Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

Os Maias

Por Eça de Queirós (1888)

Mas a creatura, desvanecida, tornou-se intoleravel, fallando sem cessar d'outras paixões que inspirára em Madrid e em Lisboa, do muito que lhe dera o conde de tal, o marquez sicrano, da grande posição da sua familia ainda aparentada com os Medina-Coeli: os seus

sapatos de setim verde eram tão antipathicos como a sua voz estridula: e quando tentava elevar-se ás conversações que ouvia, rompia a chamar ladrões aos republicanos, a celebrar os tempos de D. Isabel, a sua gracia, o seu salero - sendo muito conservadora como todas

as prostitutas. João da Ega odiava-a. E Craveiro declarou que não voltava aos Paços de Cellas emquanto por lá apparecesse aquelle montão de carne, pago ao arratel, como a de vacca.

Emfim, uma tarde Baptista, o famoso criado de quarto de Carlos surprehendeu-a com um Juca que fazia de dama no Theatro Academico. Ahi estava, emfim, um pretexto! E, convenientemente paga, a parenta dos

Medina-Coeli, o Lirio d'Israel, a admiradora dos

Bourbons, foi recambiada a Lisboa e á rua de S. Roque, seu elemento natural.

Em agosto, no acto da formatura de Carlos, houve uma alegre festa em Cellas. Affonso viera de Santa Olavia, Villaça de Lisboa; toda a tarde no quintal, d'entre as acacias e as bella-sombras, subiram ao ar mólhos de foguetes; e João da Ega, que levára o seu ultimo

R no seu ultimo anno, não descansou, em mangas de camisa, pendurando lanternas venezianas pelos ramos, no trapesio e em roda do poço, para a illuminacão da noite. Ao jantar, a que assistiam lentes, Villaça, enfiado e tremulo, fez um speech; ia citar o nosso immortal Castilho quando sob as janellas rompeu, a grande ruido de tambor e pratos, o Hymno Academico. Era uma serenata. - Ega, vermelho, de batina desabotoada, a luneta para traz das costas, correu á sacada, a perorar:

- Ahi temos o nosso Maia, Carolus Eduardus ab Maia, começando a sua gloriosa carreira, preparado para salvar a humanidade enferma - ou acabar de a matar, segundo as circumstancias! A que parte remota d'estes reinos não chegou já a fama do seu genio, do

seu dog-cart, do sebaceo accessit que lhe ennodôa o passado, e d'este vinho do Porto, contemporaneo dos heroes de 20, que eu, homem de revolução e homem de carraspana, eu, João da Ega, Johanes ab Ega...

O grupo escuro em baixo desatou aos vivas. A philarmonica, outros estudantes, invadiram os Paços. Até tarde, sob as arvores do quintal, na sala atulhada de pilhas de pratos, os criados correram com salvas de dôce, não cessou d'estalar o champagne. E Villaça, limpando a testa, o pescoço, abafado de calor, ia dizendo a um, a outro, a si mesmo tambem:

- Grande coisa, ter um curso!

E então Carlos Eduardo partira para a sua longa viagem pela Europa. Um anno passou. Chegára esse outono de 1875: e o avô installado emfim no Ramalhete esperava por elle anciosamente. A ultima carta de Carlos viera de Inglaterra, onde andava, dizia elle, a

estudar a admiravel organização dos hospitaes de crianças. Assim era: mas passeava tambem por Brighton, apostava nas corridas de Goodwood, fazia um idyllio errante pelos lagos da Escocia, com uma senhora hollandeza, separada de seu marido, veneravel magistrado da Haya, uma Mme. Rughel, soberba creatura de cabellos d'ouro fulvo, grande e branca como uma nympha de Rubens.

Depois começaram a chegar, dirigidas ao Ramalhete, caixas successivas de livros, outras de instrumentos e apparelhos, toda uma bibliotheca e todo um laboratorio - que trazia o Villaça, manhãs inteiras, aturdido pelos armazens da alfandega.

- O meu rapaz vem com grandes idéas de trabalho, dizia Affonso aos amigos.

Havia quatorze mezes que elle o não via, o «seu rapaz», a não ser n'uma photographia mandada de Milão, em que todos o acharam magro e triste. E o coracão batia-lhe forte, na linda manhã de outono, quando do terraço do Ramalhete, de binoculo na mão, viu assomar vagarosamente, por traz do alto predio fronteiro, um grande paquete do Royal Mail que lhe trazia o seu neto.

Á noite os amigos da casa, o velho Sequeira, D. Diogo Coutinho, o Villaça - não se fartavam d'admirar «o bem que a viagem fizera a Carlos». Que differença da photographia! Que forte, que saudavel!

Era decerto um formoso e magnifico moço, alto, bem feito, de hombros largos, com uma testa de marmore sob os anneis dos cabellos pretos, e os olhos dos Maias, aquelles irresistiveis olhos do pai, de um negro liquido, ternos como os d'elle e mais graves. Trazia a barba toda, muito fina, castanho-escura, rente na face, aguçada no queixo - o que lhe dava, com o bonito bigode arqueado aos cantos da boca, uma physionomia de bello cavalleiro da Renascença. E o avô, cujo olhar risonho e humido transbordava d'emoção, todo se orgulhava de o vêr, de o ouvir, n'uma larga veia, fallando da viagem, dos bellos dias de Roma, do seu mau humor na Prussia, da originalidade de Moscow, das paizagens da Hollanda...

- E agora? perguntou-lhe o Sequeira, depois de um momento de silencio em que Carlos estivera bebendo o seu cognac e soda. Agora que tencionas tu fazer?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3334353637...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →