Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

A duquesa, que se esquecera das primeiras palavras de Emília, por causa da sua curiosa narrativa, lembrou-se de que tudo o que se dissera não passava de preâmbulo ao assunto grave...

— Não quero que se chame um padre — continuava a doente — porque seria perder grandes momentos... sra. duquesa, rogo-lhe que me ouça bem... Sou uma pobre moribunda... Vou confiar-lhe a miserável herança... Recomendo-lhe a minha Conceição, a linda bastardinha inocente... Tenho um filho, o filho do meu infame casamento... É pequenino, mas tem os avós que o adoram... A desamparada é Conceição... É a filha da minha vergonha, mas tem um grande sangue nas veias... Não! não é a filha de um lacaio que aceita por servilismo uma vagabunda sem honra... Nunca admiti que chamassem minha filha, porque eu era a mulher de um miserável... Conceição é a relíquia da minha pureza despedaçada... Eu adorei-a sempre... Agora vou morrer... Não pensava que fosse tão cedo, mas adivinho que não falta muito... Vou deixar a vida... não quero que ela me vá cuspir na cova por eu ter sido a autora da sua desgraça. Aproxime-se bem de mim, sra. duquesa... A voz me vai... faltando de todo... não perca uma palavra...

Sentia-se uma transformação no semblante da moribunda. Percebia-se-lhe nos olhos alguma coisa de fazer calafrios, como se a morte estivesse a espiar por eles.

— Preciso de ar... levante ali a janela...

A duquesa correu à vidraça e suspendeu-a, voltando para junto de Emília.

O ar impregnado de perfumes campestres entrou em turbilhões, fazendo vacilar a luz da vela que clareava o quarto e agitando os cabelos desgrenhados e secos da moribunda...

— Está bom o fresco — disse Emília sorrindo tristemente...

Depois, com grande espanto da duquesa, perguntou cheia de gravidade:

— Conhece Manuel de Pavia?...

— Conheço este desgraçado.

— Diz bem... um desgraçado... Este homem que foi cúmplice do duque na minha ruína... Ah! eu bem o reconheci... Este homem acaba de comprar ao meu sogro a honra de minha filha para oferecê-la ao duque...

A duquesa apertou a fronte entre as mãos para que não arrebentasse. O coração palpitava-lhe com uma violência mortal...

— Ah! sra. duquesa, é um belo presente para um pai!...

— Perdoe-me, pobre senhora! perdoe-me! — exclamou a duquesa abraçando e cobrindo de lágrimas a moribunda. Desatinava como se fosse enlouquecer...

— Mas o duque!... — exclamou com a voz angustiada, sem saber o que falar.

— O duque — disse a doente —, o duque ignora... O perigo é enorme. Rogolhe que salve minha filha... Ela está em casa de Pavia... Foi hoje... deixei-a ir, porque enquanto o duque estiver ausente... Salve-a... Entrego-lha.

— Ah! meu Deus! meu Deus! —exclamou a duquesa...

Acabava de ver um tremor agitar os olhos de Emília e a cabeça tombar-lhe para os seios, em toda a flacidez da inércia.

A mãe de Conceição lançara o derradeiro olhar ao retalho de noite que se via pela janela aberta e, fitando saudosamente uma estrela, inclinara a cabeça ao peso da morte.

Na estrela que viu por último, deixou escrito um adeus para aqueles que havia quatorze anos não sabiam dela.

CAPÍTULO XIV

A chegada de Conceição casa de Pavia foi uma festa.

Houve tanto prazer que ninguém acreditaria que o chefe daquela família fora preso. É que Manuel de Pavia dissera à mulher coisas tranqüilizadoras...

Cada um cuidava apenas em fazer agrados à companheira de Claudina. As horas correram insensivelmente. Houve um jantar que surpreendeu a Conceição. Iguarias nunca vistas; vinhos nunca sonhados.

Foi notável o interesse com que a mulher de Pavia serviu de bebidas a linda hóspede. Conceição, com a sua rusticidade descerimoniosa, foi provando de tudo que lhe davam.

Ao fim do jantar, sentiu-se presa de uma sonolência estranha. Quis retirar-se. Todos protestaram, dizendo que ela não iria para sua casa, senão no dia seguinte.

Conceição ficou.

Muito cedo começou a família de Pavia a preparar-se para dormir.

Conceição foi conduzida pela dona da casa ao esplêndido aposento que lhe era destinado. Um Éden de perfumes e tapeçaria. Clareava-o brandamente uma pequena lâmpada de porcelana, a desferir luares rosados para os largos espelhos que adornavam o quarto, nos intervalos de luxuosos móveis de toilette. Duas grande janelas, veladas sob alvíssimos panos de renda pendentes de maçanetas douradas, davam passagem às aragens frescas que circulavam por fora. Erguendo-se estas cortinas, viam-se, a entrar pelas janelas, debruçados indiscretamente sobre o peitoril, frondosos ramos de jasmineiros, que alastravam de flores o peitoril e desprendiam aromas, nocivos talvez àquela hora, mas de uma doçura celestial, enervante. Era indescritível a luta silenciosa mas renhida, desses aromas com a perfumaria dos frascos perdidos pelo boudoir.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3233343536Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →