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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

Não havia decerto nada de desagradável para Alípio Abranhos na publicação dessa eloquente página de prosa, mas tal publicidade, autorizada por tal individualidade, equivalia a desconhecer o salutar princípio do segredo da correspondência privada, em matéria política. Por isso, em defesa do princípio, Alípio Abranhos intimou Cardoso Torres a que não publicasse a sua carta.

As negociações foram longas e muito delicadas. Mas em presença da opinião de vários membros do Governo, de numerosos membros da maioria, de jornalistas e notabilidades de todos os credos políticos, ficou estabelecido que uma carta particular não sofria publicação; que tal regra, a desprezar-se, estabeleceria um pernicioso sistema de vinganças e de represálias; que, nesse caso, muitas cartas, que por motivos óbvios convinha guardar nas secretarias, apareceriam a público; e finalmente que era do interesse de todos os partidos e indispensável à sua consideração pública, que nunca vissem a luz da publicidade documentos privados, isto em obediência àquela sábia regra política, tão pitorescamente formulada por Napoleão I: «é necessário que a roupa suja seja sempre lavada em família!»

Temos pois Alípio Abranhos deputado por Freixo de Espada à Cinta. A sua surpresa, ao ver-se subitamente e inesperadamente instalado numa cadeira em S. Bento, foi na realidade deliciosa.

Decerto, contava entrar um dia na vida pública, onde logicamente o chamavam o seu talento e os seus estudos, mas não esperava que fosse tão cedo, apenas chegado da quinta de Campolide e das pieguices da lua de mel. Podia pois dizer com orgulho que não fora a intriga, a corrupção, a pressão que lhe davam a posse daquele círculo, que se tinha aberto de par em par ao seu talento dominador. Ele, de facto, conhecia tão pouco Freixo de Espada à Cinta, que lhe sucedeu dizer no agradecimento que dirigiu aos seus eleitores: «Um dia, meus amigos, irei visitar a vossa bela província do Minho, que eu apenas conheço incompletamente, e espero então, ó freixenses, apertar a vossa mão honrada de verdadeiros liberais e de verdadeiros portugueses!» Ora é bem sabido que Freixo de Espada à Cinta não é no Minho: é em Trás-osMontes.

Porém, este natural equívoco – de que ele mesmo mais tarde se ria com bonomia– é a prova mais decisiva de que Alípio Abranhos foi eleito deputado, não por ter «intrigado» num círculo, mas pela simples evidência do seu formoso talento.

De resto, apenas abertas as Câmaras, tendo-se informado com cuidado dos nomes das pessoas influentes de Freixo de Espada à Cinta, a todas escreveu, oferecendo a sua influência, os serviços da sua eloquência e a sua casa.

E foi infatigável: cartas de empenho, recomendações para examinadores, Cruzes de Cristo, empregos subalternos, licenças para visitar Monserrate, tudo deu prodigamente, espontaneamente aos freixenses. Nenhuma solicitação vinda de Freixo era descuidada. Mesmo um jovem poeta, filho de um influente, que viera implorar a sua protecção teve o orgulho de ver o seu drama – Vingança de um Rival – representado em D. Maria, ainda que sofreu no fim o desgosto de uma pateada memorável. Alípio, porém, consolou-o, empregandoo imediatamente na repartição das Contribuições indirectas.

No primeiro ano em que eu exerci as funções de seu secretário particular, muitas vezes notei, à mesa, ou à noite na sala, indivíduos silenciosos que se sentavam com timidez na borda das cadeiras, se levantavam sempre que o Conde lhes passava rente, e tinham nas fisionomias e nos fraques o quer que fosse de insólito: eram freixenses que vinham à Capital e ali encontravam uma hospitalidade benévola, e que, de volta à sua.montanha, celebravam o poder do deputado e a sua grande afabilidade. Naturalmente, logo que o Conde foi nomeado Par do Reino, esta benevolência sistemática findou, e ele, segundo a sua engraçada expressão, «livrou-se para sempre daquela horda de carrapatos!»

Como já disse, a sua nomeação causou a Alípio Abranhos uma viva alegria. Mais tarde, a Condessa contou-me que, poucos dias depois da eleição, o surpreendera, uma manhã, diante do espelho, vestido com a sua farda nova de deputado e exclamando:

– Peço a palavra, Sr. Presidente! Ordem! Ordem! Apoiado! Não seremos nós que desertaremos a bandeira do progresso!

A Srª Condessa, na sua simplicidade de mulher, ria deste incidente. Mas a mim comoveu-me e fez-me pensar em Demóstenes, ensaiando, junto do mar, as suas apóstrofes sublimes aos tiranos.

(continua...)

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