Por Adolfo Caminha (1895)
Bom-Crioulo rugiu interiormente; alguma cousa despedaçou-se dentro dele, tamanho foi o abalo do seu corpo. Entrara-lhe no espírito a convicção, a certeza absoluta de que o pequeno estava com “outro”, abandonara-o. Recolheu-se à enfermaria taciturno, cheio de cólera, num delírio de raiva surda, numa febre de vingança que até lhe incendiava o rosto por fora, queimando a pele...
Veio a noite e ele não pode dormir, nem fechar os olhos.
Espojava-se na cama, de um lado para o outro, abafado, sem ar que lhe enchesse os pulmões, numa terrível crise de nervos, como se estivesse a lutar com fantasmas, ora repuxando os lençóis, ora descobrindo-se todo na agonia de uma formidável dispnéia. — Abandonado, ele! abandonado por aquele que o devia estimar como a um pai! Abandonado por Aleixo, por seu querido Aleixo!...
Parecia-lhe incrível! desespero igual nunca ele experimentara. Só lhe vinham à imaginação cousas tristes, idéias lúgubres. E, para maior infelicidade, para maior desgraça, ouviu toda a noite alguém gemer na enfermaria vizinha — uma voz de homem, grossa, abafada, inimitável, chamando pelo nome de Jesus e que a ele, Bom-Crioulo, parecia a sua própria voz de amante infeliz apelando para a suprema bondade de Deus... O desgraçado, quem quer que fosse, gemia, gemia sem trégua, cortado de dores horríveis.
Pairava na atmosfera calma do hospital um cheiro muito vivo de alfazema queimada, assim como um vago odor de câmara mortuária. Bom-Crioulo que nunca em sua vida, tivera medo, e que sempre desafiara a morte corajosamente, não pode evitar, essa noite, um calefriozinho de pavor. Houve um momento em que se revoltou contra o pobre doente que gemia. — Diabo! Não se podia dormir com aquele agouro!... Se tinha de morrer, morresse logo...
Mas, arrependeu-se: — Coitado! era algum desgraçado como ele, algum pobre marinheiro sem amigo na terra...
Os gemidos foram pouco a pouco cessando, pouco a pouco diminuindo — triste monodia que se cala no silêncio da noite. Pela madrugada sentia-se ainda o cheiro de alfazema, enjoativo e penetrante, mas o doente cessara de gemer. Quem sabe se teria morrido? Foi embalado por essa idéia desoladora que o Bom-Crioulo caiu no sono...
Davam três horas.
Nesse dia, como nos outros, a mesma preocupação, a mesma idéia fixa, obstinada e mortificante, encheu a alma do pederasta. Ele próprio se admirava de como é que “aquilo” renascera — ele que se julgava forte para não se impressionar com tolices, ele que supunha tudo fácil, tudo passageiro na vida! — Porque afinal (refletia) quando se ama uma rapariga bonita, uma mulher nova, branca ou mesmo de cor — vá! Um homem perde a cabeça, e com razão; mas, andar uma pessoa triste, sem comer, sem dormir, sem fazer pela vida, por causa de outro homem, por causa de um “individuozinho” que se abre para todo mundo — é uma grande loucura...
Mas embalde procurava iludir-se: a imagem de Aleixo agarrara-se-lhe ao espírito e cada vez o torturava mais; borboleta importuna, esvoaçava em torno dele, provocando-lhe o apetite sensual, estimulando-o como um afrodisíaco milagroso, fazendo-lhe renascerem todas as forças vivas do organismo genital, que ele julgara enfraquecidas pelo excesso, pela intemperança.
Sentia-se forte ainda para grandes cometimentos, para maiores provas de virilidade, e nenhuma criatura humana, fosse a mais bela de todas as mulheres, alcançaria proporcionar-lhe tanto gozo, tanta felicidade, num só momento, como Aleixo, o delicioso e incomparável grumete, que era, agora, o seu único desejo, a sua única ambição no mundo. Havia de o possuir, havia de o gozar, como dantes, por que não?: Morto ou vivo, deste ou daquele modo, Aleixo havia de lhe pertencer!
Começou a imaginar um meio de fugir, de abandonar o hospital em procura do grumete. — Ora, adeus! o que tem de ser sempre é! Já não podia suportar cheiro de hospital. Para castigo bastava...
Mas, como fugir? como iludir a vigilância das sentinelas? Uma vez embaixo, no cais, era fácil tomar um bote de ganho, ou mesmo ir à nado...
E os dias passavam, uns após outros, com a mesma uniformidade, cheios de monotonia, cheios do sol quente de estio, e Bom-Crioulo não achava ocasião oportuna de realizar seu plano de fuga.
Ia-se-lhe tornando cada vez mais insuportável a existência naquela espécie de convento de inválidos. Estava magro, visivelmente magro: — “estava acabado!” E que sonhos terríveis, que pesadelos! Uma noite sonhou que Aleixo tinha morrido com uma facada no coração; que ele, Bom-Crioulo, via o pequeno ensangüentado numa cama de vento, nuzinho, os beiços muito roxos... e que a portuguesa, D. Carolina, chorava perdidamente, enxugando os olhos com um grande lenço de tabaco... — Já viram que extravagância?...
E outros e outros sonhos... Se continuasse ali, naquele presídio, acabava maluco, era capaz de morrer doido. — Oh! sim, queria fugir, não tolerava mais aquilo. “—... que os pariu”...”
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.