Por Aluísio Azevedo (1895)
Entretanto, não me fartava de contemplá-la, embevecida de amor materno; e não me cansava de rever-me na sua paradisíaca ventura, achando-a mais feliz com seu amado, neste paraíso, do que no outro extinto os primitivos amantes, que esses, ai deles! Só chegaram a conhecer o amor pelo prisma da maldição e do pecado. Contemplei-os, feliz na minha inveja, belos como estavam, minha filha e meu genro, naquele passeio à Floresta da Tijuca! Como a inteira segurança da ventura os fazia monarcas absolutos da vida! Ainda agora, enquanto escrevo estas linhas à luz do meu candeeiro de trabalho, tenho-os nitidamente defronte dos olhos, como os vi nessa linda tarde, depois do almoço na gruta dos Dois Irmãos. Como eram um lindo par! Ele, com a sua roupa de montaria, assentado ao lado dela, fustigava com o chicote a pedra em que estavam ambos; Palmira, mais esbelta na sua amazona azul-ferrete, escutava-o sorrindo com os olhos fitos nos dele. E entre seus lábios, que nunca até então se tinham juntado, havia sempre, no murmúrio das palavras um sussurrar de beijos.
E vendo-os assim, tão íntimos, tão confiantes um no outro, tão seguros da sua eterna felicidade e do seu eterno amor, lembrei-me do meu tempo de noiva, lembrei-me das minhas esperanças, e logo também das negras decepções que sobrevieram ao meu casamento. Oh! se eu não tivesse ali, para interpor-me entre eles e separá-los quando fosse preciso, aquele par, tão harmonioso, tão sinceramente unido pelo amor; aqueles dois entes, tão talhados um para o outro, como eu parecia ter sido para meu marido, seriam no fim de algum tempo, se não tivessem reagido logo, fugindo cada um para seu lado, dois míseros infelizes, dois perdidos para a vida, dois inimigos rancorosos, condenados a viver na mesma casa, a comer na mesma mesa, a dormir na mesma cama!
Quão diferente fora a minha existência, se eu tivera possuído alguém capaz de fazer pela minha felicidade um pouco do que eu fazia pela felicidade de minha filha! Oh! mas só mesmo um coração de mãe seria capaz de tanto, e só ele conseguiria as coisas extraordinárias, que ainda tenho a revelar nestas sagradas páginas.
CAPÍTULO XV
Já próximos do casamento, consultei Leandro a respeito do seu futuro e aconselhei-o que deixasse o emprego público pelo comércio. Eu me comprometia a ajudá-lo e me encarregaria de encaminhar as coisas, no caso que ele aceitasse o meu alvitre. César, que dispunha de boas relações na praça, tomou a seu cargo descobrir um sócio que conviesse ao rapaz. Eu entraria com a metade do capital, escondida atrás da firma de meu genro; a outra metade sairia do dote de Palmira.
O generoso médico, para quem minha família não tinha segredos, tomava crescente interesse pelos noivos. Seria ele um dos padrinhos de Palmira. Entusiasmava-o aquele casamento, assim levado a efeito contra todas as danosas praxes convencionais; prefigurava-se-lhe o meu original proceder alta lição doméstica, e dizia que a minha firmeza, em realizar o difícil plano concebido, dava uma bela cópia da energia do meu caráter, e havia de produzir obra de grande alcance sobre a futura orientação da vida conjugal. Fazia-me vaidosa o bom amigo! E começou a empenhar-se por Leandro com tão boa vontade, que o rapaz podia dizer encontrar nele um pai melhor que o verdadeiro. Foi César, enfim, quem moralmente o preparou para representar, junto de Palmira, o papel que eu lhe havia designado; sem essa inteligente e perseverante ajuda, não sei se teria conseguido chegar, vitoriosa, ao fim da minha empresa.
Leandro pediu a sua exoneração do emprego público na mesma semana do casamento.
Este foi num sábado, às cinco horas da manhã, sem pompas e sem ruídos; era nada mais que o meio de coonestar o namoro de Leandro com minha filha. O seu estado de noivos continuava por bem dizer como dantes; simplesmente, já desposados, gozavam de mais liberdade entre si, e poderiam, à sorrelfa, ir mais longe nos seus galanteios. Quis, intencionalmente, criar-lhes um transitivo período de beijos furtados e desejos mal contidos. Isso era necessário. Seria preferível essa iniciação da sexualidade a deixá-los, conforme o costume, promiscuamente encerrados numa alcova, durante muitos dias seguidos.
É torpe lançar na mesma cama, sem transição, um rapaz e uma donzela, que horas antes se tratavam ainda com certa cerimônia e só se amavam por palavras, olhares e sorriso. O salto é muito brusco; há de fatalmente perturbá-los. Reinará sempre mais vexame do que felicidade entre o casal que se vê duramente entalado na decantada lua-de-mel.
Não penso, todavia, como o Conde de Tolstoi, que o noviciado do amor seja análogo ao noviciado do vício de fumar, e produza no iniciante as mesmas náuseas e os mesmos incômodos; males terríveis, que os pacientes, não obstante, disfarçam em ambos os casos, sem coragem para dizer francamente que a lua-de-mel é uma repugnante tortura, e que o fumar não merece as honras de um belo prazer. Não! o amor é natural, e por isso não deve causar náuseas, no começo, como no fim. A luade-mel, consoante nossas práticas, é que não é natural, e deve constranger tanto a noiva como o noivo. Ela fica mortalmente ferida no seu ingênito decoro de mulher, e no seu congenial pudor de donzela; e ele, naturalmente ainda mais tímido que a sua companheira de suplício, pois todo o homem, em questões de amor, é sempre mais tímido que qualquer mulher, sofre revoltado pelo grosseiro e agressivo papel de verdugo, que tem de representar contra uma virgem, pela qual, no seu enlevo de amante, daria a vida se fosse reclamada.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. O livro de uma sogra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16536 . Acesso em: 24 mar. 2026.