Por Bernardo Guimarães (1872)
Elias passou essas amargas horas, umas vezes sepultado em profundo abatimento, numa letargia da alma e do corpo, outras em acessos de raiva e exasperação, esbravejando, vociferando, e dando com a cabeça pelas paredes. Estes transportes de furor ainda mais confirmaram a crença em que estavam, de ter ele caído em alienação mental em razão dos horríveis contratempos que o tinham fulminado naqueles últimos dias. O infeliz bem via e conhecia os motivos do abandono em que o deixavam seus conterrâneos por amor de um astuto aventureiro que os soubera engordar, e os lamentava do fundo da alma: mas não podia refletir, sem estremecer e encher-se de furor, na sorte que esperava a pobre Lúcia, nas garras daquele bandido sem fé, sem costumes, sem consciência; e o que mais desesperava ainda era o pensar que ela ali estava bem perto, ela! que era a causa de todos os seus sofrimentos, ouvindo talvez tranqüila os seus bramidos de dor, e reputando- o, como os demais, um louco digno apenas de comiseração.
Estas e infindas outras considerações dolorosas davam-lhe febre e delírio; sentia arder-lhe o crânio e o coração túmido de angústias como que lhe não cabia no peito. A idéia do suicídio, que há dois dias antes lhe apresentara como o único meio de livrar-se daquela situação infernal, já não lhe sorria. O desejo de ver-se vingado o prendia à vida, e essa vingança ele a entrevia pendente sobre a cabeça dos culpados, ameaçadora e terrível. Era esta esperança que o alentava e o fazia suportar com alguma resignação as inclemências da sorte e as injustiças dos homens.
XII – MOEDEIRO FALSO
Lúcia, abalada violentamente em todo o seu organismo pelo inesperado aparecimento de Elias e pela triste cena a que dera lugar na noite de sábado, caiu em uma prostração febril e profunda, que nos primeiros dias chegou a causar sérios cuidados a respeito de sua existência. Aquela alma forte, aquela feliz e vigorosa organização enfim sucumbiu à luta atroz que há tanto tempo trazia travada com os sentimentos do coração. Às vezes delirava, e então o nome de Elias lhe vagava sempre pelos lábios no meio do tropel de suas idéias confusas e incoerentes. Só então seu pai reconheceu que o amor de sua filha não era uma simples veleidade de criança, um capricho da imaginação, mas uma dessas paixões veementes e profundas, que com os obstáculos mais se exaltam, e que nunca mais se desalijam do coração onde uma vez entraram. Mas era tarde; o mal já estava feito, e era irremediável.
Leonel, como era seu dever, foi visitar sua futura esposa com vivas mostras da maior angústia e consternação, mas dizendo dentro de si: - Oh! se ela sucumbiu já, que redenção para mim! Como noivo foi sem escrúpulo introduzido no quarto da enferma em ocasião em que esta parecia estar mais tranqüila. Lúcia em um estado de marasmo mal se percebeu da visita que era apresentada, e respondeu à sua saudação e a suas perguntas com tal indiferença, que bem mostrava não saber ela com quem estava falando. Por fim Leonel para despertar sua atenção tomou-lhe uma das mãos entre as suas, e debruçando-se sobre o rosto da enferma que se achava reclinada sobre o travesseiro, dirigiu-lhe em tom afetuoso estas palavras:
- D. Lúcia, olhe-me; não me conhece? . . . sou eu; é o Leonel. . . é o seu esposo. . .
-meu esposo! meu esposo! . . . quem é? É Elias?
E levantando um pouco o rosto e abrindo os olhos, que até ali conservara quase fechados no torpor da febre, fitou- os em Leonel. . .
- Ah! gritou ela espavorida, e recuando para o canto da cama. Não! não é Elias! não é meu esposo! é o ladrão. . . lá está a marca na cara! . . . fuja, senhor! fuja daqui! . . .
Leonel pálido e horrorizado levantou-se bruscamente, e saiu do quarto sem dizer palavra.
Para qualquer outro homem, que amasse verdadeiramente, aquela revelação do delírio- como o sonho da esposa do conde d’Este-teria sido um raio fulminador. Mas naquela ocasião Leonel, dissipado o primeiro assombro e terror que lhe causaram as palavras delirantes de Lúcia, viu nelas uma aurora de esperança, um sinal de redenção. Depois do desacato que sofrera em casa do Major, tinha-se mil vezes arrependido do compromisso que tomara pedindo em casamento sua filha, compromisso que agora o envolvia nas mais sérias dificuldades; e posto que fosse grande o desejo de possuí-la uma noite sequer, contudo maior era a necessidade que tinha de se pôr a salvo, evitando algum futuro incidente que o viesse perder completamente, e não sabia que meio excogitasse para conseguir esse fim sem comprometimento seu. Quando pediu a mão de Lúcia, não lhe ocorrera que corria então a quaresma e que forçoso lhe seria espaçar por tanto tempo o seu casamento. Se de tal se lembrasse, talvez não se arriscasse a tanto. O aparecimento de Elias e a cena da noite de sábado chamavam as atenções sobre ele. As folhas da corte começavam a falar muito no aparecimento de notas falsas, e nos esforços e diligências que o governo empregava por todo o império para descobrir e prender os moedeiros falsos. Estava-se na terça- feira, e até domingo próximo Deus sabe o que poderia acontecer. Portanto, por mais lisonjeiro que fosse o conceito de que ainda gozava na Bagagem, por mais confiança que nele depositassem, a posição do jovem baiano era das mais críticas e arriscadas.
Já pelas ruas lhe tinham constado os antigos amores de Lúcia e Elias, e posto que esse rumor vago não fosse ainda um motivo bastante sólido para determinar um rompimento, todavia Leonel estava disposto a prevalecer-se dele, e agarrarse a essa única tábua de salvação que a sorte lhe deparara.
(continua...)
GUIMARÃES, Bernardo. O Garimpeiro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1776 . Acesso em: 26 fev. 2026.