Por Eça de Queirós (1901)
E apenas descerrava os lábios avivados de vermelho, semelhantes a uma ferida fresca, e começava a chalrar – logo nos envolvia o borborinho e a murmuração de Paris. Ela só sabia chalrar sobre a sua pessoa que era o resumo da sua Classe, e sobre a sua existência que era o resumo do seu Paris: - e a sua existência, desde casada, consistira em ornar com suprema ciência o seu lindo corpo; entrar com perfeição numa sala e irradiar; remexer os estofos e conferenciar pensativamente com o grande costureiro; rolar pelo Bois pousada na sua vitória como uma imagem de cera; decotar e branquear o colo; debicar uma perna de galinhola em mesas de luxo; fender turbas ricas em bailes espessos; adormecer com a vaidade esfalfada; percorrer de manhã, tomando chocolate, os “Ecos” e as “Festas” do Fígaro; e de vez em quando murmurar para o marido – “Ah, és tu?...” Além disso, ao lusco-fusco, num sofá, alguns curtos suspiros, entre os braços de alguém a quem era constante. Ao meu Príncipe, nesse ano, pertencia o sofá. E todos estes deveres de Cidade e de Casta os cumpria sorrindo. Tanto sorria, desde casada, que já duas pregas lhe vincavam os cantos dos beiços, indelevelmente. Mas nem na alma, nem na pele, mostrava outras máculas de fadiga. A sua Agenda de Visitas continha mil e trezentos nomes, todos no Nobiliário. Através, porém, desta fulgurante sociabilidade arranjara no cérebro (onde decerto penetrara o pó de arroz que desde o colégio acamava na testa) algumas Idéias Gerais. Em Política era pelos Príncipes; e todos os outros “horrores”, a República, o Socialismo, a Democracia que se não lava, os sacudia risonhamente, com um bater de leque. Na Semana Santa juntava às rendas do chapéu a Coroa amarga dos espinhos – pôr serem esses, para gente bem-nascida, dias de penitência e de dor. E, diante de todo o Livro ou de todo o Quadro, sentia a emoção e formulava finamente o juízo, que no seu Mundo, e nessa Semana, fosse elegante formular e sentir. Tinha trinta anos. Nunca se embaraçara nos tormentos duma paixão. Marcava, com rígida regularidade, todas as suas despesas num Livro de Contas encadernado em pelúcia verde-mar. A sua religião íntima (e mais genuína do que a outra, que a levava todos os domingos à missa de S. Felipe du Roule) era a Ordem. No Inverno, logo que na amável cidade começavam a morrer de frio, debaixo das pontes, criancinhas sem abrigo – ela preparava com comovido cuidado os seus vestidos de patinagem. E preparava também os de Caridade – porque era boa, e concorria para Bazares, Concertos e Tômbolas, quando fossem patrocinados pelas Duquesas do seu “rancho”. Depois, na Primavera, muito metodicamente, regateando, vendia a uma adela os vestidos e as capas de Inverno. Paris admirava nela uma suprema flor de Parisianismo.
Pois respirando esta macia e fina flor passamos nós as tardes desse Julho enquanto as outras flores pendiam e murchavam na calma e no pó. Mas, na intimidade do seu perfume, Jacinto não parecia encontrar esse contentamento de alma, que entre tudo que cansa jamais cansa. Era já com a paciente lentidão com que se sobem todos os Calvários, os mais bem tapetados, que ele subia a escadaria de Madame de Oriol, tão suave e orlada de tão frescas palmeiras. Quando a apetitosa criatura, com dedicação, para o entreter, desdobrava a sua vivacidade como um pavão desdobra a cauda, o meu pobre Príncipe puxava os pêlos do bigode murcho, na murcha postura de quem, pôr uma manhã de Maio, enquanto os melros cantam nas sebes, assiste, numa igreja negra, a um responso fúnebre pôr um Príncipe. E no beijo que ele chuchurreava sobre a mão da sua doce amiga, para despedir, havia sempre alacridade e alívio.
Mas ao outro dia, ao começar da tarde, depois de errar através da Biblioteca e do Gabinete, puxando sem curiosidade a tira do telégrafo, atirando algum recado mole pelo telefone, espalhando o olhar desalentado sobre o saber imenso dos trinta mil livros, remexendo a colina dos Jornais e Revistas, terminava pôr me chamar, já com a preguiça triste da façanha a que se impelia:
-Vamos a casa de Madame de Oriol, Zé Fernandes? Eu tinha marcadas para hoje seis ou sete coisas, mas não posso, é uma seca! Vamos a casa de Madame de Oriol... Ao menos lá, às vezes, há um bocado de frescura e paz.
E foi uma dessas tardes, em que o meu Príncipe assim procurava desesperadamente um “bocado de frescura e paz”, que encontramos, ao meio da escadaria suave, entre as palmeiras, o marido de Madame de Oriol. Eu já o conhecia – porque Jacinto mo mostrara uma noite, no Grand Café, ceando com dançarinas do Moulin Rouge. Era um moço gordalhufo, indolente, de uma brancura crua de toucinho, com uma calvície já séria e já lustrosa, constantemente acariciada pelos seus gordos dedos carregados de anéis. Nessa tarde, porém, vinha vermelho, todo emocionado, calçando as luvas com cólera. Estacou diante de Jacinto – e sem mesmo lhe apertar a mão, atirando um gesto para o patamar:
-Visita lá acima? Vai achar a Joana em péssima disposição... Tivemos uma cena, e tremenda.
Deu outro puxão desesperado à luva cor de palha, já esgaçada:
-Estamos separados, cada um vive como lhe apetece, é excelente! Mas em tudo há medida e forma... Ela tem o meu nome, não posso consentir que em Paris, com conhecimento de todo o Paris, seja a amante do trintanário. Amantes da nossa roda, vá! Um lacaio, não!... Se quer dormir com os criados que emigre para o fundo da província, para a sua casa de Corbelle. E lá até com os animais!... Foi o que lhe disse! Ficou como uma fera.
Sacudiu então a mão de Jacinto que “era da sua roda” – rebolou pela escadaria florida e nobre. O meu Príncipe, imóvel nos degraus, de face pendida, cofiava lentamente os fios pendidos do bigode. Depois, olhando para mim, como um ser saturado de tédio e em quem nenhum tédio novo pode caber:
-Já agora subamos, sim?
Parti então, com muita alegria, para a minha apetecida romagem às Cidades da Europa.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1790 . Acesso em: 28 jun. 2026.