Por Bernardo Guimarães (1872)
Eugênio, então entrado nos dezenove anos, já não tinha o seu dormitório no salão dos meninos; pertencia à turma dos grandes, e dos que propriamente se chamam "seminaristas" ou candidatos ao sacerdócio: Como tal, tinha portanto o seu cubículo ou cela particular. Ali também entregava-se com fervor a contínuas práticas de devoção e ascetismo, e ajoelhado aos pés da imagem da Mãe de Deus, rezava longamente e deixava o seu espírito perder-se engolfado em santas e beatíficas contemplações, ou lia as páginas ardentes e sublimes de S. Jerônimo ou de S. Agostinho, e os seráficos escritos de S. Francisco de Sales e de S. Teresa de Jesus, tão perfumados de mística unção e de angélica piedade.
A estas práticas de devoção e piedosas leituras vinham se juntar estudos severos das matemáticas, de filosofia e teologia, que lhe iluminavam e robusteciam a inteligência; ao passo que a leitura assídua do Eclesiastes; do livro da sabedoria e dos provérbios de Salomão lhe confortava o coração, e o protegia contra os ataques das seduções e vaidades do mundo.
Mas não se pense que Eugênio enlevado em seus atos de devoção e absorvido em seus estudos havia conseguido esquecer-se de Margarida.
Somente o seu amor, purificando-se ao contato da religião de tudo que nele havia de carnal e terreno, tinha tomado as cândidas roupagens de uma afeição angélica e ideal, e o fel amargo da saudade, que lhe afogava o coração, se havia transformado em uma torrente de lágrimas silenciosas e resignadas, que vertia aos pés da Virgem consoladora dos aflitos.
Entre as nuvens do incenso, que embalsamavam o templo, no meio dos anjos de suas visões pairava também a imagem de Margarida, e por entre as piedosas e místicas harmonias, que enchiam as abóbadas sagradas, ouvia-lhe a voz suave e argentina. No retiro solitário de sua cela, quando prostrava-se em oração ante a imagem da Virgem, Margarida estava também ajoelhada ao lado dele como nos tempos de seus brincos de criança, e era ela o anjo, que nas asas de neve e ouro levava as suas preces ao trono do Onipotente.
Essas duas tendências naturais de seu coração terno e entusiasta, pode-se dizer essas duas paixões, que lhe eram inatas, o amor e a devoção, congraçavamse admiravelmente em seu espírito. O arroubo místico, contínua aspiração para Deus e para as coisas celestes, não excluía nele o amor por essa criatura, que é sobre a terra um dos mais belos reflexos do infinito poder — a mulher. É que de fato esses dois sentimentos tão puros, tão celestes ambos, nada têm de inconciliáveis em si mesmos, e somente uma lei meramente convencional, impondo o celibato como um preceito, imperativo, podia, levantar entre eles esse odioso antagonismo, contra o qual a razão protesta e revolta-se o coração.
Eugênio pois não deixava de sentir em si a mais pronunciada vocação para o sagrado ministério do altar; se não fora o amor, que nele ainda prevalecia sobre as tendências teocráticas, sua resolução estaria definitivamente firmada e decidida. O seu espírito oscilava perplexo entre essas duas belas e santas aspirações, as quais, se não fossem canonicamente incompatíveis, teriam entretecido para a fronte do mancebo a mais brilhante coroa de glória, de amor e de felicidade, e que no entanto por sua incompatibilidade estavam fadadas a cavar-lhe um abismo de angústias e desgraças.
Dois anjos a um tempo tomavam Eugênio pela mão, e o convidavam para o céu.
Um era a piedade, que lhe mostrava os degraus do altar, e lhe corria diante dos olhos maravilhados os véus sacrossantos, que encobrem o trono de Deus.
O outro era o amor, que lhe entreabria a porta misteriosa da alcova nupcial, e lhe apresentava a imagem de Margarida.
O despertar do espírito religioso na alma do mancebo, alimentado e auxiliado por contínuas exortações e conselhos dos padres, já era um grande passo para a consecução do fim que tinha em vista. A paixão ascética ia pouco a pouco ganhando sua alma, e em breve os afetos profanos não encontrariam nela nem mais um cantinho onde aninhar-se.
Aplaudiam-se entre si deste resultado, e já não duvidavam de que mais tarde ou mais cedo o triunfo seria completo, e o moço abjurando de uma vez todas as paixões terrenas se entregaria sem resistência nos braços de sua natural vocação — o sacerdócio.
Escreveram ao pai de Eugênio:
"Graças ao Todo-poderoso e aos nossos perseverantes esforços, a ovelha desgarrada vai se encaminhando para o aprisco da religião... O bálsamo salutar da devoção vai dissipando os efeitos do veneno, que a paixão pecaminosa lhe filtrara no coração. Mais um passo, e poderemos cantar assinalada vitória sobre o espírito das trevas, ganhando um digno ministro para o altar, e uma bela alma para o céu. Resta, que V. Sa. nos comunique o casamento da rapariga e tudo estará concluído."
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Seminarista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16585 . Acesso em: 27 fev. 2026.