Por Adolfo Caminha (1895)
Já uma vez pedira alta; se o queriam levar a capricho, então adeus!... Morria, mas não dava parte de fraco... Era homem, que diabo! e um homem deve mostrar para que veio ao mundo...
Embirrava com toda gente, afinal: — Enfermeiros brutos! Cozinheiros de frege! O próprio médico, assim que lhe dava as costas, era logo insultado.
Seu consolo nesse abandono de galé, nessa espécie de viuvez d’alma, era o retrato de Aleixo, uma fotografia de baixo preço tirada na rua do Hospício, quando ele e o pequeno moravam juntos na corveta. Representava o grumete em uniforme azul, perfilado, teso, com um sorriso pulha descerrando-lhe os lábios, a mão direita pousada frouxamente nos espaldar de uma larga cadeira de braços, todo meigo, todo petit-jesus... Bom-Crioulo guardava essa miniatura religiosamente, com cautelas de namorado, e à noite, quando se ia deitar, despedia-se dela com um beijo úmido e voluptuoso. Habituara-se àquilo do mesmo modo que se habituara a fazer o sinal-da-cruz antes de fechar os olhos. Uma superstição pueril de amante cheio de ternuras... Agora, porém, esse amuleto inestimável acompanhava-o a toda a parte. Durante o dia mesmo, ele sacava-o fora do bolso e punha-se numa contemplação mística, num vago enleio ideal, a olhar o retrato de Aleixo, como se daquele cartão inanimado e frio lhe pudesse vir um raio de amor, um luar de esperança...
Achava-o muito parecido com o original, oh! mesmo muito... Os olhos, a boca, o sorriso, o nariz... tudo! Como é que se podia, num momento, copiar assim as feições de uma criatura! Era ele, exatamente o Aleixo!
E ficava admirado, ficava idiota, perdia a cabeça, quando seus olhos caíam sobre o pequeno “registro”... Ria-se, às vezes, para ele, sem que ninguém visse, retirado para um cano obscuro, longe dos outros.
E cada dia que passava era como se fosse um ano, um século, uma eternidade!
Lembrou-se de pedir a alguém que lhe escrevesse um recado ao grumete, duas palavras, uma linha...
Talvez ele nem soubesse onde estava o Bom-Crioulo... Falou a um rapazinho empregado no hospital: era favor, sim? um favorzinho... E ali mesmo, na enfermaria, perto da janela que olhava para os Órgãos, quase ao escurecer, traçaram estas palavras:
“Meu querido Aleixo
Não sei o que é feito de ti, não sei o que é feito do meu bom e carinhoso amigo da Rua da Misericórdia; Parece que tudo acabou entre nós. Eu aqui estou no hospital, já vai quase um mês, e espero que me venhas consolar algumas horas com a tua presença. Estou sempre a me lembrar do nosso quartinho... Não faltes. Vem amanhã, que é domingo.
Teu
Bom-Crioulo”
Somente isto. — Queria ver agora como se portava o “senhor Aleixo”, se ainda o estimava, se era o mesmo da corveta, o mesmo da Rua da Misericórdia, meigo e dócil, carinhosos e reconhecido.
No dia seguinte, pela manhã cedo, o primeiro escaler que largou da ilha para a terra conduzia o bilhetinho cautelosamente fechado, escrito numa garatuja desigual, tortuosa, indecifrável, que o empregado traçara ao crepúsculo, defronte do mar e à pressa.
O negro ficou ansioso pela resposta, numa inquietação de namorado que espera o desejado momento de abraçar a sua ela, contando as horas minuto por minuto, frenético às vezes; quando, por uma ilusão do ouvido, julgava perceber a voz do outro, animado agora e depois completamente desanimado, à proporção que as horas iam passando, fazendo cálculos ideais, balbuciando monólogos imperceptíveis, indo e vindo pelos corredores, pelas dependências do hospital como um idiota, como uma pessoa inconsciente. — E se ele não viesse? Ah! decididamente é porque já não o estimava: é porque o desprezava. Mas, ao menos, havia de responder fosse o que fosse.
Não podia acreditar que ele, sempre tão amável, tão bom e solícito, rasgasse o bilhete sem dar uma respostazinha, um sim ou um não. Qual...
Tinha penteado o cabelo, mudado de roupa, e de instante a instante fazia uma chegada ao espelhinho, ao seu miserável caco de espelho, um traste que possuía no fundo da maca.
Passou a hora do almoço, chegou a hora do jantar, entraram e saíram marinheiros, a sineta badalou novas baixas, tocou meio-dia, e nada! nem sinal de Aleixo, nem sombra dele! — Era mesmo para uma pessoa danar! Se não quisesse ir, dissesse!
Começava a perder a esperança. — Amigos! fie-se a gente em amigos!...
Crescia-lhe a inquietação moral, crescia-lhe o desespero como uma onda que vai pouco a pouco intumescendo, empolando-se, até se desfazer em espuma, quebrar-se de encontro à rocha... — Não almoçara, não jantara, e o resultado era aquele: o senhor Aleixo divertia-se!
E quando as corvetas da esquadra fizeram sinal de “arriar a bandeira”, quando o portão do hospital fechou-se às visitas, uma tempestade de ódio levantouse no interior daquele homem capaz de todas as dedicações e de todos os horrores.
(continua...)
CAMINHA, Adolfo. Bom-crioulo. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16513 . Acesso em: 27 mar. 2026.