... Vinha de uma assembléiageral de acionistas no Banco.

— Oh, excelentíssimas, folgo de vê-las! — exclamou o banqueiro estendendo a mão, todo inclinado, primeiro à Branca e depois à Adelaide. — Andam passeando? — Andamos passeando... — murmurou a esposa do secretário.

E emendou logo:

— Vamos fazer umas compras

— Ah!... Está muito bem, está muito bem.

— O Sr. Visconde já veio de Petrópolis.

(continua...)

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