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#Romances#Literatura Brasileira

Bom-Crioulo

Por Adolfo Caminha (1895)

E todos os dias a mesma cousa, o mesmo penar, a mesma série de idéias vagas, incompletas, as mesmas oscilações, as mesmas dúvidas. Uma noite ia sendo preso, quando tentava escalar o muro do hospital...

CAPÍTULO X

Mais tranqüilo agora, sem receio de que Bom-Crioulo o procurasse para uma vingança, identificado com a portuguesa, esquecido mesmo de certas cousas que o faziam tímido e medroso, Aleixo ia passando uma vida regalada, ora em terra, ora a bordo da corveta, sem outros cuidados que não os da sua rude profissão. Estava gordo, forte, sadio, muito mais homem, apesar da pouca idade que tinha, os músculos desenvolvidos como os de uma acrobata, o olhar azul penetrante, o rosto largo e queimado. Em pouco tempo adquirira uma expressão admirável de robustez física, tornando-se ainda mais belo e querido. A portuguesa, essa vivia dele; amavao, adorava-o!

Ah! era muito capaz, ela, de fazer uma loucura por causa do seu bonitinho! — Quando Aleixo vinha de bordo, nada lhe faltava naquele pobre sobradinho da Rua da Misericórdia. Tudo ela guardava para o seu formoso marinheirito: eram frutas, doces, comidas especiais, quitutes à portuguesa, isso, aquilo, aquilo outro... Ela mesma batia, engomava a roupa dele com um melindroso carinho de mãe amorosa, dobrando as camisas, perfumando-as de alecrim para ele mudar quando viesse do trabalho. Como tudo mudara naquela casa depois que o negro saíra! O sótão, o misterioso sotãozinho estava abandonado, Aleixo não queria saber dele, odiava-o, porque ali é que se tinha feito escravo de Bom-Crioulo, ali é que “tinha perdido a vergonha”. O pobre quarto era como um lugar de maldições: vivia trancado à chave, lúgubre e poeirento. D. Carolina raríssimas vezes abria-o, isso mesmo quando tinha de recolher algum traste velho, algum móvel sem préstimo. O retrato do imperador, a cama de lona, os cacaréus de Bom-Crioulo e do grumete, aquilo tudo que dantes fazia o encanto do dois amigos tinha desaparecido. Nada restava agora daquele viver comum.

— E se o negro vem por aí um belo dia? imaginou Aleixo, receoso.

— Qual vem, qual nada! fez a portuguesa com um gesto de profunda convicção. Bom-Crioulo já nem se lembra de ti; anda na bilontragem; o que ele queria era te desfrutar.

E logo:

— Se vier, é a mesma cousa. Ninguém morre de careta. Diz-se-lhe que os engenheiros proibiram morar no sótão; que o teto ameaça desabar.... Inventa-se...

E os objetos de Aleixo, somente os dele, foram colocados na alcova da portuguesa, embaixo, no primeiro andar. De então em diante passaram a dormir juntos, como um casal, na mesma cama larga. E ninguém pisou mais no sotãozinho, agora transformado em depósito de móveis inúteis, coberto de pó, abrigo de insetos, ninho de ratos.

Há quase um mês que isso durava, e, longe de se aborrecer, Aleixo sentia, pelo contrário, uma inabalável e profunda afeição por D. Carolina, exigindo até que ela não recebesse mais o barbaças do açougue. Queria-a para si, unicamente para si, ou estava tudo acabado!

Ela procurou convencê-lo que o sujeito, o Man’el, era um tipão “necessário”, porque lhe dava mesada, pagava o aluguel do sobrado: uma pechincha! Quanto a ser homem, ora! o “bonitinho” ficasse descansado: não havia perigo.... Man’el era um pobre coitado, uma criatura sem forças, um porcalhão...

Mas Aleixo indignou-se: — Não senhora, não admitia outro homem!... Ela bem podia trabalhar honestamente e ganhar dinheiro para o aluguel. Não senhora, ou ele, Aleixo, ou o barbaças.

D. Carolina riu e protestou não receber mais o Man’el. Haviam de viver “honradamente”!

Aleixo ficou muito satisfeito, muito orgulhoso, muito convencido.

Mas a verdade é que, se o açougueiro não continuasse a fornecer carne e a pagar o aluguel do sobradinho, tanto ele como a portuguesa teriam renunciado àquele amor.

— Nem o Man’el sabe do bonitinho, nem o bonitinho sabe do Man’el, pensava D. Carolina.

E tudo ia marchando sem atropelos — dourada embarcação em mar de rosas...

... Vai senão quando chega o bilhete do negro: — Meu querido Aleixo...

D. Carolina passou os olhos com sofreguidão, correndo logo à assinatura, e, ao deparar com o nome do Bom-Crioulo meneou a cabeça desdenhosamente. Depois releu aquelas palavras tocadas de amor e de saudade, e ficou um ror de tempo no meio da sala, em pé, como se houvesse enlouquecido.

Seriam onze horas; — uma manhã quente de dezembro, cheia de luz e de poeira.

Tinha acabado de almoçar, como de costume, o seu bife e o seu café com leite, quando bateram:

Era o bilhete do negro, do “maldito”!

Aleixo tinha ido para bordo naquela manhã e só devia regressar no outro dia. — Felizmente, meu Deus, felizmente o “bonitinho” não estava em casa, porque, então, podia se impressionar...

Passou um último olhar no papel, como se quisesse decorar o recado, e fê-lo em miuçalhas atirando os bocadinhos no caixão do cisco. — Ora, adeus! aquilo não servia para nada!

(continua...)

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