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#Romances#Literatura Brasileira

A Pata da Gazela

Por José de Alencar (1870)

Não há para arrebatar os sentidos como essa languidez da mulher amada. Parece que ela verga com a exuberância do amor, como a planta muito viçosa, quando concentra a seiva que não brota em flor. O homem querido se regozija, pensando que suas palavras e suas carícias podem, como os orvalhos celestes, reanimar e expandir o coração da mulher amada.

Talvez em Amélia não fosse esse desmaio senão o efeito da fadiga do baile, e das cismas da noite maldormida.

Enquanto bordava, o ouvido da moça atento esperava algum rumor que lhe anunciasse a chegada do noivo. Um carro parou à porta; e momentos depois soaram na sala de visitas os passos de alguém.

Era Horácio.

Vendo a moça na saleta próxima, o leão dirigiu-se a ela, com a familiaridade a que lhe dava direito seu título de noivo. Trocados os cumprimentos usuais, sentouse junto ao bastidor.

— O que está bordando?

Amélia fez um gesto para cobrir o bordado:

— Deixe ver! insistiu o moço.

— Não vale a pena!

— Ah!

Esta exclamação desfez-se nos lábios do mancebo em um sorriso de júbilo.

— É um presente de anos para uma amiga! disse Amélia.

— Não são para a senhora?

— Não, respondeu a moça admirada.

— Está zombando comigo!

— Veja!

A unha de nácar da moça mostrou o L bordado a ouro.

— Pois há quem tenha este pezinho mimoso, a não ser minha noiva? disse Horácio rindo-se.

— Eu? exclamou Amélia enrubescendo. Pobre de mim!

— Lembra-se do que me prometeu ontem à noite?

Uma nuvem de tristeza cobriu o lindo semblante da moça; com a fronte pendida e os olhos baixos, parecia contraída por uma dor íntima.

— Amélia!

— Ontem... não tive animo de contrariá-lo. Fiz mal; desculpe-me.

— Então sua promessa? disse o moço com ironia.

Amélia voltou o rosto como para esconder uma lágrima.

— Acredite. O que me pede... não posso... não tenho forças para fazer. Se o senhor soubesse!... E entretanto deve saber, porque... Eu lhe suplico, não falemos disso agora; depois eu lhe direi. Prometo-lhe.

— Não se dê a este trabalho. Já sei quanto basta: zombou de mim.

Horácio levantou-se visivelmente despeitado, e volveu os passos pela sala.

Amélia continuou a bordar talvez para disfarçar o seu vexame.

Decorridos alguns instantes, Horácio, lançando um olhar para a moça, ocupada com seu bordado, viu alguma coisa que o sobressaltou. A fímbria do vestido, suspensa na travessa do bastidor, devia descobrir o pé da moça para quem estivesse sentado à sua esquerda.

O leão aproximou-se na esperança de surpreender o avaro tesouro que se roubava a seus olhos.

— Não sabia que bordava tão bem!

— Ora! Não tenho paciência para estes trabalhos. Se não fosse uma dívida...

— Como? Não é mais presente de anos?

— Uma e outra coisa.

— Ou talvez nem uma nem outra, disse Horácio adoçando o tom de ironia.

— Que necessidade tinha eu de enganá-lo? disse Amélia com um doce ressentimento. Uma amiga minha...

— Cujo nome não consta.

— É segredo! atalhou a moça com faceirice.

— Ah! É segredo?

— Inviolável. Ela não quer por coisa alguma que saibam, nem mesmo suspeitem...

— Que é sua amiga?

— Ora!... Que tem um pé deste tamanho, disse a moça mostrando o bordado.

— Deveras? acudiu Horácio.

— Ela pensa que é um aleijão e sente uma tristeza...

— Na verdade, possui um tesouro, um primor! Admira como sua amiga já não morreu de desgosto.

— Mas, falando sério: não é natural que uma moça tenha o pé de uma menina de sete anos.

— Não sei se é natural; mas sublime, asseguro-lhe que é. Há certas graças na mulher que devem ficar sempre meninas; as huris, as fadas, as deusas, são assim.

— Com efeito! Se eu fosse ciumenta!

— De sua amiga?... De uma amiga tão íntima?... Era quase ter ciúmes de si mesma! disse Horácio gracejando.

— O que o senhor quer, sei eu. É ver se adivinha.

Horácio tinha sustentado esta conversa com interesse extremo, menos pelas palavras da moça, do que pelos movimentos da fímbria do vestido. A saia, arregaçando gradualmente com a inflexão do talhe gentil da moça reclinada sobre o bastidor, prometia brevemente descobrir o tesouro, tão estremecido pelo mancebo.

Amélia, ocupada com seu trabalho e distraída com a conversa, se esquecera daquele constante cuidado que ela tinha em compor a orla do vestido. Durante a conversa apenas uma vez tirara os olhos do bordado, para lançar uma vista furtiva ao leão.

— Mas então essa amiga misteriosa... A senhora ia contar uma história, se não me engano.

— História, não senhor. Queria explicar-lhe por que este bordado é o pagamento de uma dívida.

— Justamente.

(continua...)

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