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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

— Pois essa minha amiga incomodava-se muito quando tinha de comprar botinas; custava achar um par que lhe servisse. As de senhora eram muito grandes; as de menina eram muito baixas. Afinal encontrou um sapateiro, que trabalha tão bem como os melhores de Paris.

— É exato.

— Como exato? O senhor sabe?

— A senhora não fala do Campàs? disse Horácio um tanto perturbado.

— Não, senhor.

— Pensei.

— Haverá dois meses, indo eu à cidade, minha amiga, que tinha feito uma encomenda de botinas, pediu-me para ver se estava pronta. Quando o criado a trouxe para o carro onde o esperava, caiu um pé de botina já usado, que fora para modelo. Minha amiga ficou muito aflita; e eu fiz tenção de dar-lhe no dia de seus anos umas chinelas bordadas por mim. Bem vê que não o enganei.

Proferindo as últimas palavras, Amélia sempre ocupada com seu bordado, debruçou-se completamente sobre o bastidor para desembaraçar o fio de seda frouxo. Este movimento produziu o que Horácio esperava. A saia, retraída pela travessa do bastidor, descobriu até o artelho o pé da moça.

O moço estremeceu com a forte emoção; e fechou os olhos, atordoado.

O que vira era uma coisa indefinível, estupenda. Era o aleijão, a monstruosidade de que lhe falara Leopoldo. Aquela massa informe; aquela enormidade cheia de cavernas e protuberâncias, ele a tinha ali em face, diante dos olhos, escarnecendo do seu amor, como um desses caturras hediondos das lendas da Idade Média.

— Diga-me uma coisa: ontem depois que saímos, o senhor conversou com aquele moço que dançou comigo? O Leopoldo, não é?

Não recebendo resposta, Amélia ergueu a cabeça para interrogar o noivo com o olhar. O aspecto demudado de Horácio, o sorriso pungente que amarrotava seu bigode artístico, a vista ansiada que ele tinha fixa no monstro, lhe revelaram subitamente o que sucedera.

Um grito de aflição escapou-se do peito da moça, que afastou violentamente de si o bastidor, causa do acidente, e colheu os largos volantes da saia, ocultando o que ela por tanto tempo defendera contra a curiosidade sôfrega do moço. Por alguns instantes os noivos permaneceram mudos e confusos, sentindo-se repelidos um pelo outro, e contudo não ousando afastar-se.

É um suplício cruel esse que inflige a presença de um ente que faz corar de vergonha.

Afinal Horácio levantou-se e deu alguns passos a esmo. Amélia aproveitou-se desse movimento para fugir da sala. Ficando só, o leão dardejou para o interior um olhar terrível; e tomando o chapéu, desceu rapidamente as escadas.

Agora ele compreendia tudo; e as palavras que Leopoldo lhe dissera na véspera, ao sair do baile, lhe repercutiam ao ouvido, como uma gargalhada satânica: "A ilusão é a única realidade deste mundo".

— Como pude eu tanto tempo iludir-me com o excessivo recato de Amélia? Como não desconfiei do pudor selvagem que velava semelhante a um dragão sobre o terrível segredo?

"Não há moça, seja ela o anjo da pudicícia, que não mostre ao menos a pontinha do pé, quando o tem mimoso e gentil. Eu devia saber disso, mas estava cego. Todos cochilamos, sem ser Homeros; eu que me prezo de conhecer a mulher, portei-me como um calouro.

— "Consumir dois meses a correr após um sombra, e quando esperava que a sombra tomasse corpo, ela se desvanece... Qual!

Antes se desvanecesse; mas ao contrário toma um vulto medonho, enorme, esquálido. Faz-me quase lembrar o verso de Camões." Horácio soltou uma gargalhada:

— Realmente eu não sei qual de nós dois ficou mais corrido. Se ela de mostrar a toesa; se eu de a ver.

"Sonhar uma pérola, e encontrar um seixo; imaginar um mimo, e achar uma brutalidade; desejar um botão de rosa, e colher uma túbara!

"Se os rapazes souberem disto, estou desonrado. Como posso eu mais apresentar-me na Rua do Ouvidor, quando a coisa divulgar-se? Todo o asno terá direito de atirar-me o coice, como ao leão moribundo da fábula."

Horácio começou a refletir se fizera bem saindo tão precipitadamente da casa de Sales. Moderou o passo, e olhou o relógio.

Eram perto de cinco horas. Se voltasse, chegaria tarde; demais, como explicar a retirada e a volta?

— Em todo caso, pensou o leão, a fortuna não me desamparou de todo. Assim como a ilusão durou até hoje, podia prolongar-se mais algumas semanas, e... Tremo de horror, quando me lembro que eu podia ser atado àquele mourão, àquele poste! Ser condenado a arrastar uma trave por toda a vida? Que suplício!

"Se eu pudesse imaginar que o Onipotente, criador de tantas maravilhas, se ocupa com a minha ridícula individualidade e se interessa pelos pecados que eu tenho cometido, me ajoelhava aqui mesmo na rua, e lhe renderia graças pela minha salvação.

"Quem se livrasse de ser esmagado por uma rocha, não escaparia de tão grande perigo como eu. Casar-se um homem com aquele pé, seria predestinar-se para o homicídio."

Passava um carro, que parou de repente.

— Ainda por aqui, Almeida? disse o Sales deitando a cabeça fora do carro.

— É verdade... saí, mas...

(continua...)

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