Por José de Alencar (1870)
— Entre, que hão de estar à nossa espera. São cinco horas; demorei-me hoje além do costume; por causa mesmo do senhor, maganão! Certos arranjos.
Horácio procurou rir, mas fez uma careta que desculpou com um calo. Ele, o leão, sempre elegante, correto e irrepreensível no traje como nas maneiras, tinha perdido completamente a serenidade de espírito.
As senhoras estavam reunidas na saleta. Amélia ficou surpreendida, vendo
Horácio de volta com seu pai; e reprimiu o contentamento que sentia. Mas este durou pouco. Ela conheceu logo que o leão obedecera mais às conveniências, do que ao afeto que lhe tinha.
Contudo essa volta significava alguma coisa. Ela, Amélia, não causava horror a seu noivo.
O jantar foi animado pela conversa viva e espirituosa de Horácio, que havia recuperado seu sangue-frio. Uma circunstância porém não escapou a Amélia, que passou despercebida às outras pessoas; o leão, apesar de sentado à sua esquerda, não achou um momento para trocar com ela uma palavra. Ao contrário, manteve sempre a conversação geral, para impedir o diálogo íntimo, que ele receava. Terminando o jantar, Horácio achou um pretexto para retirar-se logo.
— O que se passou, D. Amélia, é mais do que um segredo para mim; eu nada sei, esqueci, disse ele despedindo-se.
Tocando apenas na mão que a moça lhe estendera, saiu.
Amélia deu um passo para chamá-lo, mas apoiando-se ao recosto do sofá, permaneceu imóvel, escutando os passos do noivo até que se perderam ao longe.
CAPÍTULO XVI
Fazia uma semana que Horácio não aparecia em casa de Sales.
Amélia tinha por duas vezes mandado saber do noivo. Da primeira contentouse com um recado; da segunda enviou-lhe uma saudade.
O negociante de sua parte havia passado por casa do moço, que pretextou um defluxo para justificar sua ausência; e prometeu aparecer no dia seguinte.
Horácio compreendia a necessidade de sair da posição difícil em que se achava, mas debalde procurava um meio. Cansado de cogitar, entendeu que o melhor era confiar-se à inspiração do momento.
No dia seguinte à noite, dirigiu-se à casa do negociante.
As duas senhoras estavam sentadas junto à mesa; a mãe lia, a filha pensava. Amélia estava triste, sua mãe supunha que eram saudades.
Quando Horácio entrou, D. Leonor o festejou com verdadeiro prazer. Amélia sentiu um vislumbre de esperança, que iluminou o sorriso de seus lábios.
— Felizmente! exclamou D. Leonor. Esta casa era uma fonte dos suspiros!
A conversação começou friamente, e foi se arrastando por algum tempo. -Não tem saído? perguntou Horácio depois de uma pausa.
— Não; Amélia não tem querido.
— Por quê? perguntou o moço voltando-se para a noiva.
— Então não sabe? acudiu D. Leonor.
— Porque não se ofereceu ocasião, disse Amélia.
— Mas tem recebido visitas?
— Algumas.
— O Leopoldo não apareceu?
— Não freqüenta nossa casa, respondeu a moça.
— Ah!... cuidei.
— Se ele nos visitasse, o senhor o teria encontrado aqui muitas vezes. -Podíamos nos desencontrar, disse Horácio com um sorriso motejador. Amélia percebeu que o moço estava procurando um pretexto para despeitar-se. D. Leonor tendo continuado a leitura interrompida, estava alheia à conversação.
— Foi em casa do Azevedo que o apresentaram à senhora?
— Não; conheço-o de muito tempo; há perto de dois meses.
— De onde, se não é segredo?
— Segredo, por quê? Ele freqüenta a casa de D. Clementina que recebe às quintas-feiras. Constantemente nos encontramos aí. É uma reunião muito agradável; estamos quase em família, sem a menor cerimônia.
— Ah! nunca me convidou para essas reuniões; eu teria muito prazer em acompanhá-la, mas talvez fosse importuno, como já vou sendo aqui.
— O senhor está habituado a viver na alta sociedade; havia de aborrecer-se.
— Mas a senhora não se aborrecia; ao contrário divertia-se bastante.
— Alguma coisa.
— E Leopoldo era seu par?
— Era.
— Par constante?
— Não sei se era constante ou não; quase sempre ele dançava comigo, porque lá não há muito onde escolher; os pares são poucos.
— Ótimo sistema! Assim não se repara.
— Em quê?
— Em certa assiduidade! Ainda mesmo que uma moça já tenha noivo arranjado, há gente que exige da parte dessa moça certa reserva, porque enfim o outro pode não querer aceitar a responsabilidade de tudo! É uma impertinência, concordo, mas o mundo tem destes caprichos.
— Isso se entende naturalmente com as moças que têm noivo arranjado, retorquiu Amélia frisando a palavra, e não com aquelas, cuja mão se pediu talvez para satisfazer uma simples fantasia.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.