Por Eça de Queirós (1870)
Mas então foi Cármen que não quis ficar dentro do palanquim, pediu, gritou, queria montar a cavalo, sentir o cheiro à fera.- Tirem-me daqui, tirem-me daqui! Não fiz esta jornada toda para ficar dentro de uma gaiola...Não havia sela em que mulher montasse, nem cavalo bastante fiel; não se podia consentir que Cármen descesse. Mas eu tive uma ideia estranha, perigosa, tentadora, imprevista: era pô-la à garupa do meu cavalo. Disse-lho.Ela teve um gesto de alegria, quase se deixou escorregar, agarrando-se às cordas do palanquim, pelo ventre do elefante; correu, pôs o pé no meu estribo, enlaçou-me a cintura, e com um lindo pulo, sentouse à garupa. Os oficiais exclamavam que era uma imprudência.Ela queria, instava, e apertavame contra a curva do seu peito, rindo, jurando que nem as garras do tigre a arrancariam dali...Os malaios preparavam os tridentes, dispunham a matilha. Eu, como levava Cármen à garupa, tinha-me colocado atrás do grupo, cerrado, com os pés firmes no estribo, atento, os olhos fitos na espessura dos tamarindos.Mas nem se ouviam rugidos, nem um estremecimento de folha gem.
Cármen apertava-me exaltada.- Vá! Vá! — pediu-me ela baixo. — O tigre, o tigre! Dê o sinal! Ergui um revólver, e disparei. O eco foi cheio e poderoso. E logo ouviu-se um rugido surdo, lúgubre, rouco, que era a resposta do tigre. Estava perto, entre os primeirostamarindos. A matilha rompeu a ladrar...
— Que ninguém se alargue! — disse o velho brâmane, que tinha trepado a uma palmeira,e de lá olhava, farejava, ordenava. Todos conservaram a espada ou tridente inclinado em riste, es perando o salto do tigre. Eu dera uma cuchilla a Cármen, tinha na mão da rédea um forte revólver e na outra umpunhal curvo...
De repente os arbustos estremeceram, as altas ervas curva ram-se, sentiu-se um bafoquente, um cheiro de sangue, e o tigre veio cair, com um rugido, diante dos caçadores, no meio da clareira, estacado e imóvel.
Era muito comprido, de pernas curtas e espessas, a cabeça ós sea, os olhos fulvos,ferozes, num movimento perpétuo e convulsivo; e a língua vermelha como sangue coalhado, pendia-lhe fora da boca.Um momento o tigre arrastou-se, batendo os ilhais com a cau da. Depois , com um gemido profundo, saltou. Mas os cães, arre messando-se, tinham-no prendido no ar, pelas orelhas, pela pele espessa do pescoço, pelas pernas, vestindo-o de mordeduras, ras gando-o, rugindo, cobrindo-o todo. Alguns ficaram logo despeda çados. E no instante em que a fera, tendo cuspido todos os cães, ficou só, magnífica e de cabeça alta, o brâmane fez um sinal.Duas balas partiram. O tigre rugiu, rolou-se freneticamente no chão. Estava ferido.
Imediatamente ergueu-se, arremessou-se sobre os homens. Todos tinham o tridente eos punhais enristados, o ventre da fera veio rasgar-se nas lâminas agudas. Prendera, porém, ummalaio entre as ganas, e rasgava-lhe o peito. À uma to dos enterravam as facas no corpo do animal, e ele, sucumbindo sob o peso, sob as feridas, varado por uma bala, debatia-se aindaferozmente, esmigalhando na agonia os membros do pobre malaio.
— Nada de bala! Nada de bala! — gritava o brâmane. Eu estava fascinado. Cármen convulsivamente apertada a mim, com os olhoschamejantes, vibrando por todo o corpo, dava gritos surdos de excitação. O tigre ficara estendido, escorrendo sangue. Eu devorava-o com a vista, seguia-lhe a mais pequenacontracção dos músculos. Vi-o arquear-se de repente, e com um pulo vertiginoso arremessar-se sobre mim e sobre Cármen. Com uma determinação súbita, disparei um tiro do meu revólver no ouvido do cavalo que montávamos. O animal caiu sobre os joelhos, nósrolámos no chão. O tigre levava um pulo elevado, roçou pelas nossas cabeças, foi cair a distância, revolvendo-se na terra. Er gui-me, arrojei-me a ele, cravando-lhe o punhal entre aspatas dianteiras com um movimento rápido, que lhe foi ao coração. O ti gre ficou morto. Abaixei-me, e com uma faca malaia em forma de serra cortei-lhe uma pata, e apresentei-a a Cármen.- Hurra — gritaram todos, e o eco deste grito estendeu-se pe la floresta.
Cármen tinha-se aproximado do tigre morto, acariciava-lhe a pele aveludada, tocavalhe com as pontas dos dedos no sangue que escorria.- Hurra! Hurra! — continuavam gritando os caçadores.
Cármen, então, arremessando-se aos meus braços, beijou-me na testa com entusiasmo,dizendo alto: — Salvou-me a vida! Devo-lhe a vida!... E mais baixo, murmurou-me ao ouvido:- Amo-te.
A tarde caía. Sentíamos os braços fracos, e grande sede. Come çámos a dirigir-nos paraCalcutá. Descansámos numa plantação de índigo. E ao começar da noite, com archotes acesos e cantando, partimos alegremente para a cidade, pela floresta, num caminho conhecido e seguro. As luzes davam à ramagem atitudes fantás ticas; pássaros acordandoesvoaçavam; e sentia-se o fugir dos chacais. Era como a volta de uma caçada bárbara, das velhas le gendas da Índia. Cármen tinha aberto as cortinas do palanquim. Eu montava, aolado dela, o cavalo do malaio morto. Ela inclinou-se para mim e com a voz abafada:
— Juro-te — disse-me — que te amo, como só no nosso país se ama. Juro-te que em todas as circunstâncias, sempre darei a mi nha vida pela tua, quererei os teus perigos, serei a tuacriatura, e só te peço uma coisa.
— O quê?- E que de vez em quando, quando não tiveres melhor que fa zer, te lembres um pouco de mim.
— O momento, o sitio, os perfumes acres, as fantásticas sombras da floresta, a luz dosarchotes, a beleza maravilhosa e fatal de Cármen, os tiros, os sons das trompas, os relinchos dos cavalos, os gritos dos chacais, tudo me tinha perturbado, exaltado, e esque cendo o sensoe a lógica, disse-lhe:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.