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#Romances#Literatura Brasileira

O Mulato

Por Aluísio Azevedo (1881)

— Que é isto? perguntou ela, ao ver um esboço, que expunha dois bispos, já amortalhados dentro dos competentes caixões de defunto, como à espera do momento de baixarem a tenra. Um estava imóvel, de mãos postas e olhos cerrados; o outro, porém, erguia-se a meio e parecia voltar à vida. Ao lado deles havia um frade.

— Ah! fez ele rindo, e explicou: Isso é copiado de um quadro, que vi na sacristia do velho convento de São Francisco, da Paraíba do Norte. Não vale nada, como todos os quadros que lá estão, e não poucos, pintados sobre madeira; um colorido impossível; as figuras mal desenhadas, muito duras. Esse é um dos mais antigos; copiei-o por isso. Pura curiosidade cronológica. Vê esse escudo nas mãos do frade? Tenha a bondade de virar a página; que V. Exª encontrará um soneto que aí estava escrito a pincel.

Ana Rosa virou a folha e leu:

“Este quadro, Leitor, onde a figura Vivo um Bispo te põe. que morto estar a, Mostra quanto Francisco o estimava Pois não quer vá com culpa à sepultura.

Olha o outro defronte. em que a pintura Jugulado o expõe: este formava Contra a Ordem mil queixas. que esperava Fossem dos Frades trágico jatura.

Tu agora, Leitor, que a diferente Sorte u es nestes dois acontecida Toma a ti a que for mais conducente:

O primeiro ama a Ordem e toma à vida: O segundo a aborrece e o golpe sente. Ambos prêmios têm por igual medida.”

— Quem há de gostar disto. é vovó... ela tem muita devoção com São Francisco!

— Olhe! ai tem Vossa Exª um dos pontos mais bonitos de Paris.— É desenho de um pintor meu amigo; muito forte! — Essas ruínas, que aparecem ao fundo, são das Tulherias.

E passaram a conversar sobre a Guerra Franco-Prussiana, extinta pouco antes. Ana Rosa, sem desprender os olhos do álbum, via e ouvia tudo, com muito empenho; queria explicações; não lhe escapava nada. Raimundo, debruçado nas costas da cadeira em que ela estava. tinha às vezes de abaixar a cabeça para afirmar o desenho e rogava involuntariamente o rosto nos cabelos da rapariga.

Ao virar de uma folha deram de súbito com um cartão fotográfico, que estava solto dentro do livro; um retrato de mulher sorrindo maliciosamente numa posição de teatro: com as suas saias de cambraia, curtíssimas, formando-lhe uma nuvem vaporosa em torno dos quadris; colo nu, pernas e braços de meia.

— Oh! articulou a moça, espantando-se como se o retrato fosse uma pessoa estranha que viesse entremeter-se no seu colóquio.

E maquinalmente, desviou os olhos daquele rosto expressivo que lhe sorria do cartão com um descaramento muito real e uma ironia atrevida. Declarou-a logo detestável.

— Ah, certamente!... E uma dançarina parisiense, explicou Raimundo, fingindo pouco caso. Tem algum merecimento artístico...

E, tomando a fotografia com cuidado, para que Ana Rosa não percebesse a dedicatória nas costas do retrato, colocou-a entre as folhas já vistas do álbum.

Ao terminarem, ele falou muito da Europa e, como a música viesse à conversa, pediu a Ana Rosa que tocasse alguma coisa antes do almoço. Passaram-se para a sala de visitas, e ela, com um grande acanhamento e um pouco de desafinação, executou vários trecho italianos.

Benedito apareceu à porta de corpo nu.

— laiá! Sinhô está chamando pra mesa.

O almoço correu pilheriado e alegre. O cônego Diogo viera a convite de Manuel, no propósito de saírem os dois mais o Raimundo. para dar uma vista d'olhos pelas casinhas de São Pantaleão.

Servida a segunda mesa, os caixeiros subiram com grande ruído de pés.

Por esse tempo aqueles três surgiam na rua, formando cada qual mais vivo contraste com os outros: Manuel no seu tipo pesado e chato de negociante, calças de brim e paletó de alpaca; o cônego imponente na sua batina lustrosa, aristocrata, mostrando as meias de seda escarlate e o pé mimoso, apertadinho no sapato de polimento; Raimundo, todo europeu, elegante, com uma roupa de casimira leve adequada ao clima do Maranhão, escandalizando o bairro comercial com o seu chapéu-de-sol coberto de linho claro e forrado de verde pela parte de dentro. “Formavam dizia este último, chasqueando, sem tirar o charuto da boca uma respeitável trindade filosófica, na qual, ali, o Sr. Cônego representava a teologia, o Sr. Manuel a metafísica, e ele, Raimundo, a filosofia política; o que, aplicado à política, traduzia-se na prodigiosa aliança dos três governos - o do papado, o monárquico e o republicano!”

Ana Rosa espreitava-os e seguia-os com a vista, curiosa, por entre as folhas semicerradas de uma janela.

(continua...)

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