Por Aluísio Azevedo (1880)
Continuava Sombra da Noite a discorrer por diante, enquanto Miguel, sem sequer se aperceber disto, fitava, encostado, imóvel, aos varões o jardim, a claridade colorida e alegre das vidraças de Rosalina, cujo aspecto festivo contrastava com o sombrio das grades negras e lustrosas do cárcere interior do seu espírito.
Ignorado, corria-lhe em silêncio, dos olhos, o pranto morno e copioso.
Por que chorava ele, tão bom e generoso, ao contemplar a fortunosa opulência da sua querida amiga? Não a desejava por acaso feliz? Não queria para ela todos os bens da terra e todas as bênçãos do céu? Sim! mas é que no meio da opulência daquele orgulhoso viver se haveriam de humilhar a singela blusa e a rabeca o artista.
Desgraçado! Chorava porque era moço, porque não tinha vivido bastante para saber que a vida é uma enorme decepção; chorava porque Rosalina era o seu primeiro amor, e o primeiro amor do homem é tão selvagem e feroz como o deve ter sido o do primeiro homem da natureza. Chorava porque a estrela que o conduzia na existência tingia-se de cores mundanas, em perda do celeste azul do seu fosforescer.
Era aquele chorar de Miguel um carpir triste e desesperançado sobre dois túmulos ainda mais tristes, sobre o de Rosalina e sobre o seu, porventura menos valioso que o dela; era chorar sobre o túmulo das recordações e sobre o das esperanças, o passado e o futuro, o nada e o nada.
E que mais é o nosso viver nesta espécie de mundo, senão uma ilusão entre dois nadas: o presente e o futuro? Dois nadas insondáveis e obscuros que fecham uma hipótese, chamada presente. Ontem, saudades nebulosas; hoje, mentiras e esterilidades; amanhã, sonhos mal contornados. Eis a vida!
E assim cismava Miguel, enquanto o companheiro, sem lhe dar pela indiferença, continuava a papaguear, acrescentando:
— Não seria eu capaz de morar aqui, nem que me cobrissem de ouro! Meter-me com os demos de almas penadas, que...
Nisto avivou-se e repente a luz do quarto de Rosalina.
Miguel endireitou-se todo como uma cobra e prestou atenção. Sombra da Noite calou-se de todo e ficou também a olhar para a janela iluminada, dizendo baixinho, depois de algum silêncio:
— Entrou para o quarto...
Miguel chegou-se dele e disse-lhe imperiosamente:
— Deixe-me só e vá esperar-me na tasca. Leve consigo Castor e tome dinheiro para o que for necessário.
Sombra da Noite retirou-se silenciosamente.
O artista continuou imóvel e abstrato a fitar a janela; depois, como se quisesse falar àquela claridade risonha e colorida que de lá vinha, ergueu inspirado o arco, colou com frenesi a rabeca ao ombro, e os sons encantados, com que dantes comovera a sua amada, rebentaram plangentes e harmoniosos, como um coro de beijos e suspiros, soluçando pelos anjos.
Estaria ela no quarto?
Estava, com efeito, pois essa era a noite, justamente a mesma em que Rosalina, concertada com o cavalheiro de bigodes pretos, abandonava os salões da dança, para refugiar-se voluptuosamente extenuada nos seus aposentos, e aí ouvira o murmurar choroso de uma harmonia esquisita e conhecida.
Era essa mesma a noite, mesma era também a música, a rabeca a mesma, mesmos o arco, o artista, o braço, a inspiração; só Rosalina! só ela não era a mesma, que dantes se arrebentava com aquela música bela e inocente como o amor de duas crianças.
CAPÍTULO VII
Miguel continuava a tocar inspirado.
A luz da alcova de Rosalina amortecia-se e as horas da noite foram-se sucedendo, tristes, frias, uniformes e silenciosas como as brisas do outono.
Os últimos arrancos do instrumento confundiram-se com os primeiros estremecimentos da aurora. Quando Miguel chegou à tasca, era já dia alto; estava deserta a praia de pescadores, que não tinham ainda voltado da pescaria.
Ligeiro enfiou-se o artista pelo quarto onde se acomodara Sombra da Noite, depôs num canto a rabeca e precipitadamente escreveu num pedaço de papel ordinário o seguinte:
"Rosalina:
Não morri e desejo viver só para te amar. Estou resolvido a fazer tudo o que me ordenares, até mesmo a minha própria desgraça, se ela a ti for necessária; em troca disso, peço-te, com a alma de joelhos, meu amor, que me concedas amanhã à meia-noite, uma entrevista. O teu lenço, atado ao balcão da tua janela, será o sinal de que ainda te mereço alguma coisa. O teu escravo — Miguel Rizio. "
Escrito, dobrado e subscritado este bilhete, Miguel acordou Sombra da Noite, que dormia a somo solto.
— Entrega, disse-lhe ele, do melhor meio que te acudir, hoje à noite, esta carta a Rosalina, se não lhe puderes falar, faze ao menos porque lhe chegue às mãos, mas sem falta hoje! Entendes?
— Descanse! que será entregue, disse Sombra da Noite, metendo o papel no bolso.
(continua...)
AZEVEDO, Aluísio Azevedo. Uma lágrima de mulher. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16538 . Acesso em: 25 mar. 2026.