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#Romances#Literatura Portuguesa

O Primo Basílio

Por Eça de Queirós (1878)

- Eu também não me tenho achado bem. Não tenho recebido ninguém - a o ser meu primo,naturalmente!

Julião sentiu-se renegado! E todo vermelho, de surpresa, de indignação, - a balançar a perna, calado, com o livro sobre o joelho; como a calça era curta, via-se quase o elástico esfiado das botas velhas.

Houve um silêncio difícil.

- Bonitas rosas! - disse enfim Basílio, preguiçosamente.

- Muito bonitas! - respondeu Luísa.

Estava agora compadecida de Julião; procurava uma palavra; disse-lhe enfim muito precipitadamente:

- E que calor! É de morrer! Tem havido muitas doenças?

- Colerinas - respondeu Julião. - Por causa das frutas. Doenças de ventre.

Luísa baixou os olhos. Basílio então começou a falar da Viscondessinha de Azeias; tinha-a achado acabada; e que era feito da irmã, da grande?

Aquela conversação sobre fidalgas que ele não conhecia isolava mais Julião; sentia o suor umedecer-lhe o pescoço; procurava um dito, uma ironia, uma agudeza; e maquinalmente abria e fechava o seu grosso livro de capa amarela.

- É algum romance? - perguntou-lhe Luísa.

- Não. É o tratado do Dr. Lee sobre doenças do útero.

Luísa fez-se escarlate; Julião também, furioso da palavra que lhe escapara. E Basílio, depois de sorrir, perguntou por uma certa D. Rafaela Grijó, que costumava ir à Rua da Madalena, que usava luneta, e tinha um cunhado gago...

- Morreu-lhe o marido. Casou com o cunhado.

- Com o gago?

- Sim. Tem um filhito dele, gago também.

- Que conversação, em família! E a D. Eugênia, a de Braga?

Juilão, exasperado, ergueu-se; e com uma voz de garganta seca:

- Estou com pressa, não me posso demorar. Quando escrever a Jorge, os meus recados, hem?

Abaixou bruscamente a cabeça a Basílio. Mas não achava o chapéu; tinha rolado para debaixo de uma cadeira. Embrulhou-se no reposteiro, topou violentamente contra a porta fechada, e saiu enfim desesperado, desejando vingar-se, odiando Luísa, Jorge, o luxo, a vida - trasbordando agora de ironias, de ditos, de réplicas. Devia-os ter achatado, o asno e a tola... E não lhe acudira nada!

Mas apenas ele tinha fechado a cancela, Basílio pôs-se de pé, e cruzando os braços:

- Quem é esse pulha?

Luísa corou muito; balbuciou:

- É um rapaz médico...

- É uma criatura impossível, é uma espécie de estudante.

- Coitado, não tem muitos meios...

Mas não era necessário ter meios para escovar o casaco e limpar a caspa! Não devia receber semelhante homem! Envergonha uma casa. Se seu marido gostava dele, que o recebesse no escritório!...

Passeava pela sala, excitado, com as mãos nos bolsos, fazendo tilintar o dinheiro e as chaves.

- São frescos os amigos da casa!... - continuou. - Que diabo! Tu não foste educada assim.Nunca tiveste gente deste gênero na Rua da Madalena.

Não tivera; e pareceu-lhe que as ligações do casamento lhe tinham trazido um pouco o plebeísmo das convivências. Mas um respeito pelas opiniões, pelas de Jorge fez-lhe dizer:

- Diz que tem muito talento...

- Era melhor que tivesse botas.

Luísa, por cobardia, concordou.

- Também o acho esquisito! - disse.

- Horrível, minha filha!

Aquela palavra fez-lhe bater o coração. Era assim que ele lhe chamava, houve um momento de silêncio; e a campainha da porta retiniu fortemente.

Luísa ficou assustada. Jesus! Se fosse Sebastião! Basílio achá-lo-ia ainda mais reles. Mas Juliana veio dizer:

- O Sr Conselheiro. Mando entrar?

- Decerto - exclamou.

E a alta figura de Acácio adiantou-se, com as bandas do casaco de alpaca deitadas para trás, a calça branca muito engomada caindo sobre os sapatos de entrada baixa, de laço.

Apenas Luísa lhe apresentou o primo Basílio, disse logo, respeitoso:

- Já sabia que Vossa Excelência tinha chegado; vi-o nas interessantes notícias do nosso high life. E do nosso Jorge?

Jorge estava em Beja... Diz que se aborrece muito...

Basílio, mais amável, deixou cair:

- Eu realmente não tenho a menor idéia do que se possa fazer em Beja. Deve ser horroroso!

O Conselheiro, passando sobre o bigode a sua mão branca onde destacava o anel de armas, observou:

- É todavia a capital do distrito!

Mas se já em Lisboa se não podia fazer nada, e era a capital do reino! - E Basílio repuxava, todo recostado, o punho da camisa. - Morria-se positivamente de pasmaceira.

Luísa, muito contente da afabilidade de Basílio, pôs-se a rir:

- Não digas isso diante do Conselheiro. É um grande admirador de Lisboa.

Acácio curvou-se:

- Nasci em Lisboa, e aprecio Lisboa, minha rica senhora.

E com muita bonomia:

- Conheço porém que não é para comparar aos Parises, às Londres, às Madris...

- Decerto - fez Luísa.

O Conselheiro continuou com pompa:

(continua...)

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