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#Romances#Literatura Brasileira

A Moreninha

Por Joaquim Manuel de Macedo (1844)

— Não lhe fico atrás, juro-lhe eu! exclamou d. Quinquina. Nem eu! Nem eu! disseram as outras duas.

— Isso é bom de se dizer, tornou a primeira; mas, felizmente, podemos tirar as dúvidas.

— Como?

— Facilmente: vamos medir as nossas pernas.

Ouvindo tal proposição, o nosso estudante, apesar de se ver em apuros embaixo da cama, arregalou os olhos de maneira que lhe pareciam querer saltar das órbitas; porém, d. Gabriela, que não parecia estar consigo e que só por honra da firma dissera o seu ‘‘nem eu", veio deixá-lo com água na boca.

Havia de ser engraçado, disse ela, arregaçarmos agora os nossos vestidos!

— Que tinha isso?... acudiu d. Quinquina; não somos todas moças?... Dir-seia que não temos dormido juntas.

— E verdade, acrescentou d. Clementina e, além do que, não se veria demais senão quatro ou cinco saias por baixo do segundo vestido.

— E talvez algum saiote... vamos a isto!

— Não... não... disse, por sua vez, d. Joaninha.

— Pois por mim não era a dúvida, tornou d. Clementina, com ar de triunfo, recostando-se mole e voluptuosamente nas almofadas, e deixando escorregar de propósito uma das pernas para fora do leito, até tocar com o pé no chão, de modo que ficou à mostra até o joelho.

— Quem me dera já casar! ... suspirou ela.

Pobre Augusto! ... Não te chamarei eu feliz?... Ele vê a um palmo dos olhos a perna mais bem torneada que é possível imaginar!…Através da finíssima meia aparecia uma mistura de cor de leite com a cor-de-rosa e, rematando este interessante painel róseo, um pezinho que só se poderia medir a polegadas, apertado em um sapatinho de cetim, e que estava mesmo pedindo um... dez... cem... mil beijos; mas quem o pensaria? Não foram beijos o que desejou o estudante outorgado àquele precioso objeto: veio-lhe ao pensamento o prazer que sentiria dando-lhe uma dentada... Quase que já não se podia suster... já estava de boca aberta e para saltar... Porém, lembrando-se da exótica figura em que se via, meteu a roupa que tinha enrolada entre os dentes e, apertando-os com força procurava iludir a sua imaginação.

— Quem me dera já casar!... repetiu d. Clementina.

— Isto é fácil, disse d. Gabriela; principalmente se devemos dar crédito aos que tanto nos perseguem com finezas. Olhem, eu vejo-me doida!... Mais de vinte me atormentam! Querem saber o que me sucedeu ultimamente?... Eu confesso que me correspondo com cinco… isto é só para ver qual dos cinco quer casar primeiro; pois bem, ontem, uma preta que vende empadas e que se encarrega das minhas cartas recebeu das minhas mãos duas...

— Logo duas?...

— Ora, pois, apesar de todas as minhas explicações, a maldita estava de mona: mesmo dizendo-lhe eu dez vezes: a de lacre azul é a do sr. Joãozinho e a de verde é do sr. Juca, sabem o que fez?…trocou as cartas!

— E o resultado?...

— Ei-lo aqui, respondeu d. Gabriela, tirando um papel do seio; ao vir embarcar, e quando descia, a tal preta, com a destreza precisa, entregou-me este escrito do sr. Joãozinho: "Ingrata! ainda tremem minhas mãos, pegando no corpo de delito da tua perfídia! Escreves a outro!? Compareces por tão horrível crime perante o júri do meu coração; e, bem que tenhas nesse tribunal a tua beleza por advogado, o meu ciúme e justo ressentimento, que são os juizes, te condenam às perpétuas galés do desprezo; e só te poderás livrar se apelares dessa sentença para o poder moderador de minha cega paixão."

— Bravo, d. Gabriela! O sr. Joãozinho é sem dúvida estudante de jurisprudência?

— Não, é doutor.

Bem mostra pelo bem que escreve.

— Mas eu sou bem tola! Conto tudo o que me sucede e ninguém me confia nada!

— Isso é razoável, disse d. Clementina; nós devemos pagar com gratidão a confiança de d. Gabriela. Eu começo declarando que estou comprometida com o sr.

Filipe a deixar esta noite, embaixo da quarta roseira da rua do jardim, que vai direta ao caramanchão, um embrulhozinho com uma madeixa de meus cabelos. Que asneira!... Por que lho não entrega ou não lho manda entregar?

— Ora... eu tenho muita vergonha…antes quero assim; até parece mais romântico.



(continua...)

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