Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF


Compartilhar Reportar
#Romances#Literatura Brasileira

O Matuto

Por Franklin Távora (1878)

- A nobreza da capital, ajuntou Cosme Bezerra, está ameaçada. A tardança no socorro poderá trazer males irremediáveis.

Estava neste ponto a discussão, quando Matias Vidal tomou a mão, e disse:

- Senhores, tudo o que acabo de ouvir de vossas bocas, parece-me inspirado pelo principio da própria conservação de cada um de nós, pela dignidade da nobreza pernambucana, e pelo amor da terra de que os forasteiros querem assenhorear-se. Mas quem nos afiança que não estamos já ameaçados também de perdermos as nossas vidas e propriedades? Honroso seria corrermos imediatamente á capital, afim de reforçarmos a sua defesa; mas um dever que me parece superior a todos, exige talvez a nossa presença no seio das nossas famílias. Teremos acaso tão seguros estes penhores da nossa estima que possamos, sem risco, deixa-los entregues a se próprios, enquanto vamos auxiliar os nossos parentes e amigos longe daqui? Certamente o plano dos forasteiros ficaria abaixo das suas ambições se nele entrasse o pensamento de se hostilizar a nobreza dos arredores da vila de fresco criada. Tudo ao contrario faz crer que eles conspiram contra a nobreza de toda a província, porque sem a destruição total dela não poderão ficar senhores de todo país. Não moro na vila de Goiana, mas lá mesmo no meu mato soube que o ouro dos mascates andava por aqui nas mãos de baixos comissários.

- Tendes razão, tendes razão – disse Manoel de Lacerda. O que dizeis é verdade.

Antes de montar a cavalo para vir a esta reunião, disse-me um dos meus lavradores que soubera terem sido distribuídos em Goiana, donde chegava, 14,000 cruzados para a compra de gente que apoie a causa dos mercadores. Se isto é verídico...

- É verídico – disseram muitos dos que se achavam presentes.

Se assim é, prosseguiu Matias Vidal, não será imprudência desampararmos nossas casas, que, privadas de nosso encosto e sem nenhum meio de defesa, visto que teremos de levar conosco as nossas escravaturas, ficarão expostas a grandes desgraças.

A estas palavras, que saíram fracamente dos lábios de Matias Vidal, como dentre duas pedras caem gotas de água nativa, seguiu-se um momento de silencio. Nelas vinha um cunho de madura prudência que abatia e resfriava os ímpetos e os éstos dos precedentes oradores. Aqui estava o pai de família, o agricultor, o matuto, sem exclusão do patriota. A inspiração sensata, a lúcida intuição que adivinhava os perigos próximos, ao mesmo tempo que via os remotos já descobertos, tomaram o lugar aos assomos da soberba de João da Cunha, da valentia de Lacerda, da ardência de Bezerra, e apresentaram a solução natural do grave problema que os trazia ali reunidos.

- Ela é verdade – disse primeiro o ex-alcaide-mór, como quem caia em se e via agora de todo clara a situação há pouco envolvida em densas trevas. Junto, em torno de nós, mandatários disfarçados espreitam os nossos passos para os denunciarem aos mandantes, nossos inimigos.

- Que diz você a isto, irmão André? Perguntou Luiz Vidal a André Cavalcanti, que atento ouvira os vários conceitos dos conferentes.

- Digo que o nosso primeiro empenho deve consistir em tratarmos da nossa própria defesa. Estou por isso inteiramente de acordo com o parecer de Matias Vidal. Quem sabe se dentro de poucas horas não teremos de haver-nos com revolta idêntica á do Recife?

- Nem devemos esperar coisa diferente – disse Jorge Cavalcanti.

- A que fim, senão a este, mandaram para cá os mascates o seu ouro? Observou José de Barros.

Ontem corria nas lojas e tabernas de Goiana – disse Manoel de Lacerda, que um motim se preparava contra a nobreza. Antonio Coelho, cuja audácia todos nós sabemos, nunca se mostrou tão derramado em arrogancias e insultos. De noite houve ajuntamento em sua loja, ajuntamento que só se desfez quando já era noite alta e depois de muitos urras, que ressoaram nas vizinhanças. Certo está Antonio Coelho incumbido de dirigir o movimento.

- Bom será que o não percamos de vista, disse João da Cunha.

Hoje de manhã, passando eu pela frente de sua casa, vi-o fazendo gestos no balcão. Estava, ao parecer, ébrio; não tinha curtido de todo o vinho que bebera na véspera, porque lhe ouvi palavras insultuosas que me iam lançando fora do caminho da prudência.

- Que disse ele, Cosme Bezerra? Interrogou o sargento-mór.

Suas insolências tinham por objeto a vossa própria pessoa. <Hei de ensinar o João da Cunha; é tempo dele pagar o novo e o velho. Hei de ir com minha gente revirar a bagaceira de seu engenho, para pôr á mostra a ossada do mascate que ele mandou seus negros matar, só porque...>

- Porque?porque? perguntou o sargento-mór, tomado de súbita comoção, e fazendo-se lívido. Que historia contou o vilão?

- Contou que o mascate tinha sido assassinado por se queixar de lhe não terem pago certa quantia.

João da Cunha, sem o querer, tinha-se levantado.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...3132333435...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →