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#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- Querem saber como foi o caso? A mulher de um morador chamou o labrego para lhe comprar não sei que bugigangas, de que ele saiu pago. Mas como vinha tonto, depressa esqueceu-lhe que tinha recebido a respectiva importância. Hei-lo que volta e começa de exigir novo pagamento; e porque ninguém saiu a dar-lhe mais dinheiro, a todos chamou ladrões, sem exceção do senhor do engenho. Dois negros foram-lhe ao encontro e castigaram, sem que de ninguém tivessem recebido ordem para isso, a ousadia do mascate. Este caiu e não se levantou mais. No outro dia vieram dizer-me que amanhecera um homem morto na estrada. Foi então que soube do ocorrido. Castiguei os escravos, e mandei sepultar o morto, não na bagaceira, mas na capela. Se o não sepultaram onde eu disse, não lhe fizeram injustiça; os animais do campo enterram-se nos monturos. Mas deixemos a um lado esse vil mascate, e tratemos do que nos deve merecer mais atenção. Que se deve fazer, meus amigos? Devemos ir ao encontro dos rebeldes, ou esperar que eles nos venham buscar a nossas casas?

Após um momento, respondeu o ex-alcaide-mór:

- O que entendo que se deve fazer é cuidar, sem perda de tempo, de pôr em armas cada um de nós a sua gente para o que possa acontecer.

- Sairemos ou ficaremos?

- Esperaremos prestes para dar-lhes lição tremenda.

Para andarmos seguros, parece-me conveniente que se mande um próprio, sem perda de tempo, a Olinda, a fim de sabermos dos amigos se são precisos os nossos serviços. A sua resposta nos servirá de guia.

- Acho muito acertado este ultimo alvitre, indicado por Felipe – disse Cosme Bezerra.

- Pois bem, disse João da Cunha. Seja este o nosso primeiro passo.

A sala em que se achavam conferenciando sobre o grave assunto os principais vultos da nobreza de Goiana, tinha janelas que caiam sobre o pomar. Distante deste algumas braças passava o rio, aquela noite aumentado pelas chuvas dos dias anteriores. De seu natural escasso, volvia agora barrentas e volumosas águas que estavam lavando as estivas das toscas pontes que o atravessavam.

Mal acabara de falar Cosme Bezerra, quando chegou á sala o ruído que produziam as águas cortadas por um cavaleiro.

Em qualquer engenho nada é mais natural do que semelhantes rumores. Fosse porém porque se achavam sobreexcitados os espíritos pelo objeto da conversação, fosse porque o rumor tinha o quer que era particular e estranho, o certo é que João da Cunha julgou prudente chegar á janela, a fim de saber quem era que o produzia.

Ao clarão das fogueiras, de que a esse tempo já se atiravam aos ares longas línguas de fogo, reconheceu ele quem chegava.

Voltou-se então para os circunstantes, que guardavam silencio, e lhes disse com certo tom de voz, em que não seria difícil adivinhar três impressões diferentes – prazer, incerteza e ansiedade:

- Vamos Ter noticias frescas de Olinda.

Com pouco um matuto penetrou no aposento onde se estava celebrando a conferencia, e entregou a João da Cunha um pacote de papeis.

O matuto era Francisco.

XIII

O S.João, do mesmo modo que o natal, é festa essencialmente popular e campestre. Cada uma destas duas festas, com especialidade porém a primeira, leva vantagem á da páscoa , que, com ser comemorativa da ressurreição do proto-martir, de quem só nos ficaram exemplos de humildade e singeleza, assumiu formas aristocráticas, e pertence hoje mais ao palácio e á cidade do que á choupana e ao povoado.

O engenho Bujari dava em 23 de junho de 1711 testemunho desta verdade. Não havia casa de lavrador ou de morador em que das 6 para as 7 horas da tarde o prazer não tivesse desabrochado entre risos e folgança.

João da Cunha, com ser de seu natural de poucos amigos, tinha em suas terras muitos lavradores e foreiros. Alguns escolhiam, para se fixar, as terras do engenho Bujari, e havia razão para esta preferencia. João da Cunha era ríspido, exigente e até poder-se-há dizer – mau. Mas tinha uma grande qualidade, que em certo modo atenuava os seus grandes defeitos. Bulir com um morador do seu engenho era o mesmo que bulir com ele próprio. Excedia os limites da defesa quando algum deles era ofendido. Tomava parte pelo morador em publico, ia pessoalmente aos juizes, para que ordenassem o castigo do delinqüente, gastava do seu dinheiro com o pobre e sua família, enfim, deixava o papel de tirano e representava ao vivo o de pai ou zeloso protetor. Por esta razão particularmente, e porque das magnificas situações que se apontavam em derredor de Goiana onde os engenhos ainda não eram numerosos, as melhores lhe pertenciam, muitos eram os seus moradores, entre os quais alguns abastados. Ao numero dos que o eram menos, pertencia Victorino.

Na hora em que se discutiam, com a gravidade que vimos, os interesses das famílias goianistas de primeira representação, Lourenço descavalgava á porta de Victorino.

(continua...)

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