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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Além disso, nas cruentas vicissitudes do iniciamento conjugal, revelam-se na esposa naturais manifestações que, por decoro, devem ser escondidas aos olhos de todo e qualquer homem, ainda mesmo que seja este o próprio consorte.

É preciso, em honra da moral e do respeito à natureza, que a consumação do amor, venha, não ex-abrupto, mas como o fatal e último elo de uma deliciosa e progressiva cadeia de ternuras; é preciso que ela seja a extrema nota de um crescendo de beijos; é preciso que esse momento supremo chegue naturalmente, chamado por todo o corpo reclamado por todos os sentidos, e não decretado friamente por uma lei sacramental, numa situação adrede preparada pela família dos noivos. Para que tão transcendente destino fisiológico se cumpra, sem detrimento do pejo feminil e da dignidade virginal, é indispensável que os dois agentes não tenham, no ato, absoluta consciência, nem a menor preocupação de o consumarem; é preciso que o seu arroubo amoroso haja chegado à loucura, depois de vibrada toda a escala de carícias, e lhes roube, nesse súbito instante delicioso, a luz do julgamento e da razão; e que os dois na insânia do seu desejo, sem juízo para refletir, sem olhos para ver, esquecidos de tudo e cada um de si mesmo, se confundam num só desvairamento de volúpia, e só acordem do seu transporte, e só dêem acordo do seu espírito, depois da ampla consumação carnal.

A crise amorosa, levada pelas carícias ao auge do desejo, atinge às proporções do delírio; e esse delírio, essa momentânea inconsciência dos atos praticados, é o véu providencial com que a natureza esconde, castamente, no supremo instante da vitória da carne, a nudez do homem aos olhos da mulher, a nudez da mulher aos olhos do homem.

Sem esse véu, que os envolve e os oculta à vergonha um do outro, o primeiro amor de uma donzela fica tão prostituído como esses frios amores que os libertinos compram no regaço das perdidas. Ao contrário do que disse S. Mateus, no versículo 28 do seu livro, e com o que Tolstoi fecha o seu duro libelo niilista contra a propagação da espécie, todo o contacto carnal, que não vier precedido de um desejo invencível, é imoral e vicioso. E, pois, todo o enlace de sexo, produzido exclusivamente pela fatalidade dos instintos, sem intervenção absoluta da vontade moral, não é obra da criatura, e sim da natureza, ou de Deus, e como tal deve ser respeitável e sagrado, seja ele na vida dos homens ou na vida dos brutos, ou na vida das plantas; ou, quem sabe? na vida dos astros!

Haverá coisa mais repugnante e mais estúpida do que esse velho costume de preparar a cama dos noivos? e cobri-la de flores, e cercá-la de obscenos cuidados? E mais: depois de um baile, depois de escandalosas fórmulas e cerimônias, em que entram véus brancos e grinaldas de flores simbólicas e depois da vexatória exposição das duas vítimas a todos os olhares e íntimos juízos dos convidados, conduzir a pobre noiva, toda paramentada, para o quarto que lhes destinam, para o toro do defloramento, no meio de um cerimonial de palavras e gestos, trocados entre madrinhas e padrinhos; e depois — abandoná-la ao noivo, de quem se presume não haja nunca recebido uma carícia sensual; e deixá-los a sós, presos na mesma alcova, forçosamente distraídos do seu desejo, a olharem-se um para o outro, sem ter nenhum o que dizer, que não seja afetado e banal; ela a tremer, intimidada pelo desconhecido e pelo terror do que a espera; ele constrangido e aflito, por sentir-se fora de seus hábitos regulares e longe do seu bem-estar, e tendo de despir-se ali mesmo, defronte de uma virgem, e deitar-se com ela na mesma cama, e, afinal, tomá-la convencionalmente nos braços, enquanto a paciente, com toda a lucidez do seu espírito, entanguida e sarapantada de susto, em vez de pensamento de amor, em vez do apócrifo “Enfin seuls”, só rumina e babuja entredentes esta frase ridícula e medrosa: “É agora!”.

Então, haverá coisa mais repulsiva e mais bárbara do que isto?

Ainda hoje me doem amargamente no coração as angústias que sofri na minha primeira noite de casamento, e juro, não obstante, que amava muito meu marido, e que, muito e muito, o desejei antes, nos meus enganosos sonhos de felicidade. Mas, quando me vi a sós com ele, fechada no mesmo quarto, o meu desejo único foi fugir e pedir socorro.

Toda aquela indecorosa encenação de amor; todo aquele cerimonial de que cercaram o meu tálamo; todo aquele desusado e insociável luxo de que sobrecarregaram o aposento, iluminado por uma lâmpada de vidro azul; e o luxo afetado e espetaculoso da cama, e o luxo intencional de rendas e fitas na camisa que me vestiram, e os calculados perfumes que me puseram no corpo; tudo isso, tudo me sobressaltava e me fazia nervosa. Demais, o ar de Virgílio também me constrangia; ele não tinha nessa ocasião as suas maneiras simples, o seu ar franco e simpático de bom rapaz; estava até esquerdo, desajeitado, procurando disfarçar o seu invencível embaraço.

(continua...)

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