Por Eça de Queirós (1870)
No entanto, Captain Rytmel, sentado junto de Cármen, fala va da Índia, de velhosamigos de Calcutá, de recordações de via gens. A condessa não comia, parecia nervosa. — Vou para cima — disse ela de repente -; mandem-me chá. Quando a viu subir, Rytmel ergueu-se, perguntando ao conde:- Está incomodada a condessa?
— Levemente. Precisa de ar. Vá-lhe fazer um pouco de compa nhia, fale-lhe da Índia.Eu, não posso deixar este caril...Eu tinha interesse em ficar à mesa defronte da luminosa Cár men; concentrei-me sobre o meu prato. O capitão tinha tomado lo go o seu excêntrico chapéu índio, orlado de véusbrancos.
Ao vê-lo seguir a condessa, a espanhola empalideceu. Momen tos depois ergueu-setambém, tomou uma larga capa de seda à ma neira árabe de um bournous, enrolou-a em rodado corpo, e subiu para a tolda, apoiada numa alta bengala 4e castão de marfim.
O almoço tinha acabado. Falava-se da Índia, do teatro de Mal ta, de Lord Derby, dosFenians; eu enfastiava-me, fui apertar a mão ao comandante, e fumar para cima um bom charuto, sentindo a brisa fresca do mar.A condessa estava sentada num banco à popa; ao pé dela o ca pitão Rytmel, num pliantde vime.
Cármen passeava rapidamente ao comprido da tolda; às vezes, firmando-se nascordagens, subia o degrau que contorna interiormente a amurada, e ficava olhando para o mar, enquanto a sua mantilha e a sua capa se enchiam de vento, e lhe davam uma apa rênciaondeada e balançada, que a assemelhavam Aquelas divin dades que os escultores antigos enroscavam no flanco dos galeões!
IV
D. Nicazio Puebla, que o Purser me apresentara já, viera fumar para o pé de mim.- Esteve na Índia, Cabellero? — perguntei-lhe eu.- Dois anos, em Calcutá. Foi lá que conheci o capitão Rytmel. Convivíamos muito.
Jantávamos sempre juntos. Fui à caça do tigre com ele. Cacei o tigre. Deve ir a Calcutá! Quepalácios! Que fábricas!
— O capitão é um valente oficial.- É alegre. O que nós riamos! E bravo, então! Se lhe parece! Salvou-me a vida. — Nalguma caçada? — Eu lhe conto.Tínhamo-nos aproximado da popa, falando. Neste momento vi eu a espanhola encaminhar-se para o lugar em que a condessa falava com Rytmel, e com uma resoluçãoatrevida, a voz altiva, dizer-lhe:
— Capitão, tem a bondade, dá-me uma palavra? A condessa fez-se muito pálida. O capitão teve um movimen to colérico, mas ergueu-see seguiu a espanhola.
Eu aproximei-me da condessa.- Quem é esta mulher? Que quer?... — disse-me ela toda tré mula. Eu sosseguei-a e dirigi-me a D. Nicazio. — Viu aquele movimento de sua mulher?- Vi.
— É inconveniente: o cavalheiro responde decerto pelas fanta sias ou pelos hábitos daquela senhora...- Eu! — gritou o espanhol. — Eu não respondo por coisa al guma. O senhor que quer? É um monstro essa mulher! Livre-me dela, se pode! Olhe: quere-a o senhor? Guarde-a. Estásempre a fazer destas cenas! E não lhe posso fazer uma observação! É uma fúria, usa punhal!
— Esta mulher — fui eu dizer à condessa — é uma criatura sem consideração e pareceque sem dignidade. Não a olhe, não a escute, não a perceba, não a pressinta. Se houver outra inconveniência eu dirige-me ao comandante, como se ela fosse um grumete inso lente. Épena... é terrivelmente linda!
A espanhola, no entanto, junto da amurada, falava violentamente ao capitão Rytmel, que a escutava frio, impassível, com os olhos no chão.O conde subiu neste momento. Outras senhoras vieram, os grupos formavam-se, começavam as leituras, as obras de costura, o jogo do boi...Eu aproximei-me de D. Nicazio e disse-lhe sem lhe dar mais importância:
— Então esta sua senhora dá-lhe desgostos? — É sempre aquilo como capitão. Foi desde a tal caçada ao ti gre... Quer que lheconte?...
— Diga lá.Sentei-me na tenda onde se fuma, acendi um charuto, cruzei as pernas, recostei a cabeça e, embalado pelo lento mover do navio, cerrei os olhos.
— Um dia em Calcutá — começou o espanhol -, dia de grande calor...Mas não, senhor redactor. Eu quero que esta história a saiba do próprio capitão. Aí tem a tradução fiel de uma das mais vivas páginas de um dos seus álbuns de impressões deviagem.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de; ORTIGÃO, Ramalho. O Mistério da Estrada de Sintra. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14021 . Acesso em: 30 jun. 2026.