Por Eça de Queirós (1901)
E um Pessimismo irritado! Porque (segundo afirmava) ele nascera para ser tão naturalmente otimista como um pardal ou um gato. E, até aos doze anos, enquanto fora um bicho superiormente amimado, com a sua pele sempre bem coberta, o seu prato sempre bem cheio, nunca sentira fadiga, ou melancolia, ou contrariedade, ou pena – e as lágrimas eram para ele tão incompreensíveis que lhe pareciam viciosas. Só quando crescera, e da animalidade penetrara na humanidade, despontara nele esse fermento de tristeza, muito tempo indesenvolvido no tumulto das primeiras curiosidades, e que depois alastrara, o invadira todo, se lhe tornara consubstancial e como o sangue das suas veias. Sofrer portanto era inseparável de Viver. Sofrimentos diferentes nos destinos diferentes da Vida. Na turba dos humanos é a angustiada luta pelo pão, pelo teto, pelo lume; numa casta, agitada pôr necessidades mais altas, é a amargura das desilusões, o mal da imaginação insatisfeita, o orgulho chocando contra o obstáculo; nele, que tinha os bens todos e desejos nenhuns, era o tédio. Miséria do Corpo, tormento da Vontade, fastio da Inteligência – eis a Vida! E agora aos trinta e três anos a sua ocupação era bocejar, correr com os dedos desalentados a face pendida para nela palpar e apetecer a caveira.
Foi então que o meu Príncipe começou a ler apaixonadamente, desde o Eclesiastes até Schopenhauer, todos os líricos e todos os teóricos do Pessimismo. Nestas leituras encontrava a reconfortante comprovação de que o seu mal não era mesquinhamente “Jacíntico” – mas grandiosamente resultante duma Lei Universal. Já há quatro mil anos, na remota Jerusalém, a Vida, mesmo nas delícias mais triunfais, se resumia em Ilusão. Já o Rei incomparável, de sapiência divina, sumo Vencedor, sumo Edificador, se enfastiava, bocejava, entre os despojos das suas conquistas, e os mármores novos dos seus Templos, e as suas três mil concubinas, e as Rainhas que subiam do fundo da Etiópia para que ele as fecundasse e no seu ventre depusesse um Deus! Não há nada novo sob o Sol, e a eterna repetição dos males. Quanto mais se sabe mais se pena. E o justo como o perverso, nascidos do pó, em pó se tornam. Tudo tende ao pó efêmero, em Jerusalém e em Paris! E ele, obscuro no 202, padecia pôr ser homem e pôr viver – como no seu trono de ouro, entre os seus quatro leões de ouro, o filho magnífico de David.
Não se separava então do Eclesiastes. E circulava pôr Paris trazendo dentro do cupé Salomão, como irmão de dor, com quem repetia o grito desolado que é a suma da verdade humana – Vanitas Vanitatum! Tudo é Vaidade! Outras vezes, logo de manhã o encontrava estendido no sofá, num roupão de seda, absorvendo Schopenhauer – enquanto o pedicuro, ajoelhado sobre o tapete, lhe polia com respeito e perícia as unhas dos pés. Ao lado pousava a chávena de Saxe, cheia desse café de Moca enviado pôr emires do Deserto, que não o contentava nunca, nem pela força, nem pelo aroma. A espaços pousava o livro no peito, resvalava um olhar compassivo para o pedicuro, como a procurar que dor o torturaria – pois que a todo o viver corresponde um sofrer. Decerto o remexer assim, perpetuamente, em pés alheios... E quando o pedicuro se erguia, Jacinto abria para ele um sorriso de confraternidade – com um “adeus, meu amigo” que era um “adeus, meu irmão!”
Esse foi o período esplêndido e soberbamente divertido do seu tédio. Jacinto encontrara enfim na vida uma ocupação grata – mal dizer da Vida! E para que pudesse maldizer em todas as suas formas, as mais ricas, as mais intelectuais, as mais puras, sobrecarregou a sua vida própria de novo luxo, de interesses novos de espírito, e até de fervores humanitários, e até de curiosidades supernaturais.
O 202, nesse Inverno, refulgiu de magnificência. Foi então que ele iniciou em Paris, repetindo Heliogábalo, os Festins de Cor contados na HISTÓRIA AUGUSTA: e ofereceu às suas amigas esse sublime jantar cor-de-rosa, em que tudo era róseo, as paredes, os móveis, as luzes, as louças, os cristais, os gelados, os Champanhes, e até (pôr uma invenção da Alta Cozinha) os peixes, e as carnes, e os legumes, que os escudeiros serviam, empoados de pó rosado, com librés da cor de rosa, enquanto do teto, dum velário de seda rosada, caíam pétalas frescas de rosas... A Cidade, deslumbrada, clamou: - “Bravo, Jacinto!” E o meu Príncipe, ao rematar a festa fulgurante, plantou diante de mim as mãos nas ilhargas e gritou triunfalmente: - “Hem? Que maçada!...”
Depois foi o Humanitarismo: e fundou um Hospício no campo, entre jardins, para velhinhos desamparados, outro para crianças débeis à beira do Mediterrâneo. Depois com o major Dorchas, e Mayolle, e o Hindu de Mayolle penetrou no Teosofismo: e montou tremendas experiências para verificar a misteriosa exteriorização da motilidade. Depois, desesperadamente, ligou o 202 com os fios telegráficos do Times, para que no seu gabinete, como num coração, palpitasse toda a Vida Social da Europa.
E a cada um destes esforços da elegância, do humanitarismo, da sociabilidade, e da inteligência indagadora, voltara para mim, de braços alegres, com um grito vitorioso: - “Vês tu, Zé Fernandes? Uma maçada!” – Arrebatava então o seu Eclesiastes, o seu Schopenhauer, e, estendido no sofá, saboreava voluptuosamente a concordância da Doutrina e da Experiência. Possuía uma Fé – o Pessimismo; era um apóstolo rico e esforçado; e tudo tentava, com suntuosidade, para provar a verdade da sua Fé! Muito gozou nesse ano o meu desgraçado Príncipe!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.