Por José de Alencar (1864)
—Eu não sou inteiramente pobre, mas também não sou rico, e tenho acima de tudo a ambição do dinheiro.
—Ah! fez ela cerrando as pálpebras e encostando a cabeça no recosto do banco para ouvir-me impassível. Seu olhar, coando entre os cílios e partindo-se em mil raios, cintilava sobre o meu rosto, como o trêmulo rutilo-de uma estrela.
—O que lhe vou dizer é talvez humilhante para mim; mas eu me sacrifico! —Muito agradecida! Isso me penhora: respondeu-me, inclinando-se com um sério imperturbável.
—A exceção do comércio, a senhora sabe que não há no Brasil carreira alguma pela qual se possa chegar depressa... e honestamente, à riqueza. A minha, mal dá para viver com decência. Portanto sendo eu honesto... porque tenho medo da polícia, e não gosto que me incomodem... sendo eu honesto, repito, só havia um recurso à minha ambição... Adivinha qual? —Suspeito; mas diga sempre.
—O do casamento.
—É um recurso lícito e fácil.
—Não tanto como lhe parece.
—Ora! Para o senhor?...
—Para mim, sim senhora ; porque embora ambicioso, eu não estou disposto a sacrificar à riqueza minha felicidade; seria um absurdo, pois se eu quero ser rico é para ser feliz.
—E como pretende conciliar isto? Deve ser curioso.
—É agora que eu preciso de toda a sua indulgência; vendo-a quando voltei da Europa, senti-me atraído para a senhora por uma inclinação que eu considerei amor ; e essa inclinação... não devo ocultar cousa alguma para minha maior vergonha... essa inclinação aumentou involuntariamente quando soube que os negócios do Sr.
Duarte tinham prosperado por tal forma que ele era, se não o maior, um dos maiores e mais sólidos capitalistas da praça do Rio de Janeiro... Não sei se deva continuar!...
—Por que não, doutor? Eu estou ouvindo-o com um prazer imenso! —Mas eu me acanho...
—É modéstia própria dos homens de talento, que sabem viver Mas nós nos conhecemos!...
—Bem; eu continuo... Disse-lhe que a amava já muito, mas isso não era nada em comparação do que senti depois... Um dia, alguém, creio que um corretor, assegurou-me que o Sr. Duarte era nada menos que milionário... duas vezes milionário...
—Ah! Eu ignorava! —Pois saiba que é. Viúvo, só com dois filhos... pensei eu...
Então D. Emília terá um milhão do dote! Um milhão! Desde esse momento meu amor não teve mais limites; tornou-se uma paixão digna de Romeu, de Otelo, dos mais celebrados heróis de dramas e romances. Como sua formosura então revelou-se resplancedente aos meus olhos!... Eu compreendi nessa ocasião os poetas que eu não compreendera nunca, e as suas comparações minerais... Vi que seus dentes mimosos eram realmente pérolas de Ceilão, seus lábios rubis de Ofir, e seus olhos diamantes da melhor água! Sua voz argentina tinha aos meus ouvidos essa melodia inefável, que nem Rossini nem Verdi puderam ainda imitar, a melodia do ouro... do ouro, a senhora bem sabe, a lira de Orfeu deste século!... Oh! Que paixão, D. Emília! Era um delírio... uma loucura... Foi então que eu não pude mais resistir e confessei-lhe que a amava! Emília ergueu-se rápida:
—Ah! compreendo agora!...
Como não fiquei ao ver aquela mulher, exultando de júbilo e orgulho ali, em face de mim, que pensava têla afinal humilhado com meu frio sarcasmo.
—O que é que a senhora compreende, D. Emília? —Que eu vivo em sua alma! E como o senhor não pode arrancar-me dela, procura rebaixar-me a seus próprios olhos e humilhar-me para ter a força, que não tem, de me desprezar! O senhor ama-me, e há de amar-me enquanto eu quiser... e há de esperar aqui, a meu lado, até que chegue a hora em que me perca para sempre... Porque eu, é que posso jurar-lhe: não o amo, não o amei, não o amarei nunca...
A paixão recalcada por algum tempo, ergueu-se indomável em minha alma, e precipitou como uma fera sedenta para essa mulher.
Toda a lia que o pecado original depositou no fundo do coração humano, revolveu-se e extravasou.
Eu avancei para Emília; e meu passo hirto, e meu olhar abrasado, deviam incutir-lhe terror.
—Pois bem, exclamei eu com a voz surda e trêmula. A senhora quer! É verdade! Eu a amo! Mas aquela adoração de outrora, aquele culto sagrado cheio de respeito e admiração... Tudo isso morreu! O que resta agora neste coração que a senhora esmagou por um bárbaro divertimento, o que resta, é o amor brutal, faminto, repassado de ódio... é o desespero de se ver escarnecido, e a raiva de querê-la e obrigá-la a pertencer-me para sempre e contra sua própria vontade!...
—Eu o desprezo!... respondeu-me Emília.
Era quase noite. A voz de Julinha soou no jardim, chamando a prima. Eu ia dar um ultimo passo para Emília; hesitei.
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.