Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Seminarista

Por Bernardo Guimarães (1872)

A despeito de toda a força da sua vocação eclesiástica, de todo o fervor do seu ascetismo religioso, Eugênio mantinha-se firme na resolução de não tomar ordens. Assim o havia jurado a Margarida. Firmada pela religião do juramento, essa afeição terna e profunda que votava à companheira de sua infância, afeição que com ele nascera, que era a luz de seus olhos, a seiva de seu coração, o perfume de sua alma, via cerrarem-se os áditos do santuário do Senhor, para o qual volvia olhos invejosos como para um Éden vedado, de que suas fraquezas o tornavam indigno. Mas Margarida era um anjo de Deus exilado na terra, e se ele não podia com suas mãos profanas tocar nos vasos sagrados e na hóstia sacrossanta poderia ao menos ajoelhado ao lado dela inclinar a fronte venerabunda ante os altares, e entoar com ela hinos de louvor ao Todo-poderoso. O culto e adoração oferecidos ao Senhor por um de seus anjos não podiam deixar de ser-lhe tão gratos como aqueles que lhe são endereçados pelas mãos de seus ungidos.

Destes devaneios, em verdade bem suaves, o vinham arrancar considerações de outra ordem, que o lançavam num pego de amarguras e inquietações. Via diante de si a incerteza do futuro, o inabalável emperramento de seus pais, que a todo o transe o queriam fazer padre, a sorte precária de Margarida, mal vista e repudiada por eles, pobre e frágil criatura exposta a todos os embates de um destino cruel e a todas as seduções e azares de um mundo corrupto e libertino.

Já não era só o amor, era um dever mais santo e porventura mais forte que o amor, que o forçava a jamais abandonar ao seu destino aquela infeliz criatura, que o céu como que havia confiado à sua guarda e proteção, fazendo-a nascer junto dele, e colocando-a à sombra do mesmo lar, como a tenra trepadeira, que nasce enleada ao viçoso e copado arbusto, amparando-se com sua sombra e nutrindo-se de sua seiva. Margarida, mesmo não podendo ser sua esposa, era sua irmã; embora o não fosse pelo sangue, o destino, colocando junto ao seu o berço dela, os tinha feito irmãos pela alma. Agora que seus pais com tanta desumanidade a repudiavam, e que não lhe restava senão sua velha e mísera mãe, ele que era seu único amparo sobre a terra devia viver só por ela e para ela.

O espírito do mancebo bem queria nas asas da religião e da piedade desprender-se da terra, e consagrar-se exclusivamente ao culto da divindade; mas um laço poderoso lhe tolhia os vôos e o tinha atado aos interesses e afeições mundanas.

Depois de ter volvido na alma todas essas tristes e anfargas reflexões, Eugênio exclamava: — Não, não posso, não devo ser padre! — e passava a excogitar os meios de despedir-se do seminário o mais breve que fosse possível.

CAPÍTULO XVIII

Eugênio, que já então tocando os vinte anos, conservava na alma toda candura e singeleza da infância, confiava ao seu diretor espiritual por miúdo e sem disfarce todas essas lutas íntimas, todas as irresoluções, fraquezas, inquietações do seu espírito. Expondo-lhe a obrigação sagrada, em que se considerava, de amparar e proteger na vida a companheira da sua infância o padre lhe fez ver que nada obstava a que ele satisfizesse aquele nobre e louvável impulso do coração, e que nisso não havia estorvo a que se ordenasse, uma vez que banindo do coração todo o sentimento amoroso, considerasse Margarida como sua irmã.

Para esse efeito porém era forçoso que evitasse o mais que pudesse a sua presença, fugisse de toda e qualquer relação com ela, e fosse como a Providência, que esconde a mão que derrama tantos benefícios sobre a terra, aliás recairia inevitavelmente em suas antigas fraquezas e desvarios. Ponderava-lhe demais, uma vez ordenado, que seu pai não duvidaria em restituir a Margarida as suas boas graças, e tomaria decerto a seu cargo ampará-la, prover à sua sorte futura, procurando-lhe um bom marido.

A estas palavras Eugênio estremeceu; mas contendo aquele movimento.

— Estou certo — respondeu — de tudo quanto me diz!... mas... é impossível!... estou inteiramente convencido que toda e qualquer tentativa que eu faça para banir de meu coração esta paixão, será sem resultado. Não está em mim, nem há poder nenhum sobre a terra que me possa tirar do sentido aquela mulher.

— Não o há sobre a terra, mas há no céu. Implore com fervor a graça divina, e ela não lhe faltará; e o seu triunfo, que considera impossível, será facílimo, e completo. A oração, a penitência, os exercícios piedosos, são armas poderosas para combater a tentação, filho; e Vm. mesmo já fez delas a mais brilhante prova, quando sendo muito mais criança conseguiu debelar completamente o inimigo que o tinha em contínua obsessão. Se não fosse a imprudência, de deixar o seminário, e ir colar-se de novo entre as goelas da serpente que o seduzia, teria evitado esta nova luta, talvez mais renhida e encarniçada que a primeira. Hoje, porém, que já com vinte anos deve ter outra energia e força de vontade, e sabe melhor ponderar as coisas, é que assim desanima como um covarde, e recua espavorido diante do inimigo?

— Mas, senhor padre, eu jurei a Margarida... Perjurar, esquece-la, abandoná-la a seu cruel destino não é uma traição, uma infâmia?

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3233343536...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →