Por Lima Barreto (1915)
O general não tardou em vir falar com Ricardo; e os noivos, quando o trovador os cumprimentou, agradeceram-lhe muito, e até Quinota disse um - “sou muito feliz...” - deitando a cabeça de lado e sorrindo para o chão, sorriso que encheu de imenso transporte a cândida alma do menestrel. Deram começo às danças e o general, o almirante, o Major Inocêncio Bustamante, que também viera de uniforme, com a sua banda roxa de honorário, o Doutor Florêncio, Ricardo e dous convidados outros foram para a sala de jantar palestrar um pouco.
O general estava satisfeito. Sonhava há tantos anos uma cerimônia daquelas em sua casa e enfim pela primeira vez via realizado esse anseio.
A Ismênia foi aquela desgraça... O ingrato!... Mas para que recordar?
Os cumprimentos se repetiram.
- É um rapagão, o seu novo genro, disse um dos convidados novos.
O general tirou o pince-nez que era preso por um trancelim de ouro, e enquanto o limpava, respondeu, olhando com aquele jeito dos míopes:
- Estou muito contente.
Por aí pôs o pince-nez, endireitou o trancelim e continuou:
- Creio que casei bem minha filha: rapaz formado, bem encaminhado e inteligente.
O almirante acudiu:
- E que carreira! Não é por ser meu parente, mas com trinta e dois anos primeiro escriturário do Tesouro, é cousa nunca vista.
- O Genelício não está no Tribunal de Contas, não passou? perguntou Florêncio.
- Passou, mas é a mesma cousa, replicou o outro convidado novo, que era da amizade do recémcasado.
De fato, Genelício tinha arranjado a transferência e não fora só isso que o decidira a casar-se. Tendo escrito uma - Síntese de Contabilidade Pública Científica - viu-se, sem saber como, cumulado de elogios pela “imprensa desta capital”. O ministro, atendendo ao mérito excepcional da obra, mandou-lhe dar dous contos de prêmio, tendo sido a edição feita à custa do Estado, na Imprensa Nacional. Era um grosso volume de quatrocentas páginas, tipo doze, escrito em estilo de ofício com uma vasta documentação de decretos e portarias, ocupando dous terços do livro. A primeira frase da primeira parte, o quinhão do livro verdadeiramente sintético e científico, fora até muito notada e gabada pelos críticos, não só pela novidade da idéia, como também pela beleza da expressão.
Dizia assim: “A Contabilidade Pública é a arte ou ciência de escriturar convenientemente a despesa e receita do Estado.”
Além do prêmio e da transferência, ele já tinha promessa de ser subdiretor na primeira vaga. Ouvindo tudo isso que tinham dito o almirante, o general e os convidados novos, o major não pôde deixar de observar:
- Depois da militar, a melhor carreira é a da Fazenda, não acham?
- Sim... Bem entendido, fez o Doutor Florêncio.
- Eu não quero falar dos formados, apressou-se o major. Esses...
Ricardo sentia-se na obrigação de dizer qualquer cousa e foi soltando a primeira frase que lhe veio aos lábios:
- Quando se prospera, todas as profissões são boas.
- Não é assim tanto, obtemperou o almirante, alisando um dos favoritos. Não é para desfazer das outras, mas a nossa, hein, Albernaz? hein, Inocêncio?
Albernaz levantou a cabeça como se quisesse apanhar no ar uma lembrança e depois replicou: - É, mas tem os seus percalços. Quando se está numa trapalhada, fogo daqui, tiro dali, morre um, grita outro como em Curupaiti, então...
- O senhor esteve lá, general? perguntou o convidado amigo de Genelício.
- Não estive. Adoeci e vim para o Brasil. Mas o Camisão... Não imaginam o que foi - você sabe, não é, Inocêncio?
- Se estive lá...
- Polidoro tinha ordem de atacar Sauce, Flores à esquerda e “nós” caímos sobre os paraguaios. Mas os malandros estavam bem entrincheirados, tinham aproveitado o tempo...
- Foi “seu” Mitre, disse Inocêncio.
- Foi. Atacamos com fúria. Era ribombar de canhões que metia medo, bala por todo o canto, os homens morriam como moscas... Um inferno! - Quem venceu? perguntou um dos convidados novos.
Todos se entreolharam admirados, exceto o general que julgava a sabedoria do Paraguai excepcional.
- Foram os paraguaios, isto é, repeliram o nosso ataque. É por isso que eu digo que a nossa profissão é bela, mas tem as suas “cousas”...
- Isso não quer dizer nada. Também na passagem de Humaitá... ia dizendo o almirante.
- O senhor estava a bordo?
- Não, eu fui mais tarde. Perseguições fizeram com que eu não fosse designado, porque o embarque equivalia a uma promoção... Mas, na passagem de Humaitá...
Na sala de visitas as danças continuavam com animação. Era raro que alguém viesse de dentro até onde eles estavam. Os risos, a música, e o mais que se adivinhava não distraíam aqueles homens das suas preocupações belicosas.
O general, o almirante e o major enchiam de pasmo aqueles burgueses pacíficos, contando batalhas em que não estiveram e pugnas valorosas que não pelejaram.
(continua...)
BARRETO, Lima. O triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=2028 . Acesso em: 8 maio 2026.