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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

Longamente, errei estonteado... Ora esbarrava num franciscano cingido na sua corda de esparto; ora me arredava diante de um padre copta, deslizando como uma sombra tênue, precedido por serventes que tangiam as pandeiretas sagradas do tempo de Osíris. Aqui topava num montão de roupagens brancas, caído nas lajes como um fardo, de onde se escapavam gemidos de contrição; adiante tropeçava num negro, todo nu, estirado ao pé de uma coluna, dormindo placidamente. Por vezes o clamor sacro de um órgão ressoava, rolava pelos mármores da nave, morria com um sussurro de vaga espraiada; e logo mais longe um canto armênio, trêmulo e ansioso, batia os muros austeros como a palpitação das asas de uma ave presa que quer fugir para a luz. Junto de um altar apartei dous gordos sacristães, um grego, outro latino, que se tratavam furiosamente de birbantes, esbraseados, cheirando a cebola; e fui de encontro a um bando de romeiros russos de grenhas hirsutas, vindos decerto do Cáspio, com os pés doloridos embrulhados em trapos, que não ousavam mover-se, enleados de terror divino, torcendo o barrete de feltro entre as mãos, de onde lhes pendiam grossos rosários de vidro. Crianças, em farrapos, brincavam na escuridão das arcarias; outras pediam esmola. O aroma do incenso sufocava; e padres de cultos rivais puxavamme pela rabona para me mostrarem relíquias, rivais, heróicas ou divinas - uns as esporas de Godofredo, outros um pedaço de cana verde.

Atordoado, enfileirei-me numa procissão penitente - onde eu julgara entrever, brancas, altivas, entre véus pretos de arrependimento, as duas penas de gaivota. Uma carmelita, à frente, resmungava a ladainha, detendo-nos a cada passo, arrebanhados num assombro devoto, à porta de capelas cavernosas, dedicadas à paixão - a do Impropério, onde o Senhor foi flagelado, a da Túnica, onde o Senhor foi despido. Depois subimos, de tochas na mão, uma escadaria tenebrosa, escavada na rocha... - E subitamente todo o tropel devoto se atirou de rojo, ululando, carpindo, gemendo, flagelando os peitos, clamando pelo Senhor, lúgubre e delirante. Estávamos sobre a pedra do Calvário.

Em torno, a capela que a abriga, resplandecia com um luxo sensual e pagão. No teto azul-ferrete brilhavam sóis de prata, signos do zodíaco, estrelas, asas de anjos, flores de púrpura; e, dentre este fausto sideral, pendiam de correntes de pérolas os velhos símbolos da fecundidade, os ovos de avestruz, ovos sacros de Astarté e de Baco de ouro. Sobre o altar elevava-se uma cruz vermelha com um Cristo tosco pintado a ouro, que parecia vibrar, viver através do fulgor difuso dos molhos de lumes, da faiscação das alfaias, do fumo dos aromáticos ardendo em taças de bronze. Globos espelhados, pousando sobre peanhas de ébano, refletiam as jóias dos retábulos, a refulgência das paredes revestidas de jaspe, de nácar e de ágata. E no chão, em meio deste clarão precioso de pedraria e luz, emergindo dentre as lajes de mármore branco, destacava um bocado de rocha bruta e brava, com uma fenda alargada e polida por longos séculos de beijos e de afagos beatos. Um arquidiácono grego, de barbas esquálidas, gritou: "Nesta rocha foi cravada a cruz! A cruz! A cruz! Miserere! Kyrie Eleison! Cristo! Cristo!" As rezas precipitaram-se, mais ardentes, entre soluços. Um cântico dolente balançava-se, ao ranger dos incensadores. Kyrie Eleison! Kyrie Eleison! E os diáconos perpassavam rapidamente, sofregamente, com vastos sacos de veludo, onde tilintavam, se afundavam, se sumiam as oferendas dos simples.

Fugi, aturdido e confuso. O sábio historiador dos Herodes passeava no adro, sob o seu guardachuva, respirando o ar úmido. De novo nos acometeu o bando esfaimado dos vendilhões de relíquias. Repeli-os rudemente; e saí do santo lugar como entrara - em pecado e praguejando.

No hotel, Topsius recolheu logo ao quarto a registrar as suas impressões do sepulcro de Jesus; eu fiquei no pátio cervejando e cachimbando com o aprazível Pote. Quando subi, tarde, o meu esclarecido amigo já ressonava, com a vela acesa - e com um livro aberto sobre o leito, um livro meu, trazido de Lisboa para me recrear no país do Evangelho, o Homem dos Três Calções. Descalçando os botins, sujos da lama venerável da Via-Dolorosa - eu pensava na minha Cibele. Em que sacratíssimas ruínas, sob que árvores divinizadas por terem dado sombra ao Senhor, passara ela essa tarde nevoenta de Jerusalém? Fora ao Vale do Cédron? Fora ao branco túmulo de Raquel?...

(continua...)

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