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#Romances#Literatura Portuguesa

A Relíquia

Por Eça de Queirós (1887)

E logo me propôs que no domingo partíssemos para as margens do Jordão, onde o reclamavam os seus estudos sobre os Herodes. Aí eu poderia ter deleites campestres, banhando-me nas águas santas, atirando às perdizes, entre as palmeiras de Jericó. Acedi com gosto. E descemos a comer, chamados por uma sineta de convento, funerária e badalando na sombra do corredor.

O refeitório era também abobadado, com uma esteira de esparto sobre o chão de ladrilho; e estávamos sós, o erudito investigador dos Herodes e eu, na mesa tristonha, adornada com flores de papel em vasinhos rachados. Remexendo o macarrão de uma sopa dessaborida, murmurei, sucumbido: "Jesus, Topsius, que grande maçada!" Mas uma porta de vidraça ao fundo abriu-se de leve; e logo exclamei, arrebatado: "Caramba, Topsius, que grande mulher!"

Grande, em verdade! Sólida e saudável como eu; branca, da alvura do linho muito lavado, e picada de sardas; coroada por uma massa ardente de cabelo ondeado e castanho; presa num vestido de sarja azul que os seios rijos quase faziam estalar, ela entrou, derramando um fresco cheiro de sabão Windsor e de água-de-colônia, e logo alumiou todo o refeitório com o esplendor da sua carne e da sua mocidade... O fecundo Topsius comparou-a à fortíssima deusa Cibele.

Cibele sentou-se no topo da mesa, serena e soberba. Ao lado, fazendo ranger a cadeira com o peso dos seus amplos membros, acomodou-se um Hércules tranqüilo, calvo, de espessas barbas grisalhas - que, no mero gesto de desdobrar o guardanapo, revelou a onipotência do dinheiro e o envelhecido hábito de mandar. Por um yes que ela murmurou, compreendi que era da terra de Maricocas. E lembrava-me a inglesa do senhor barão.

Ela colocara junto ao prato um livro aberto que me pareceu ser de versos; o barbaças, mastigando com o vagar majestoso de um leão, folheava também em silêncio o seu Guia do Oriente. E eu esquecia o meu carneiro guisado, para contemplar devoradamente cada uma das suas perfeições. De vez em quando ela erguia a franja cerrada das suas pestanas; eu esperava com ânsia o dom desse claro e suave olhar; mas ela derramava-o pelos muros caiados, pelas flores de papel, e deixava-o recair, desinteressado e frio, sobre as páginas do seu poema.

Depois do café beijou a mão cabeluda do barbaças; e desapareceu pela porta envidraçada, levando consigo o aroma, a luz, e a alegria de Jerusalém. O Hércules acendeu morosamente o cachimbo; disse ao moço "que lhe mandasse o Ibraim, o guia"; levantou-se, pesado e membrudo. Junto à porta derrubou o guarda-chuva de Topsius, do venerabilíssimo Topsius, glória da Alemanha, membro do Instituto Imperial de Escavações Históricas; e passou, sem o erguer, nem sequer baixar o olho altivo.

- Irra, bruto! - rosnei, a borbulhar de furor.

O meu douto amigo, com a sua cobardia social de alemão disciplinado, apanhou o seu guardachuva e escovou-lhe o paninho, murmurando, já trêmulo, que talvez "o barbaças fosse um duque..."

- Qual duque! Para mim não há duques! Eu sou Raposo, dos Raposos do Alentejo... Rachava-o!

Mas a tarde descia - e devíamos fazer a nossa visita reverente ao sepulcro do nosso Deus. Corri ao quarto, a ornar-me com o meu chapéu alto, como prometera à Titi; e penetrava no corredor quando vi Cibele abrir a porta, junto da nossa porta, e sair envolta numa capa cinzenta, com uma gorra onde alvejavam duas penas de gaivota. O coração bateu-me no delírio de uma grande esperança. Assim, era ela que cantarolava a Balada do rei de Tule! Assim, os nossos leitos estavam apenas separados pelo fino, frágil tabique coberto de ramarias azuis! Nem procurei as luvas pretas; desci num alvoroço, certo de que a ia encontrar no sepulcro de Jesus; e planeava já verrumar no tabique um buraco, por onde o meu olho namorado pudesse ir saciar-se nas belezas do seu desalinho.

Ainda chovia, lugubremente. Apenas começamos a atolar-nos no enxurro da Via-Dolorosa, entalada entre muros cor de lodo - chamei Pote para debaixo do meu guarda-chuva, perguntei-lhe se vira no hotel a minha forte e sardenta Cibele. O jucundo Pote já a admirara. E pelo Ibraim, seu compadre dileto, sabia que o barbaças era um escocês, negociante de curtumes...

- Aí está, Topsius! - gritei eu. - Negociante de curtumes... Qual duque! E uma besta! Eu rachava-o! Em cousas de dignidade sou uma fera. Rachava-o!

A filha, a das bastas tranças, dizia Pote, tinha um nome radiante de pedra preciosa: chamava-se Ruby, rubim. Amava os cavalos, era arrojada; na alta Galiléia, de onde vinham, matara uma águia negra...

- Ora aqui têm os cavalheiros a casa de Pilatos...

- Deixa lá a casa de Pilatos, homem! Importa-me bem com Pilatos! E então que diz mais o Ibraim? Desembucha, Pote!

(continua...)

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