Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

- Biltre! bradou o moço encolerizado e levantando o chicote, o cavalo é meu; tenho de ir à casa, e não quero ir a pé.

E já ia pondo o pé no estribo. O meirinho apitou, e súbito dois soldados, surgindo por detrás de uma cerca vizinha, acudiram prontamente, e colocaram-se aos lados de Leonel. Este abaixou os olhos trêmulo e convulso de raiva e de vergonha, e disse aos guardas em tom rápido:

- Vamos! . . . vamos depressa! quero saber que maroteira é esta.

O que ele queria porém era evitar a vergonha e humilhação de ser visto naquelas circunstâncias pelo Major e Lúcia. Lúcia estava doente em seu quarto; mas o Major e algumas outras pessoas da casa já tinham acudido à janela.

- O que é isto, senhor Leonel! ? o que é que estou vendo! exclamou o Major. Camaradas, que quer dizer isto? aqui há decerto algum engano. Que fez este homem?

- Ele melhor o sabe do que nós, senhor Major, disse um dos soldados; pergunte a ele.

- Não se inquiete, Major, disse Leonel. Estou preso, é verdade; mas há sem dúvida algum equívoco. Eu vou já deslindar tudo isto, e breve estou de volta.

E foi saindo a passos rápidos no meio dos dois guardas, e acompanhado pelo meirinho.

Nesse momento vinha descendo pela estrada que passava pela frente da casa a uns cem passos de distância, um cavaleiro todo embuçado em seu ponche e com o rosto quase inteiramente encoberto por seu largo chapéu desabado. Ao presenciar aquela cena, parou, deixando que primeiro passassem a escolta e o preso. Quando iam passando por diante dele, ergueu o chapéu e descobrindo o rosto, clamou com acento de voz satânico:

- Ainda bem, que a vingança do céu veio mais cedo do que eu esperava!

A esta voz Leonel, que marchava rapidamente e com os olhos cravados no chão, levantou sobressaltado a cabeça, estremeceu, cambaleou, e teria caído, se não se tivesse escorado ao braço de um dos guardas. Tinha reconhecido Elias.

Elias, que na manhã daquele mesmo dia tinha partido com o firme propósito de nunca mais voltar a Bagagem, ao sair da mata e avistar as vastas e formosas Campinas que se estendiam diante de seus olhos, sentiu cobrir-lhe o coração uma nuvem da mais sombria tristeza, e a custo se arrancava daqueles sítios onde deixava para sempre sepultadas suas esperanças e sua felicidade. As rédeas bambaleavam frouxas ao pescoço do animal, que marchava como lhe aprazia, enquanto o cavaleiro se esquecia no abismo de seus melancólicos pensamentos. A cada espigão que transpunha, cada buritizal que via atrás de si pelos imensos chapadões, sentia-se-lhe desfalecer a alma, a fraquear a resolução. Seu imenso amor, talvez também uma réstia de luz de esperança, que ainda lhe bruxoleava no fundo d’alma, ou mesmo algum oculto pressentimento o arrastava para junto de Lúcia. Enfim, tanto refletiu, calculou, devaneou, que, depois de ter cismado muito e andado bem pouco, estaria apenas a três léguas de distância, quando já o sol descambava, torceu bruscamente as rédeas ao cavalo, e voltou a galope.

- Vamos! exclamou; quero ir ver com meus próprios olhos a consumação de minha desgraça. Sim! quero ver, assistir a tudo; e seja para ela a minha presença como imagem viva do remorso, e como prelúdio da vingança que não tardará a cair do céu.

Quis o acaso que Elias chegasse exatamente a ponto de assistir ao ato da prisão de Leonel. Depois desta cena a que já assistimos, Elias enterrou outra vez o chapéu sobre os olhos, esporeou o cavalo e seguiu seu destino, murmurando consigo:

- Ah! Lúcia! Lúcia! tu me traíste, mas nem assim meu coração pode odiar-te, e agora sinto-me feliz por te ver livre das garras daquele malvado, do que por me ver tão cabal e solenemente vingado!

XIII – OS VIZINHOS

Depois da triste ocorrência da noite de sábado,Lúcia bem quisera mandar a Elias um bilhete, um simples recado mesmo, não para reatar relações culpáveis com seu antigo amante; seu honesto coração repelia semelhante idéia, mas para explicar seu procedimento, pedir-lhe perdão, e dizer-lhe um derradeiro e eterno adeus. Mas como? sempre rodeada de pessoas que a cercavam de cuidados às vezes importunos, não lhe era possível satisfazer esse desejo. Seu pai mesmo, receando que de novo se reavivasse um sentimento que já supunha quase extinto, posto que tivesse toda a confiança na honestidade de sua filha, contudo, à vista do estado de exaltação em que caíra sua imaginação enferma, julgou necessário observa-la com todo o cuidado e vigilância.

Esta contínua obsessão ainda mais lhe irritava o espírito, e aumentava os martírios do coração. Ser odiada, desprezada talvez por Elias sem deparar um meio de justificar-se para com ele e pedir-lhe perdão, era a mais pungente das torturas que a atormentavam. Queria só poder lhe dizer:

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3334353637...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →