Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Portuguesa

O Mistério da Estrada de Sintra

Por Eça de Queirós (1870)

«...Sabes — escrevia ele a um amigo — que o sonho de todo o negociante que chega à Índia é caçar um tigre. D. Nicazio Puebla quis caçar o tigre. Sua mulher Cármen de cidiu acompanhá-lo. Essa, sim; que tinha a coragem, a violência, a necessidade de perigos de um velho exploradorHundodo! Eu estimava aquela família. Combinámos uma caçada com alguns oficiais meus amigos, então em Calcutá. A duas léguas da cidade sabiam os exploradores que fora visto um tigre. Tinha mesmo sal tado, havia duas noite, uma paliçada de bambus, na propriedadede um doutor inglês, antigo colono, e tinha devorado a filha de um malaio. Dizia-se que era um tigre enorme, e formosamente lis trado.Partimos de madrugada, a cavalo. Um elefante, com um pa lanquim, levava Cármen. Um boi conduzia água em bilhas encanastradas de vime. Iam alguns oficiais de artilharia, sipaios, três malaios e um velho caçador experimentado, antigo brâmane, degenerado edevasso, que vivia em Calcutá das esmolas dos nababos e dos oficiais ingleses. Era destemido, meio louco, cantava estranhas melodias do Indostão, adorava o Ganges, e dormiasempre em cima de uma palmeira.

Nós levávamos espingardas excelentes, punhais recurvados, espadas de dois gumes, curtas, à maneira dos gládios romanos, e o terrível tridente de ferro que é a melhor arma paraa luta com o tigre. Ia uma matilha de cães, forte e destra, da confiança dos malaios.

Às 11 horas do dia penetrávamos em plena floresta. O tigre devia ser encontrado numaclareira conhecida. Íamos calados, vergando ao peso implacável do sol, entre palmeiras, tamarindos, espessuras profundas, num ar sufocado, cheio de aromas acres. Toda aquela natureza estava entorpecida pela calma: os pássaros, silenciosos, tinham um voo pesado; assuas penas coloridas, vermelhas, negras, roxas, douradas, resplandeciam sobre o verde-negro da folhagem. O céu mostrava uma cor de cobre ardente; os cavalos marchavam com o pescoço pendente; os cães arquejavam; o boi que levava a água mugia lamentavelmente; sóo elefante caminhava na sua pompa impassível, enquanto os malaios, para esquecer a fadiga, diziam, com a voz monótona e lenta, cantigas de Bombaim.Estávamos ainda distantes do tigre: nem os cavalos tinham rinchado, nem o elefante soltara o seu grito melancólico e doce. To davia, achávamo-nos próximo da clareira.

Eu cheguei-me ao palanquim de Cármen e bati nas cortinas. Cármen entreabriu-as:estava pálida da fadiga do sol e do prazer do perigo; os olhos reluziam-lhe extraordinariamente. Ansiava pela luta, pelos tiros, pelo encontro da fera. Pediu-me uma cigarrette e um pouco de conhaque e água...Eu, desde que a conhecia, tinha muitas vezes olhado Cármen com insistência, e tinha visto sempre o seu olhar negro e acaricia dor envolver-me respondendo ao meu.Tinha-lhe algumas vezes dado flores, e uma noite que, num terraço em Calcutá, olhávamos as poderosas constelações da Índia, o céu pulverizado de luz, ela tinha ummomento esquecido as suas mãos entre as minhas. A sua beleza perturbava-me como um vinho muito forte. E ali, naquela floresta, sob um céu afogueado, entre os aromas de magnólias, Cármen aparecia-me com uma be leza prestigiosa, cheia de tentações a que se nãofoge.

— Ah, Cármen! — disse eu. — Quem sabe os que voltarão a Calcutá!- Está rindo, capitão... — Na caçada do tigre pode-se pensar nisto: o tigre é astuto; tem o instinto do inimigo mais bravo e do que mais lamentado.- Ninguém hoje seria mais lamentado que o capitão.

— Só hoje.- Sempre, e bem sabe porquê. De repente o meu cavalo estacou. — O tigre! O tigre! — gritaram os malaios.

Os cavalos da frente recuaram; os sipaios entraram nas fi leiras da caravana. Os cães latiam, os malaios soltavam gritos guturais, e o elefante estendia a tromba, silencioso. De repente, houve como uma pausa solene e triste, e um vento muito quente passou nasfolhagens.

Estávamos defronte de uma clareira coberta de um sol faiscan te. Do outro lado havia um bosque de tamarindos: era ali decerto que a fera dormia. Voltei-me para D. Nicazio: vi-opálido e inquieto

— D. Nicazio! Dê o primeiro tiro, o sinal de alarme!D. Nicazio picou rapidamente o cavalo para mim, murmurou com uma voz sufocada: — Quero subir para o elefante. Cármen não deve estar só, po de haver perigo... Falei aos malaios, que desdobraram a estreita escada de bambu, por onde se sobe aodorso dos elefantes. O cornaca dormia encruzado no vasto pescoço do animal. D. Nicazio subiu com avidez, arremessou-se para dentro do palanquim, e de lá, pela fenda das cortinas,espreitava com o olho faiscante e medroso.



(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3233343536...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →