Por Eça de Queirós (1878)
Os olhos largos de Luísa afirmavam-se para a música - ou a espaços, com um movimento rápido, erguiam-se para Basílio. Quando, na nota final, prolongada como a reclamação de um amor suplicante, Basílio soltou a voz de um modo apelativo:
- Vem! Vem
Pousar, ó doce amada, Teu peito contra o meu...
os seus olhos fixaram-se nela com uma significação de tanto desejo que o peito de Luísa arfou, os seus dedos embrulharam-se no teclado.
O Conselheiro bateu as palmas.
- Uma voz admirável! - exclamava. - Uma voz admirável!
Basílio dizia-se envergonhado.
- Não, senhor, não, senhor! - protestou Acácio, levantando-se. - Um excelente órgão! Direi, omelhor órgão da nossa sociedade!
Basílio riu. Uma vez que tinha sucesso, então ia dizer-lhes uma modinha brasileira da Bahia. Sentou-se ao piano, e depois de ter preludiado uma melodia muito balançada, de um embalado tropical cantou:
- Sou negrinha, mas meu peito
Sente mais que um peito branco.
E interrompendo-se:
- Isto fazia furor nas reuniões da Bahia quando eu parti.
Era a história de uma "negrinha" nascida na roça, e que contava, com lirismos de almanaque, a sua paixão por um feitor branco.
Basílio parodiava o tom sentimental de alguma menina baiana; e a sua voz tinha uma preciosidade cômica, quando dizia o ritornelo choroso:
- E a negra pra os mares
Seus olhos alonga; No alto coqueiro
Cantava a araponga.
O Conselheiro achou "delicioso"; e, de pé na sala, lamentou a propósito da cantiga a condição dos escravos. Que lhe afirmavam amigos do Brasil que os negros eram muito bem tratados. Mas enfim a civilização era a civilização! E a escravatura era um estigma! Tinha todavia muita confiança no imperador...
- Monarca de rara ilustração... - acrescentou respeitosamente.
Foi buscar o seu chapéu, e colando-lhe as abas ao peito, curvando-se, jurou que - havia muito tempo não tinha passado uma manhã tão completa. De resto nada havia como a boa conversação e a boa música...
- Onde está Vossa Excelência alojado, Sr. Brito?
Pelo amor de Deus! Que não se incomodasse! Estava no Hotel Central.
Não havia considerações que o impedissem de cumprir o seu dever - Cumpri-lo-ia! Ele era uma pessoa inútil, a senhora D. Luísa bem o sabia - Mas se necessitar alguma coisa, uma informação, uma apresentação nas regiões oficiais, licenças para visitar algum estabelecimento público, creia que me tem às suas ordens!
E conservando na sua mão a mão de Basílio:
- Rua do Ferregial de Cima, número três, terceiro. O modesto tugúrio de um eremita.
Tomou a curvar-se diante de Luísa:
- E quando escrever ao nosso viajante, que faço sinceros votos pela prosperidade dos seusempreendimentos. Por quem é! Criado de Vossa Excelência. E direito, grave, saiu.
- Este ao menos é limpo - resmungou Basílio, com o charuto ao canto da boca.
Sentara-se outra vez ao piano, corria os dedos pelo teclado. Luísa aproximou-se:
- Canta alguma coisa, Basílio!
Basílio pôs-se então a olhar muito para ela.
Luísa corou, sorriu; através da fazenda clara e transparente do vestido, entrevia-se a brancura macia e láctea do colo e dos braços; e nos seus olhos, na cor quente do rosto havia uma animação e como uma vitalidade amorosa.
Basílio disse-lhe, baixo:
- Estás hoje nos teus dias felizes, Luísa.
O olhar dele, tão ávido, perturbava-a; insistiu:
- Canta alguma coisa.
O seu seio arfava.
- Canta tu - murmurou Basílio.
E devagarinho, tomou-lhe a mão. As duas palmas um pouco úmidas, um pouco trêmulas, uniram-se.
A campainha, fora, tocou. Luísa desprendeu a mão, bruscamente.
- É alguém - disse agitada.
Vozes baixas falavam à cancela.
Basílio teve um movimento de ombros contrariado; foi buscar o chapéu.
- Vais-te? - exclamou ela toda desconsolada.
- Pudera! Não posso estar só contigo um momento!
A cancela fechou-se com ruído. Não é ninguém, foi-se - disse Luísa.
Estavam de pé, no meio da sala.
- Não te vás! Basílio!
Os seus olhos profundos tinham uma suplicação doce. Basílio pousou o chapéu sobre o piano; mordia o bigode um pouco nervoso.
- E para que queres tu estar só comigo? - disse ela. - Que tem que venha gente? - Earrependeu-se logo daquelas palavras.
Mas Basílio, com um movimento brusco, passou-lhe o braço sobre os ombros, prendeu-lhe a cabeça, e beijou-a na testa, nos olhos, nos cabelos, vorazmente.
Ela soltou-se a tremer, escarlate.
- Perdoa-me - exclamou ele logo, com um ímpeto apaixonado. - Perdoa-me. Foi sem pensar.Mas é porque te adoro, Luísa!
Tomou-lhe as mãos com domínio, quase com direito.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Primo Basílio. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7530 . Acesso em: 29 jun. 2026.