Por Aluísio Azevedo (1880)
— Porém, é que... interrompeu Miguel, disseram-me que tu te ias casar com um fidalgo...
— É verdade, disse novamente suspirando Rosalina; e não há outro remédio, se não nos conformamos com essa sorte escura.
Miguel fez um gesto de impaciência e reprimiu o que ia dizer.
— Mas que pensas? continuou Rosalina, mudando de tom e afetando um transporte; supões, porventura, que me fugiram repentinamente da memória os nossos juramentos e a nossa fortuna? crês que me parece ser riqueza o melhor os bens? julgas que não se pode converter em luto o que foi nossa esperança? tens que sou muito feliz? ingrato!... Oh! não. Miguel! Sofri amargamente e mais sofro agora. Quanta vez não amaldiçoei tudo que me cercava! quanta vez não trocaria por um daqueles pacíficos e religiosos serões de Lipari, todos os faustos, todos os esplendores destas festas, que me acabrunham e me matam?! Entanto, tinha-te por morto, nossa choupana foi incendiada e minhas amigas de infância, sobre indiferentes, prevenidas contra mim! É preciso esquecer-me de tudo!...
Miguel escutava imóvel e pensativo.
Rosalina continuou, abaixando a voz:
— Meu pai está cada vez mais severo e mais ganancioso; agora toda a sua ambição é possuir um título qualquer de nobreza antiga, cuja realização só de mim confia; desde que um fidalgo arruinado, o visconde de Cenis, com a mira no dote, me pediu em casamento...
— E tu consentes?! perguntou arquejante Miguel, e tu vais ligar-te a esse infame especulador, mesmo sabendo que eu existo e só por teu amor o faço?!...
— Mas que me queres, meu amigo? Não o desejo eu, ordena-mo meu pai! Nisto deves, antes de amaldiçoar o meu procedimento, pesar bem o sacrifício que vou fazer! Sabes certamente que não é a ambição e a vaidade que me conduzem, sabes o quanto te amo e o quanto me comprazeria viver contigo e só para ti; mas em semelhantes circunstâncias, nada fazer é fazer tudo. A minha recusa, sobre ser a desonra certa, seria talvez a morte de meu pai!... Quanto a mim... a não me poder ligar contigo, ninguém mais prefiro, tanto me dá de casar com o visconde como com outro qualquer. O que de tudo isto se concluí é que eu sou a mais desgraçada das mulheres; amo, sou amada; chegam-me os bens par viver e no entanto faltam-me amor e existência. Tu, meu pobre Miguel, sem o saber, vieste dar-me um golpe terrível e me foi difícil habituar à idéia de tua morte, ser-me-ia impossível suportar a tua ausência! Todavia, estou resignada; uma gota de mais ou de menos no vaso de minhas amarguras não prejudica, porque o líquido de há muito transbordou. Sejamos verdadeiramente corajosos, meu amigo, e saibamos ser dignos um do outro pelo sacrifício, soframos juntos... Se soubesses a noite que passei!... quando ouvi aqui no jardim a mesma música, que embalou os meus primeiros sonhos de mulher e os meus últimos devaneios de criança... aquelas notas eram como o poema da nossa mocidade e nosso amor. Como éramos então felizes e esperançosos!... Muito chorei, meu amigo quando me abriste esse livro apagado de recordações e saudades, chorei como não imaginas, e só se me afigurava que aqueles sons errantes eram o teu espírito, baixado do céu para me amaldiçoar. Foi uma noite de pesadelos para mim!... não dormi... faltava-me o ar... e tinha medo de abrir a janela... E debruçando-se sobre Miguel exclama: Como sou desgraçada!...
— Peço-te, continuou ela, depois de algum silêncio, com a voz ainda tremula do choro, que partas; e, se não me podes remediar o mal, que não o agraves... Parte, meu amigo, o evita tornares-me a ver. Para salvar meu pai é preciso sermos mutuamente rigorosos. Sê de todo nobre e generoso; salva a quem te quis perder! perdoa do alto do teu coração a esse pobre velho, que não tem culpa de ter ambicioso e mau. Ele é o culpado de tudo; é verdade, mas também a ele devo a minha existência e todos os cuidados que tenho recebido; devemos-lhe a felicidade que já gozamos, é justo que suportemos agora o sacrifício que ele nos impõe... Perdoa! Sim? perdoa, Miguel!...
E Rosalina, meiga, encarava com chorosa ternura o olhar sombrio de Miguel.
O moço ergueu-se com impetuosa feição. Metamorfose assustadora operouse-lhe na fisionomia: os olhos fechavam-se lentamente e lentamente se abriam; um sorriso de amargurada desconfiança encrespava-lhe os lábios. Debruçou-se brandamente sobre Rosalina e, recolhendo-lhe as mãos frias, disse-lhe com delicadeza:
— É então teu pai o único obstáculo de nossa felicidade?
— É, disse ela.
— Então, adeus! E beijou-lhe a fronte.
— Que vai fazer?
— Obedecer-te.
— Como?
— Partindo.
— Para onde?
— Não sei.
— Quando? — Já.
E Miguel saiu tão rápido como houvera entrado.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.