Por Eça de Queirós (1925)
Razões facilmente compreensíveis determinaram o Dr. Cardoso Torres a persistir na dissolução – tanto mais quanto no primeiro Conselho de Ministros, o Dr. Cardoso e os seus colegas, conferindo a lista de parentes, amigos e notabilidades que desejavam fazer entrar na Câmara, reconheceram que necessitavam de vinte e três círculos, e que havia apenas, presentemente, quatro vagaturas. E como, além disso, esses vinte e três indivíduos eram geralmente homens de ilustração, de respeitabilidade, de boas letras e de fortuna, a dissolução era justa.
S. M. concedeu-a – o que produziu aquele artigo célebre do Estandarte, jornal do Governo dos Bexigosos, que ameaçava S. M. com a sorte de Luís XVI ou de Carlos I – exactamente oito dias depois do artigo em que o mesmo jornal comparava S. M., pelas virtudes, a Tito, pela justiça, a S. Luís, e pelo respeito da Constituição, à Rainha Vitória!
A resposta do Globo, jornal do Dr. Cardoso Torres, foi enérgica: dizia que só se podia responder com um chicote a um jornalista que ameaçava com o cadafalso S. M., que, pelas virtudes, estava muito acima de S. Luís, e, pelo respeito da Constituição, era incomparavelmente superior a Sua Graciosa Majestade a Rainha Vitória – eloquente artigo, e que apareceu exactamente quinze dias depois de outro, violento, em que, então na oposição, o redactor do Globo, inspirado pelo Dr. Cardoso, dava claramente a entender que o fim provável de S. M. seria a guilhotina de Luís XVI, ou pelo menos o cadafalso de Carlos I!
Pondo em relevo estes factos, eu não quero por forma alguma insinuar que haja na imprensa política falta de sinceridade, de lógica ou de dignidade. Quero apenas fazer sentir a perniciosa influência da ambição e da paixão em espíritos cultos. Creio, porém, que S. M., ao ver-se alternadamente destinado, pelo mesmo jornal, ao cadafalso de Luís XVI ou à canonização de S. Luís, decerto não experimentaria nem terror, nem vaidade, pois que nenhuma destas ameaças representavam o desejo íntimo do jornalista, mas eram apenas a explosão de uma cólera biliosa ou de um reconhecimento enternecido, e, muitas vezes mesmo, uma manobra útil na táctica da vida pública.
Um dos círculos menos disputados era, nessa ocasião, o de Freixo de Espada à Cinta. Propunha-se como deputado da oposição um obscuro Gervásio Maldonado, proprietário local, com uma parentela larga na terra, interesses de lavoura, etc., e o governo Cardoso Torres combatia-o, apresentando na lista governamental, como candidato por Freixo de Espada à Cinta, o moço bacharel Artur Gavião, filho do presidente do Banco Nacional, que o pai, cansado da sua dissipação, queria forçar, pelos deveres que lhe imporia S. Bento – isto é o Parlamento – a uma vida disciplinada, sóbria e útil.
Conta-se que o Sr. Alexandre Herculano, a este respeito, dissera, com aquele espírito misantropo que a sua voz ríspida acentuava de um relevo amargo:
– Se o Gavião queria morigerar o rapaz, devia-o conservar no bordel, e não o mandar para o Parlamento!
Mas o que eu penso do Sr. Alexandre Herculano, dos seus ditos, da sua.47 misantropia, da sua moral e das suas letras, escrevê-lo-ei um dia, desassombradamente.
O Sr. Artur Gavião (que tão desgraçadamente morreu depois afogado ao pé de Caxias), era pois o candidato governamental por Freixo de Espada à Cinta, quando Joaquim Osório Teixeira, ministro da Justiça, declarou, com decisão, que era sim-plesmente uma afronta ao Bom-Senso, à Câmara e à Dignidade do Governo, nomear por Freixo de Espada à Cinta um indivíduo que, às quatro horas da tarde, descia o Chiado, numa tipóia, com meretrizes andaluzas, inteiramente embriagado.
Gavião pai, mais tarde, afirmava que esta oposição do ministro da Justiça não era inspirada por puros motivos de moralidade pública, mas constituía a vingança pessoal de uma antiga humilhação, caso complicado de letras a três meses, etc., etc... como ele acrescentava com uma reticência maligna.
O Presidente do Conselho, porém, amigo do Gavião, e desejando conservar ao Governo aquele sólido apoio do Capital e da Propriedade, insistia na candidatura do libertino Artur.
Um dia, contudo, Joaquim Osório Teixeira declarou que faria dessa candidatura uma questão pessoal, que ele não podia autorizar o patrocinato legal do deboche, e que, se o Colega Cardoso insistisse, ele, Joaquim Teixeira, trotaria para Sintra a pôr a sua demissão nas mãos de S. M.
Cardoso, receando o conflito, riscou sem mais observações da lista governamental o nome do jovial libertino.
À noite, porém, em casa, ao chá, exprimiu com azedume o seu embaraço: não só descontentava o Gavião pai – um colosso – mas aí ficava o círculo de Freixo de Espada à Cinta vazio, viúvo...
– Homem – acudiu imediatamente o Dr. Vaz Correia, velho amigo da casa – parece-me que tenho exactamente o que lhe convém: o Alípio Abranhos!
Cardoso Torres não o conhecia pessoalmente. Vaz Correia, porém demonstrou-lhe com abundância eloquente as vantagens da escolha: como família, Alípio era um Noronha; como ilustração, um premiado; como posição de fortuna, era genro do Amado; como experiência política, fora redactor da Bandeira, formado na prudente escola do taciturno e profundo Conselheiro Gama Torres; como maneiras – um fidalgo; como lealdade – um Baiardo!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Conde d'Abranhos. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14020 . Acesso em: 29 jun. 2026.