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#Romances#Literatura Brasileira

O Livro de uma Sogra

Por Aluísio Azevedo (1895)

Era outubro, e a manhã saíra-nos encantadora. Foi deliciosa a subida até o alto da serra, por entre as vegetações e os penhascos da estrada, ao primeiro transbordamento do dia. A quaresma e a sucupira abriam já, na sombra azul das matas, flores roxas e amarelas. Inebriava o espírito deslizar suavemente naquele vasto rescender de aromas resinosos, ao hino matinal dos campos, que se iam, ainda mal acordados dos seus sonhos de opala, preguiçosamente desnevoando à dourada fulguração da luz nascente.

Não nos quisemos deter na cascatinha, e continuamos a subir para a Floresta.

A Floresta! Ah! quantas recordações não tinha eu desses lugares, onde tantas vezes passeei pelo braço de Virgílio, antes do nosso casamento, antes da nossa desilusão, quando eu ainda o amava com amor de mulher! César ao meu lado, no carro, parecia também esquecido nas suas saudades, porque ia abstrato e mudo, olhando fixamente o misterioso horizonte de verdura, com as mãos sobpostas ao queixo e firmadas no castão da sua bengala.

Palmira e Leandro seguiam adiante cavalgando emparelhados, a rir e a conversar, gárrulos e donairosos. Ah! esses não ficavam quietos e calados um só instante, porque iam vivendo do presente e do futuro. Avançavam a galope, resplendentes e soberbos no orgulho do seu amor e da sua mocidade, sem volver para trás os olhos enamorados; alheios a tudo, encarando com desdém o resto do mundo, como do alto da montaria olhavam no caminho as pobres cambaxilras, que esvoaçavam escorraçadas fugindo e gralheando à sua vitoriosa passagem.

Penetramos no coração da Floresta. Minha alma, de comovida, abriu-se de par em par, num êxtase contrito, num doce e profundo enlevo religioso. Tive vontade de ajoelhar-me à sombra das velhas árvores e chorar.

Como eu te amava ainda, casto paraíso das minhas saudades! ó minha querida floresta! Não tinhas, como eu, envelhecido, odorante e sombrio templo de verdura! encontrei-te moça e garrida como te deixara, e como a mim tinhas visto, dantes, muito dantes, à flor da minha juventude; o que agora te não achei foi tão minha amiga, tão minha confidente e tão comunicativa como dantes. Eras alegre, paraíso! achei-te triste!

Não! já não eras para mim o mesmo éden carinhoso e sorridente, que com todas as tuas vozes me falavas de amor e de vida! Reconheci as tuas místicas estradas murmurantes; os teus brancos caminhos serpeados entre montanhas de veludo verde; as tuas árvores patriarcais, de longas barbas venerandas, em que se engrimpam e dependuram orquídeas e parasitas; o teu lago quieto e melancólico, em que as taquaras e samambaias se miram furtivamente, por entre a esparsa e mergulhada cabeleira das algas e nenúfares; reconheci a música plangente das tuas águas rebatidas, de cascata em cascata, a sombra amorável e doce das tuas grutas escondidas; reconheci tudo isso, todas essas paragens encantadas; mas já não eras a mesma para mim, Floresta, que me embalaste os sonhos de esperança!

Oh! como Palmira nesse mesmo instante devia achar-te alegre, triste Floresta! Triste e morto paraíso de saudades!

Em que cisma, minha amiga?... perguntou-me César, tomando-me uma das mãos.

— No mesmo em que você pensava ainda há pouco — no passado... Cismas de velho!...

E suspiramos ambos, desconsoladamente.

Voltei desse longo passeio, de um dia inteiro, com uma fria impressão de tristeza, que se não dissolveu em lágrimas, mas que enlutou de sombras dolorosas o meu velho coração de mulher.

E comigo foi sempre assim, muito antes mesmo da velhice. A contemplação de belas paisagens como a da Floresta, as grandes obras de arte, a música principalmente, deixavam-me na alma um amargo ressaibo de melancolia insolúvel. Atribuía isso, então, ao fato de nunca ter sido, em nenhum tempo de minha vida, completamente feliz. Essa tristeza era como que, não a saudade, mas a desconsolação de quem entreviu, compreendeu e sentiu a ventura natural do viver inteiro e completo, sem nunca poder atingi-la, sem esperanças de gozá-la ainda depois, já na velhice, se acha afinal sem esperanças de gozá-la ainda algum dia, nesta, ou noutra qualquer existência. Era o flébil ressentimento de um pobre coração espoliado e vencido.

E já agora confesso tudo: cheguei a ter uma incogitável ponta de inveja por minha filha... Mas não invejava a noiva, invejava a felicidade de mulher que a esperava, feita e preparada por mim. Ah! eu não tivera mãe, como ela me possuía!...

(continua...)

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