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#Romances#Literatura Portuguesa

O Conde d'Abranhos

Por Eça de Queirós (1925)

E Cardoso, apontando-lhe imediatamente no livro de notas que trazia sempre consigo, o nome, a idade, a morada e os prémios, retomou a sua xícara de chá, dizendo:

– Pois mande-mo cá. Metemo-lo por Freixo!

As eleições realizaram-se daí a três semanas e o ministério teve uma maioria compacta, sólida, homogénea.

Os jornais da oposição, é certo, afirmaram que, como corrupção, tricas, violências, peitas, influências obscenas, não só continuavam a tradição obsoleta dos Cabrais, mas ofereciam a evidência dolorosa da nossa decadência social!

O Estandarte dizia: «E imenso como torpeza; mas nós aplaudimos, porque um ministério que assim procede, inspira, ipso facto, um nojo genérico. Este governo não há-de cair – porque não é um edifício. Tem que sair com benzina, – porque é uma nódoa!»

O Progresso Social afirmava: «somos o escárnio da Europa!»

A Nacionalidade informava com chiste: «Está averiguado que a maior parte das urnas tinham fundos falsos: nada admira o expediente, vindo de um ministério de pelotiqueiros» – aludindo maliciosamente ao ministro das Obras Públicas, cuja perícia em fazer habilidades com cartas era geralmente estimada e muito apreciada na socie-dade.

Mas o Globo, jornal do Governo, teve esta saída resplandecente: «O Estandarte,.48 jornal dos Bexigosos, escreve no seu artigo de ontem: «O governo não há-de cair – porque não é um edifício. Tem que sair com benzina – porque é uma nódoa!» Este plagiato é torpe: aquela frase foi escrita por nós, ipsis verbis, no nº 1214 deste jornal, na ocasião em que os Bexigosos elegeram a câmara passada».

Ambos os partidos se consideravam reciprocamente uma nódoa – e se queriam suprimir com benzina! Ah, quando se compenetrará a Imprensa da elevação do seu sacerdócio?

A única eleição que nunca foi vituperada nos jornais da oposição foi a de Freixo. Com efeito

Alípio Abranhos, logo que soube da sua nomeação, prevendo os uivos da minoria, correu as redacções, onde, do tempo da sua colaboração na Bandeira, conservara ligações afectuosas, e foi dizendo, aqui e além, com uma notável habilidade política:

– Vocês compreendem. Eu venho por Freixo. Venho pelo Governo... Mas eu não me liguei, não me comprometi. Estou na expectativa. Vocês compreendem...

Compreenderam, creio – e a Nacionalidade escreveu mesmo: «o melhor resultado destas eleições, foi mandar à Câmara o nosso antigo condiscípulo, o Ex.mo Alípio Abranhos, esposo da formosa filha do digno Desembargador Amado, e que já nos bancos da Universidade era justamente reputado pelos seus dotes notáveis de orador».

Eu conservo religiosamente a carta que Alípio Abranhos escreveu ao Dr. Cardoso Torres, agradecendo a sua eleição. Considero-a sinceramente um modelo epistolar; ela pode realmente sofrer comparação com todas as cartas históricas – sem exceptuar a célebre carta do Dr. Samuel Johnson ao Conde de Chesterfield. Eis esse notável monu-mento de estilo:

Ex.mo Sr.

Vindo expressar a V. Exª o meu reconhecimento imorredouro pela maneira espontânea como V. Exª me abriu de par em par as portas da vida pública, eu não julgo necessário produzir bem alto a afirmação da minha profunda adesão ao Governo. O ministério a que V. Ex.0 preside representa o que há de mais elevado como inteligência, de mais completo como ciência de administração, de mais estrito como moral, e de mais genuíno como elemento conservador. Não há quase mérito em que um homem – que só deseja para o seu pais instrução, administração proba, moral e ordem – dê o seu apoio incondicional e absoluto a quem tão alto garante a prosperidade pública.

Quero contudo expressar a V. Ex.0 a minha dedicação particular para com a pessoa de V. Exª e rogar-lhe que me dê o mais depressa possível ocasião de publicamente lha patentear – não porque me pese esta honrosa dívida de gratidão, mas porque me consumo no desejo de dar publicamente um testemunho da minha admiração pelas altas qualidades políticas e individuais de V. Exª.

De V. Exª, etc.

ALÍPIO ABRANHOS.

Esta carta deu ocasião a que se estabelecesse nas regiões políticas um útil e nobre princípio, que muito tem concorrido para manter perante o país o prestígio dos homens públicos.

Quando, três meses depois de a ter escrito, Alípio Abranhos passou para os bancos da oposição e pronunciou aquele notável discurso em que provou claramente ao país que o Governo Cardoso Torres não possuía nem inteligência, nem ciência, nem.49 ordem, nem economia, nem moralidade, Cardoso Torres, num condenável impulso de vingança mesquinha, quis tornar pública a carta que eu respeitosamente citei.

(continua...)

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