Por José de Alencar (1864)
—Augusto! Seu amor é um nobre e santo amor, como eu pedia a Deus que me desse a fortuna de inspirar!... Responder-lhe com uma dessas afeições banais a que o coração reserva apenas as horas vagas que deixam o cálculo e a vaidade, seria uma profanação indigna!... Espero e lhe peço que espere para não causar por engano a sua e minha desgraça; para não ser obrigada a dizer-lhe um dia:
"Eu me iludi! Esta vida que lhe dei, não a podia dar, não me pertencia, mas àquele de quem a roubei e agora a reclama! Trai a um, menti ao outro; falhei meu destino; só me resta morrer!" Eis porque eu lhe digo que espere.
Calou-se um instante.
—Talvez me iluda!... Há horas em que duvido ainda como outrora. Quero esperar um ano ainda... Acha muito? Para decidir de duas existências?... Se daqui a um ano eu conhecer que não amo, a esta mesma hora, no lugar onde o senhor estiver, eu irei dizer-lhe:
"Deus negou-me a ventura de amar; mas o senhor me ama; se a minha vida é necessária à sua felicidade, tome-a; eu lha dou com prazer; eu lhe pertenço, sem amor, mas cheia de dedicação!" Ouviu, Augusto?... Quer um juramento? —É inútil! Eu já a não amo! Fui sincero nesse momento. Aquele sarcasmo com que Emília respondera à minha suplica, o egoísmo frio que ela revelara, tinham traspassado minha alma, e escoado o amor até a última gota... Eu acabava de ver, a nu, o aleijão repulsivo daquele coração de moça. —Acredite; repeti com desprezo. Acabou, e já nem me lembro que amei! Está agora tão longe de mim esse passado!...
Ela mostrou uma ligeira perturbação; mas imediatamente sua altivez a serenou. Então, Paulo, passou-se o que só pode compreender quem viu essa mulher sublime. Fez-se nela como um jubileu de graça e luz. Aquela radiante formosura expandiu-se vertendo de si nova e mais esplêndida formosura, Imagina uma apoteose da beleza.
Emília assim transfigurada teve um sublime gesto de dúvida.
—É impossível!...
D. Leocádia entrava. Despedi-me e parti.
São duas horas da noite. Tive a coragem de não aparecer no teatro. Lembrando-me que Emília lá estava e desenhando em meu espírito a imagem de sua fulgurante beleza, achei-me calmo; perscrutei meu coração, e encontrei-o forte.
Realmente já não amo essa mulher, ou se a amo ainda, seme1hante afeição está sepultada debaixo de outras paixões que acabarão por aniquilá-la completamente.
O que eu sinto agora é só um desejo frio de vingar-me e pagar a Emília desprezo por desprezo.
Eis a história do meu primeiro e talvez único amor, Paulo; precisava derramar no teu seio as lágrimas que ainda neste momento afogam meu coração.
PENSAVA ter concluído esta carta, mas não, Paulo! Tornei a vê-la! É passado um mês.
Durante ele evitei encontrar-me com Emília. Minha alma precisava desse momento de repouso entre o amor extinto e o ódio nascente.
Foi há três dias que a vi pela primeira vez depois do nosso rompimento.
Jantava eu em casa de D. Matilde. Estava encostado ao piano ouvindo Julinha tocar; a mãe chamou-a. Nessa ocasião Emília aproximou-se de mim e disse-me com o seu habitual sarcasmo:
—Já não me ama... Por que foge de mim? Tem medo? Estávamos sós na sala.
Travei-lhe do braço e apertei-o com ímpeto brutal.
—A senhora acredita que a consciência de uma grande infâmia pode matar um homem de brio?... Pois se fosse possível que eu viesse a amá-la ainda, sinto que teria tão grande asco de mim e uma vergonha tal que me fulminaria como o raio! Soltei-lhe o braço. Ela deixou-se cair sobre uma cadeira, e, sustendo com a outra mão o pulso magoado, esteve a olhar a nódoa roxa que deixara a pressão de meus dedos. Adejava em seus lábios um sorriso de mártir.
Eu me afastara indignado de minha própria brutalidade. Não te posso explicar o que foi isso. O sarcasmo de Emília irritou-me de uma maneira que ainda agora não compreendo. Seria porque eu ainda a amo, malgrado meu, e sua palavra me denunciara minha própria vileza? No jantar incomodava-me muito aquela nódoa roxa. Emília estava sentada quase defronte de mim, e a cada momento seu braço volteava em torno dela, talvez que de propósito, e para mostrar a contusão.
—Mila! disse-lhe D. Matilde de longe. O que tens no braço esquerdo? —É verdade! acudiu Julinha. Está roxo. Que foi isso? —É o sinal da minha cadeia! respondeu Emília sorrindo.
—Que cadeia, Mila? perguntou D, Leocádia.
—Pois não tenho uma pulseira com a forma de um grilhão?...
—Tens, sim.
—Hoje brincando, ela cerrou-me tanto, que pensei me quebrava o pulso!...
—Não deves mais usar dela.
—Por quê? Ela é inocente, a culpa foi minha. Não foi? disse espreguiçando sobre mim o lânguido olhar.
(continua...)
ALENCAR, José de. Diva. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1839 . Acesso em: 15 jan. 2026.