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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

Ai se estava festejando a noite com todo o entusiasmo e calor do estilo. As filhas do dono da casa faziam as honras aos hospedes, de que já havia um bom numero no momento em que Lourenço penetrou na salinha.

Lourenço foi entrando, e foram eles logo oferecendo a ele espigas de milho verde quebradinhas meia hora antes no roçado próximo e assadas na fogueira que iluminava o pátio e a frente da casa.

Joaquina não apareceu senão mais tarde. Estava na cozinha preparando a deliciosa canjica, que é o primeiro prato das mesas grandes e pequenas do norte nessa noite de tão formosas e prazenteiras tradições.

Não o afamado bolo de S. João, que só nas mesas ricas ou ao menos abastadas costuma aparecer, mas uns bolos de mandioca estavam assando no forno, e por terem sido feitos pelas duas filhas de Victorino mereciam a honra de ser visitados por elas enquanto não ficavam no tom de apresentar-se.

Entre os hospedes apontavam-se mais de meia dúzia, que eram afamados tocadores de viola e guitarra. Alguns deles temperavam já os seus instrumentos para dar principio ao samba.

No pátio, junto da fogueira, uns meninos descalços, de camisas compridas, rodeavam Saturnino, que, de quando em quando, cantarolando e pulando de alegria, descarregava um clavinote, em honra do santo folgazão. A estes tiros, soltados no terreiro, respondiam outros, também de armas de fogo, com que habitantes dos vales e da beira dos caminhos davam noticias suas. Trocavam assim os vizinhos, através das distancias, seus cumprimentos e as demonstrações do seu inocente prazer.

Aquele que nunca saiu da corte, onde os regozijos públicos se vestem de fitas, sedas, bandeiras, arcarias de sarrafos pintados, iluminações graciosas, fogos de artificio, apresentando o conjunto vistosas cores, caprichosas formas, elegantes perfis, não imagina que sem este aparato deslumbrante, e unicamente com a matéria prima que oferece a natureza, possam preparar-se deleitosos momentos para os espíritos mais difíceis de contentar. Não é outra porém a verdade. Ilumina-se com uma fogueira o pátio da casa, no qual se vê uma laranjeira florida, uma mangueira copada, um cajueiro ramalhudo. Enche-se o pátio do riso argentino das crianças, do assobio dos moleques, dos sons da viola, das saudosissimas toadas do matuto cantador, das harmonias melancólicas da gaita tocada pelo negro do engenho. Tanto basta para que voe o tempo com a rapidez do raio e a satisfação das gentes de campo nada tenha que invejar a que trazem aos habitantes das cidades as musicas de pancadaria, os fogos artificiais, os esplendores agradáveis a vista com que celebram suas alegrias.

Meia hora não se tinha ainda passado depois da chegada de Lourenço, a casa de Victorino, quando nadava com os demais em um mar de indescritível contentamento. Todos os de casa e até os de fora já tinham visto a sombra de suas cabeças ao acender das fogueiras, sinal de que não morreriam aquele ano. Achando-se fora de duvida este ponto, não havia razão para que a alegria não fosse a primeira senão a única expressão de todos os semblantes. Por isso uns gracejavam, outros riam, outros tocavam seus instrumentos, e todos comiam e bebiam no seio da plenissima confiança que caracterizava aquelas épocas como se foram todos membros da mesma família.

Marianinha porém, no meio do prazer imenso de que cada um tinha o seu quinhão, deixava-se tomar naturalmente de ligeira sombra de tristeza, não obstante dever ser em verdade o seu quinhão de prazer muito mais avultado do que o de qualquer dos convivas.

Não era verdadeiramente uma sombra de tristeza a que anuviava interpoladamente o seu rosto iluminado pela suave pureza da juventude. Era, sim, a asa pardacenta de receio traiçoeiro ou de duvida intima a causa do intermitente eclipse daqueles olhos negros e vivos, daquele sorriso franco e loução, daquela voz afinada pelas harpas dos sabiás e dos curiós que cantavam ao nascer e ao pôr do sol nas ramalhudas pitombeiras do quintal.

Quando seus olhos se encontravam com os de Lourenço, a nuvem se adelgaçava e desvanecia como fumo, e o brilho da face, antes escasso, parecia agora o de uma constelação. Se o filho de Francisco dirigia a Bernardina as mesmas palavras, os mesmos gracejos que tinham feito reacender-se no rosto de Marianinha a graça, a vida interrompida quando não eram outros mais languidos e ternos, nova interrupção vinha cortar ai a ventura recentemente morta e logo renascida. Havia naquele coração de mulher o ciúme antes mesmo do amor; havia o receio de perder a felicidade que aliás não existia senão no seu desejo, e na promessa que lhe fizera Francisco.

Marianinha de feito enganava-se. Toda ela era afetos por Lourenço; mas este não tinha para ela especiais atenções.

(continua...)

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