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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

Conceição, ao entrar, sentiu-se atordoada por aquela orquestra viva de fragrâncias. Morta de sono, como se achava, não levou grande tempo a reparar nos esplendores do ninho que entregavam. Procurou a cama. Era um prodígio de marcenaria que nem de longe recordava o seu leito da casa de Januário. Conceição não gastou um momento de admiração daquelas rosetas de madeira lavrada, daquele precioso cortinado escapando-se de uma elegante cúpula de cetim azul e derramando à farta torrentes de vaporozas gazes por volta da cama...

Depois que a mulher de Pavia despiu-a e adornou-a sedutoramente com uma impalpável camisinha de cambraia cor de neve, a moça deixou-se cair sobre o colchão fofo, que fugia-lhe sob o corpo ao menor movimento, e formava-lhe sempre um berço cavado muito macio, desafiando sonhos etéreos, fazendo-a supor-se balançada numa rede de nuvens entre as estrelas.

Conceição volveu-a durante algum tempo, provando com o corpo a frescura dos lençóis; depois, cedeu ao sono. Mergulhou segundo seu hábito, os braços debaixo do travesseiro e ficou imóvel.

Quando a mulher de Pavia veio ao aposento, trazendo à hóspede uma xícara de chá com biscoitos, achou Conceição dormindo a sono solto...

Não a despertou. Demorou sobre ela um olhar e um sorriso misterioso e foi-se para o seu quarto, tendo o cuidado de deixar aberta, numa saleta contígua ao aposento da hóspede, uma porta por onde se entrava do jardim.

A necessidade desta providência era a visita do senhor de Bragantina, que viria à sua entrevista, sem incomodar os que dormiam em outros aposentos.

Quando o relógio que fazia parte dos adornos do dormitório da moça tilintou meia-noite no tímpano oculto por trás de uma requebrada Psique, toda risonha da sua nudez lustrosa de bronze, nessa hora de caminhadas românticas à cata do ideal vedado, surgiu o duque de Bragantina à porta do ninho de Conceição.

Vinha trêmulo de sensualidade. Penetrou no seu pomar de luxúria, medroso como um menino perdido no bosque. Os perfumes do ambiente embriagaram-no.

A luz lasciva da lamparina não iluminava coisa alguma distintamente. Todos os objetos pareciam feitos de nuvem. A meia-sombra, carregada pelo azul-escuro do papel das paredes, aumentava as proporções do lugar, emprestando-lhe uns ares de imensidade.

Envolvido naquele mundo de coisas fantásticas, impregnado, até o âmago dos pulmões de cheiros inebriantes, o duque julgava-se como que suspenso numa alvorada... O seu olhar ia direto a um ponto e absorvia-se todo, sem deixar um relance para sentir a realidade...

Ela estava a dormir... Os lençóis cercavam-na como um ninho de édredon.

Além de pequenina, ela encolhia-se com uma timidez infantil. Cabia toda num beijo. A respiração, compassada pelo tique-tique do relógio de bronze, fugia-lhe tranqüilamente pelas narinas, soando no meio do silêncio da noite como o adejo afastado de um beija-flor. Através da cambraia da camisa que a cobria como uma lâmina transparente de neve sentia-se passar o fogo de um vulcão de puberdade. Pela gola rendada saía até a raiz dos pequenos seios, um busto fidiano de mármore cor-de-rosa, animado pela circulação ardente que formigava-lhe nos veios.

À beira daquele abismo de juventude e sedução, o duque cambaleava de vertigem...

Cada passo que dava era um arrependimento e uma vontade de fugir. A posição inocente da mocinha adormecida causava-lhe terror. Não era seu hábito porém tanta candura fazia-lhe medo. Era pavorosa aquela virgindade.

Mas cada vacilação de fidalgo era um recuo de maré crescendo. Fugia da virgindade, e a sedução arrastava-o. Marchava para a frente como um soldado covarde, aguilhoado pela disciplina. A atração do precipício era irresistível.

O duque chegou até a cama. Inclinou-se para a frente, eriçado como uma hiena. Era terrível aquele velho, inflamado de voracidade. Todo ele estremecia como se houvesse lavas a ferverem-lhe no íntimo. A violência da respiração arquejante ouvia-se-lhe como o chiar interrompido da válvula de uma caldeira. As narinas abriam-se-lhe e baixavam, recolhendo todas as emanações cálidas que subiam do leito...

Contemplou assim, por momentos, a moça adormecida.

Em seguida ajoelhou-se na pele de onça, estendida como um tapete aos pé da cama, pousou os cotovelos no chão, cruzou as mãos e sobre elas deitou as barbas. Era cruel para consigo mesmo. Queria prolongar, isto é, multiplicar a própria ansiedade.

Os cabelos soltos da moça esparramavam-se abundantes pelos travesseiros emoldurando-lhe em ébano o rosto níveo, vagamente risonho.

Este rosto estava voltado para fora, na beirinha do leito, quase pendente, assim como um fruto que vai cair de maduro. Juntinho deste semblante, castamente fechado como certas flores que se contraem durante a noite, estava a fisionomia esbraseada do ardente fidalgo. Era já um delícia incalculável para o duque a respiração morna daquele sono.

(continua...)

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