Por Aluísio Azevedo (1880)
A missiva de Miguel chegou de efeito às mãos de Rosalina, e, como vimos no capítulo em que justamente a deixamos, ela, acendendo ao pedido do ressuscitado amado, atara à meia-noite, como ele lhe pedira, o seu lencinho de rendas francesas no marmóreo balcão da janela.
Feito o sinal, Rosalina voltara a reclinar-se tranqüilamente no divã, como quem se submete ao aborrecimento de qualquer cerimônia política; e, nessa dúbia postura, mareando com o pé o compasso dos segundos, dobrava e desdobrava o papel, que lhe chegara às mãos por intermédio de Sombra da Noite.
A pêndula marcara afinal a hora da entrevista. Um silêncio perfumado e voluptuoso recendia em torno de Rosalina, como uma auréola de desejos.
Há sempre nos aposentos de uma mulher bela um não sei o que de indizível e sedutor, que encanta e embriaga; uns perfumes de cabelos, de flores e de carnes.
Pode-se chamar a esse fluído esquisito o perfume do amor.
A claridade coalhada do globo de alabastro, a tepidez preguiçosa da atmosfera, o macio surdo do tapete, tudo juntamente desatinava e endoidecia os sentidos.
Rosalina, encantadoramente reclinada no divã, pendente para trás a cabeça, mole, úmido o olhar, as narinas sôfregas, os lábios entreabertos e ressequidos, comprazia-se em ver, espiando pelo franjado sombrio das pestanas, o arfar voluptuoso das carnes macias do colo. A garganta carnuda, pálida e estendida, tinha uns tons frescos e uns estremecimentos de carnes gordas de criancinha de peito; as covinhas dos cotovelos, os saltinhos das carnes dos dedos, as unhas cor-de-rosa,
os dentes cor de leite, os cabelos lânguidos, serpenteados e frouxos, a respiração comprimida, a língua úmida e vermelha, como um pedaço de carne viva e ensangüentada, em cuja pontinha refletia a brancura ferina dos dentes, tudo, enfim, levantava com explosão a chama doida e selvagem dos sonhos.
E, todavia, ela estava quieta e letárgico, nesse quase sonambulismo, que não é bem indiferença, mas um esquecimento de si mesmo, um doce abandono de forças, comparável ao estado comatoso, que sucede aos prazeres cansativos, nesse dolce far niente de uma mulher rica, que é mais formosa para os outros do que para si, quando, súbito, no quadro escuro da janela, aberta de par em par, se desenhou o busto desgrenhado de Miguel.
Vinha transformado e pálido como uma caveira.
CAPÍTULO VIII
Miguel precipitou-se na alcova e caiu soluçando aos pés de Rosalina; comoção amarga e deliciosa o dominava, como nos bosques a tempestade domina a corça.
Ele gozava e sofria amargamente. Rosalina ali estava, ao alcance dos seus lábios e de suas mãos, mas era Rosalina transformada; da primeira não existia mais que a formosura. E tanto assim, que aquela cena, em demasiado sentimental e trágica, começou a incomodá-la. Ela sentia-se interiormente arrependida de ter consentido nessa entrevista; contudo era inevitável; conhecia bastante o caráter do seu companheiro de infância, para, com razão, temer qualquer conseqüência má de uma recusa. De sorte que o melhor caminho a tomar era o da dissimulação e do dolo; não lhe faltariam certamente, para tal empresa, indústria e armas, que pois contava com a sua maleabilidade de florete e com a sua destreza de cobra. Quando não era possível empregar a força, socorria-se às lágrimas e triunfava sempre.
Rosalina, apercebida com tais munições, pôs-se em guarda contra o terrível inimigo, que tinha diante de si. Bem sabia quanto são perigosos e formidáveis a inexperiência e a virtude quando amam.
A verdadeira paixão é selvagem, grosseira e egoísta, porque a delicadeza, a civilidade e a sociabilidade são obras do homem ou meras convicções sociais, e a paixão é um monstro antidiluviano, criado pela natureza. O amor saiu diretamente da boca de Deus para o coração do homem; é esse o nosso único ponto de contato com o incriado.
Esse verbo eterno não conhece leis, nem pátria, nem senhor, como não conhece subdivisão nem variedade, é um, único e eterno: É o verbo ser da natureza.
Deus criou-o para o mundo e não para o homem; este como a fera, o réptil como o passarinho, amam da mesma forma.
Foi pensando deste feitio que Rosalina cobriu de carícias a vítima que tinha aos pés, e fê-lo sentar-se prosaica e comodamente, numa magnífica cadeira de damasco. E, depois de haverem pingado um por um os segundos do estilo, abriu a falar, protetora e carinhosamente, do seguinte modo:
— Oh! como sou feliz e desgraçada por te tornar a ver, meu Miguel, porém se me encanta a tua presença, a situação que dela resulta me aniquila. Amo-te muito, mas é preciso seres prudente e teres, disse ela, sorrindo com intenção, muito juizinho... Eu já não contava contigo e tinha razões para isso, vi uma vez o precipício donde caíste, e tão terminante se me afigurou dele uma queda, que nunca mais me animei a visitá-lo. Porém tinha saudades tuas, acredita, disse ela suspirando, sintome loucamente satisfeita por te ter novamente a meu lado. Se soubesses o que fiz para ter notícias tuas! Mas enfim sou feliz, agora se...
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.