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#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

— O juramento inspirado pelas sugestões do demônio não é juramento, filho. Deus não o aceita, nem o confirma no céu. Jurou o nome de Deus em vão; fez mais, profanou como um ímpio o seu santo nome envolvendo-o em atos desregrados de libertinagem. Cometeu um grande pecado, de que cumpre lavar-se com lágrimas sinceras de compunção e arrependimento; mas não é um juramento, nem o constitui em obrigação alguma.

— Não sei, senhor padre, não sei o que lhe possa objetar... mas o coração se revolta, e diz-me a consciência que eu cometeria uma indignidade, um crime mesmo, arrojando em um abismo de infortúnio e desespero a uma criatura de quem sou mais do que o amparo, de quem sou a única esperança.

— Filho, olhe que toma por vozes da consciência o que não é senão murmúrio da paixão, embuste do demônio que porfia em obumbrar-lhe o espírito e amolecer o coração. Ânimo, filho!... nada o embaraça para esse nobre e santo cometimento, senão a sua própria vontade. Essa paixão que o atormenta é um cálix de provação que Deus lhe preparou para acrisolá-lo na luta e no sofrimento, e tornálo mais digno do sagrado ministério a que o chama o céu. O inimigo com quem tem de travar-se, foi-lhe enviado por Deus, como o anjo de Jacó. Faça como aquele santo patriarca que combateu com o anjo a noite inteira; não se recuse a essa luta agradável aos olhos de Deus; combata noite e dia, que vencerá como Jacó.

Eugênio saiu de junto do padre com o espírito um tanto abalado; pelo menos achava-se resolvido a implorar o auxílio do céu para extinguir aquela paixão, que era ao mesmo tempo o encanto e o tormento de sua existência. Ainda que sem fé a princípio, e sem esperança alguma de resultado — e talvez por isso mesmo — entregou-se como outrora às práticas do mais austero ascetismo, e na solidão de sua cela deu-se à vida de penitência e contemplação com uma exaltação e fervor dignos dos antigos anacoretas dos desertos da Calcida, da Nitria e da Tebaida.

À força de orações e jejuns, vigílias e macerações, de novo conseguiu reduzir o seu corpo a múmia ambulante, e o espírito a um foco de visões beatificas e fanáticas alucinações. Desta vez porém o áspero e pesado manto do ascetismo não logrou abafar a chama teimosa que abrasava o peito do mancebo. A fibra do seu coração tinha-se fortalecido com os anos. O vaso frágil das afeições infantis se convertera em urna diamantina, que conservava inteiro e inalterável o filtro fatal que os lábios de Margarida nele haviam vazado entre os beijos de mel e lágrimas de fogo.

Embora, procurava o anjo de devoção, com a sombra mística, de suas asas, acalmar os tumultuosos transportes daquela alma apaixonada. Na maior exaltação de seus êxtases beatíficos, no rigor de suas austeras mortificações, lá mesmo lhe aparecia a imagem de Margarida, formosa como visão celeste, e com um sorriso melancólico dizia-lhe com acento de triste e amarga exprobração:

— Louco, que pretendes esquecer-me e pedes ao céu forças para ser perjuro e desapiedado! Lutas em vão; eu sou o anjo que leva ao céu teus pensamentos e tuas orações, e jamais consentirei que cheguem ao trono de Deus tuas mentirosas preces. Esquece-me se puderes, mas não peças auxílio ao céu para caíres no inferno!

Então Eugênio, alucinado e quase em delírio, batia com a fronte na terra, estorcendo-se e bradando com voz sufocada entre soluços:

— Perdão, Margarida, perdão!

Assim continuou por longo tempo a luta travada no espírito do mancebo entre o amor e a religião, entre duas paixões que com ele nasceram e com ele poderiam viver e fazer a sua felicidade, se as instituições humanas não houvessem erguido entre elas uma barreira insuperável.

Entretanto, a ausência, o decurso dos anos, a falta absoluta de relações e mesmo de notícias da mulher amada eram circunstâncias que não podiam deixar de influir poderosamente em desvantagem da paixão profana, que insensivelmente se ia arrefecendo como lâmpada velada, que se consome a si mesma e fenece à míngua de alimento. Outro tanto não acontecia ao misticismo, que alimentado por contínuas práticas de devoção, exaltado por eloqüentes e calorosas exortações e conselhos, cada dia ia ganhando terreno, e contava com todos os elementos da vitória.

Duas circunstâncias vieram contribuir poderosamente para acelerar o triunfo das idéias teocráticas e fazer paliar a estrela do amor no horizonte da vida do mancebo.

Era um domingo. Celebrava-se missa solene por ocasião de uma festividade da igreja.

Por esse tempo o padre missionário Jerônimo Gonçalves de Macedo, o digno e venerável companheiro de Viçosa e de Leandro, achava-se em Congonhas do Campo de passagem para o sertão da Farinha Podre, onde por sua grande ilustração e virtudes apostólicas era chamado para lançar as bases de um novo colégio na extremidade ocidental da província de Minas — o seminário de Campo Belo.

Jerônimo foi convidado a pregar o sermão desse dia.

(continua...)

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