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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

Voltei o rosto sem responder-lhe. Eu começava a sentir uma espécie de pavor dessa menina. Havia nela inspiração heróica e a tentação satânica que o gênio do bem ou do mal derrama sobre a humanidade pela transfusão da mulher. Em outra cena mais larga eu a julgaria capaz de vibrar o punhal de Judite ou de Macbeth. 

Desde esse dia quando ela se aproxima de mim, ou mesmo de longe me envolve com seu olhar maléfico, a minha coragem vacila. 

A raiva que sinto de mim mesmo reflui sobre ela. Cubro-me então com o motejo ofensivo e grosseiro. Que queres, Paulo? É a coragem do desespero. 

Mas ela, a incompreensível criatura, longe de ofender-se, parece deleitar-se com as explosões do meu desprezo e ressentimento. 

Ainda ontem. 

Conversávamos indiferentemente, quando veio a falar-se de uma moça, que amava seu primo a quem estava prometida, e de repente se casara com o filho de um rico capitalista. Já sabes; a noiva era acremente censurada; eu tomei sua defesa contra Julinha. 

—Pois eu desculpo essa moça, D. Julinha; seu amor tinha talvez a coragem da morte, mas não tinha a coragem da pobreza. Há naturezas assim; os grandes sacrifícios as exaltam, os pequenos as humilham. Eu não a desculparia se ela fosse rica, e em vez de sentir o orgulho de inspirar um amor capaz de resistir a essa sedução do dinheiro, se contentasse em comprá-lo... E nem só comprá-lo; mas acenar, como os avarentos, com o seu dinheiro, para ter o prazer incompreensível de aviltar a turba de adoradores, entre os quais ela afinal escolherá um marido!... Um marido regateado!... 

Emília soltou uma risada argentina; do alto de sua beleza mais que nunca altiva e radiosa atirou-me um olhar augusto. Ergueu-se, e não sei que elação deu ela com esse movimento ao seu talhe, que parecia subida a um trono. 

Conservava-me de pé no mesmo lugar, com as costas apoiadas a uma árvore do jardim. Ela atravessou o espaço que nos dividia, e veio a mim feita em risos, com o passo tão doce e lento que resvalava sobre a areia, onde a orla de seu vestido mal roçava. Vendo-a aproximar-se tanto, retrai-me contra a árvore para não tocá-la. 

Parou enfim: estendendo o lábio altivo, disse-me com uma voz indefinível, uma voz onde havia tudo, ódio e amor, desprezo e ternura, meiguice e sarcasmo; uma voz que parecia canto, grito e soluço ao mesmo tempo: 

—Que é isso, se não amor?... Ama-me ainda e mais do que nunca! Voltou; e agora a fímbria de seu vestido roçagando rojava pela areia, e ela olhava-a sorrindo por cima do ombro, e de propósito inclinavase mais para enegrecê-la no pó, como se fora a minha alma abjeta que ela arrastasse assim pelo chão. 

Firmei-me ao tronco da árvore com todas as minhas forças, porque o meu primeiro assomo fora terrível. Eu não sei o que seria de mim, se eu desse naquela circunstância um primeiro passo para essa moça. Fiquei ali imóvel, vendo-a de longe a voltear entre os arbustos. 

De repente senti uma calma assustadora derramar-se em minha alma: era alguma cousa como uma algidez moral, reação da grande cólera. 

Tive necessidade de insultar essa moça.  


XIX

VOLTO de sua casa. 

Que noite, Paulo! Que noite de ira, foi esta para mim! Cheguei ao Rio Comprido quase ao escurecer. Estavam todos no jardim. Depois de alguns instantes, Emília ergueu-se e afastou lentamente do grupo. A alguma distância, parou para colher uma flor, voltou-se e olhou-me. 

Aproximei-me ; ela continuou seu passeio solitário pela chácara. 

Chegando à cerca onde as murtas formavam um bosque espesso em torno de assentos de pedra, voltou-se de novo para mim e sorriu. 

Como eu hesitasse se devia segui-la, fez-me um aceno gracioso. 

Sentamo-nos: eram seis horas da tarde; uma sombra luminosa ainda e de uma doçura imensa derramavase por aqueles lugares. As vozes de Julinha e das outras moças que passeavam ao lado oposto, chegavamnos através das folhas e da sombra com uma suavidade extrema. 

Mas essa doçura da tarde, a beleza de Emília, os perfumes das flores, tudo que havia de suave ali, irritavame; eu tinha a alma ulcerada, e não havia bálsamos, senão cautérios, para cicatrizá-la. 

Falei-lhe com volubilidade, travada do fel que borbotava do coração. 

—D. Emília, nós estamos representando o papel de duas crianças, atormentando-nos um ao outro, e talvez servindo de tema à malignidade alheia. Ontem, a senhora cuida que não ouviram suas palavras? —Que as ouvissem!... Foi o senhor mesmo quem se denunciou!... 

—Já lhe disse e repito, D. Emília, eu não amo a senhora... 

Nunca amei!... 

—Mentiu-me, então?... 

—Menti, confesso!... 

—Creio antes que mente agora. A mentira é irmã do insulto. 

—Desculpemo-nos mutuamente, D. Emília; ambos erramos; e para que estas cenas não se repitam, eu quero ser franco. A senhora me fez uma vez, há tempo, sua confissão: quer ouvir a minha? —Fale! replicou Emília com um tom de ameaça. 

(continua...)

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