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#Contos#Literatura Brasileira

As joias da Coroa

Por Raul Pompéia (1882)

“De súbito, percebeu que suspendiam por fora a vidraça de uma janela do quarto, que dava para o telheiro de uma estrebaria. Por não sei que circunstâncias as abas da janela estavam abertas... A noite estava escura como breu, o quarto tinha a luz indecisa de uma lamparina... A moça viu além da vidraça vultos movendose... O medo fê-la enrelegar-se no leito... De um momento para outro... a desgraçada viu dois homens embuçados em grandes capas negras, chapéus enormes na cabeça; silenciosos como cadáveres, próximos da cama... ameaçadores... Teve medo; atirou-se para fora do leito... Os dois homens, rápidos como demônios, prenderam-na... Dedos rijos como tenazes seguraram-lhe a garganta... Os gritos de socorro ficaram estrangulados... Então, um dos homens, uma espécie de gigante muito barbado, apoderou-se dela e disse ao companheiro:

“— Deixe-a comigo...”

“A infeliz reagiu, bracejou, arcou com o gigante, cravou-lhe os dentes, deu-lhe com as mãos no rosto, segurou-lhe as barbas, tudo em vão... As dentadas não passaram da lã do capote, e o gigante agarrou a vítima pelos dois braços, vergou-a, torceu-a como se a fosse partir!... Foi um sonho horrível!... A moça, antes de poder soltar um grito, viu-se arremessada sobre o leito d’onde fugira... Foi então uma brutalidade!... A desventurada sentiu faltar-lhe a respiração, e, sufocada, mordida, contusa, esmagada, macerada com se a houvessem arrastado por cima de um chão pedregoso, desfaleceu num estado miserável... miserável, sra. duquesa!...”

Neste ponto da narrativa, Emília inclinou a cabeça para o peito. Uns soluços convulsivos, sem lágrimas, subiram-lhe do peito com uma violência atroz e ferveramlhe na garganta, imprimindo fortes estremecimentos a todo o corpo como vascas de dor.

A duquesa, sem poder articular uma palavra, cobriu os olhos com um lenço... Passaram-se alguns momentos.

— Ai meu Deus! — disse Emília com a voz cansada. — Tenho medo de não poder chegar... ao fim... Estou me sentindo muito mal... Faltam-me as forças... é esquisito... parece que estou muito pior...

— Tranqüilize-se, minha filha — disse comovida a duquesa. — Tranqüilizese... não se morre assim...

Um sorriso angélico, que não significava alegria, passou como um relâmpago pelos lábios de Emília...

Já havia acabado a exaltação que a fizera soluçar. Com a serenidade ligeiramente queixosa que revelara no princípio a doente recomeçou:

— Dentro de pouco tempo as coisas se encaminharam por tal forma que a vítima daquele horrendo sonho teve de fugir... fugir de casa corrida de vergonha e de infâmia... Um cartão que tinha gravado um nome poderoso e uma coroa ilustre, encontrado casualmente pela moça, era a sua única esperança. Este cartão continha uns oferecimentos que fariam corar, se o caso não fosse extremo... A pobre fugitiva recorreu àquela imunda salvação... Graças ao cartão... a filha dos proprietários do sítio de ***, a vítima daquele sonho brutal, a mísera criatura, que fugia diante da sua vergonha, fez uma longa viagem e veio ter ao palácio de Santo Cristo...

A duquesa estava como que atordoada, sofria duramente com a narração de Emília...

— ... veio ao palácio de Santo Cristo, porque a coroa do cartão era uma coroa de duque e o nome era o do senhor de Bragantina... porque era este senhor o fidalgo viajante que dera à mocinha do povo que sorrira... porque o gigante feroz do sonho fora ainda o senhor de Bragantina...

— O duque?!...

— Ah! minha boa senhora, ela merece o seu perdão, recorreu ao seu marido porque ia ser mãe. Não tinha direito de afogar um filho em qualquer pântano, suicidando-se... Veio pedir abrigo... Teve um cochilo aí no arrabalde...

“...Passados tempos, contratava-se o seu casamento com um sujeito de ínfima classe... Era a proteção generosa do sr. duque... O tal sujeito recebeu indiferentemente a carga que lhe atiravam e uma criaturinha recém-nascida que a mulher que lhe davam criava com muito afeto e cuja proveniência ordenaram-lhe que não indagasse...

Essa criaturinha, improvisada pelo sr. duque de Bragantina, essa excrescência no lar para um indivíduo que não passava de seu humilde lacaio, essa coisa estranha, essa verruga, era a linda Conceição, que a sra. duquesa conhece e a esposa que se dava ao lacaio era eu!...

— A Conceição — exclamou a duquesa — é, portanto, filha... — Da minha vergonha — murmurou Emília...

A pobre nora de Januário sentiu um desfalecimento profundo. Ao pronunciar a última palavra escorregou pelos travesseiros a que se arrimava e caiu no leito como morta...

A duquesa acudiu assustada. Verificou que fora uma conseqüência da debilidade da enferma...

— Quer ficar deitada, ou deseja que eu a sente como estava?

— Rogo-lhe que me sente — respondeu Emília, com a voz balbuciante. — Tenho ainda a dizer alguma coisa... quero morrer tranqüila... Não peço que mande chamar um padre... porque não chegaria a tempo... E é preciso aproveitar os momentos que me restam... prevenir a desgraça... prevenir a fatalidade...

(continua...)

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