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#Relatos#Literatura Brasileira

A Retirada da Laguna

Por Visconde de Taunay (1871)

Com razão mostrou-se Lopes desvanecido do êxito desta manobra. Havendo alguém indagado que rumo seguira, gostosamente pôs-se a rir: "O de minha cabeça". Se via consultar a bússola, declarava que a agulha grande só servia para se fazerem bonitos desenhos destinados a divertir passeantes. Convenceram-no, contudo, que deixara o rumo norte e assim se atrasara: "Sim, momentaneamente, respondeu, nos desviamos para os campos da Pedra de Cal, que descobri e em 1864 o meu amigo, o general Leverger, viria visitar comigo, se não arrebentasse a guerra".

Ao meio-dia estávamos em frente a um cerrado de taquaris, através do qual precisamos abrir caminho, a foice e a machadinha, o que muito tempo nos tomou, dada a dureza e elasticidade desta espécie de bambu e também a má atualidade do aço de nossa ferramenta.

As duas horas ainda estávamos às voltas com este serviço. Nosso guia, sobretudo, mal podia sopitar a impaciência. De tempos a tempos ele próprio tentava varar o matagal, deitado sobre o pescoço da montaria, procurando entrever alguma aberta para o campo. Como não conseguisse, porém, víamo-lo voltar descontente, agitado, e com as roupas rasgadas.

Afinal dali saímos às três horas; às cinco, transposta a resistente barreira, continuou toda a coluna a caminhada, já ao descambar do dia, para um cômoro situado a um bom quarto de légua, e à base do qual belo arvoredo indicava a vizinhança de uma fonte.

Já lá se achava instalada avultada partida paraguaia, disposta a acampar. Tinham os cavaleiros descavalgado, embora ainda em forma. Bastaram duas granadas de nossas peças da vanguarda para que se apressassem em nos ceder o lugar. Ali nos estabelecemos tranqüilamente. Os nossos animais encontraram pasto regular e toda a água de que careciam.

Carneamos nesta tarde os bois mais cansados das carretas. Dada a insuficiência e a má qualidade dos víveres, foi uma distribuição quase irrisória.

A 15, ao romper da alva, estávamos numa planície coberta de macega, onde um incêndio, em outro momento do dia. seria de se recear. Objetou Lopes que a erva, embebida do orvalho noturno, só poderia arder depois de exposta, por algum tempo, aos raios solares. A partir deste dia adotamos a norma de, desde muito cedo, pôr a tropa em movimento, ativando, quanto possível, a primeira marcha.

Em vasta extensão oferecia o terreno a atravessarmos uma série de montículos intervalados, com certa regularidade, por extensos pântanos de onde saem vários afluentes do Apa. A passagem destes pauis tornava-se difícil, com a chuva torrencial de 13, e ora a artilhara, ora algumas carretas, se atolavam. Estávamos a vencer um destes difíceis passos, no momento de transpor uma destas sangas estreitas, quando patrulhas inimigas, em número considerável, vieram dar-nos, não uma carga, mas realizar como que um reconhecimento bastante prolongado, a fim de nos fazer crer, talvez, que desejavam algum embate sério.

Logo, entretanto, formaram-se em colunas e retiraram-se, o que tanto mais nos surpreendeu, quanto, por trás deles, divisáramos um enxame de atiradores que, dispostos em pequenos grupos, pareciam colimar a rarefação de nossas fileiras para facilitar a tarefa da cavalaria, de que diversos destacamentos apareciam, prestes a entrar em fogo. Nestas circunstancias não podíamos atacar a infantaria e tivemos de lhe suportar o fogo. Felizmente era-lhe a pontaria má, afoita, incerta, como sempre notáramos entre os paraguaios.

Empregavam cartuchos por demais volumosos, produzindo grande recuo. Dir-se-ia que desejavam, sobretudo, fazer ruído com as armas e não obter um efeito útil. Certo é que Ihes faltava suficiente aprendizagem e exercício.

Ainda desta vez pouco mal nos fizeram. Passaram suas balas por cima de nossas cabeças e só tivemos dois homens fora de combate. Apontávamos muito melhor, e virias vezes lhes perturbamos a formatura. Vimo-los, então, usar de manobra nova: deitavam-se ao abrigo dos acidentes do terreno, ao seu alcance; e destes esconderijos nos faziam fogo. Surgiam uma ou duas cabeças nas cristas dos pequenos cômoros e, imediatamente, se escondiam, após alguns tiros disparados a esmo. Quase não respondemos a este fogo. Um pouco mais longe havia, no entanto, sobre um planalto bastante extenso, um grupo de cavaleiros, que faziam empinar os cavalos, soltando vivas ao Paraguai e ao marechal Lopez. Como se adiantasse ao alcance de nossa artilharia, atirou esta, retrocedendo o grupo lentamente. Um deles, porém, deixado de observação, imóvel sobre o cavalo, parecia afrontar-nos. Atirou-lhe o major Cantuária tão certeira granada que, caindo às patas do cavalo, cobriu-o e ao cavaleiro, de terra e depois, ricocheteando, até um bosque próximo, onde havia gente, explodiu com bastante efeito para que pudéssemos notar rebuliço. A custo conteve a sentinela a cavalgadura, mas não arredou do lugar e assim perdemos o gosto de sobre ela atirar.

Julgando o Coronel que esta demonstração só podia atrasar-nos, ordenou que o 20.° batalhão atravessasse o brejo, e depois o resto da coluna, mas desde que recomeçamos a marchar surgiram de todos os pontos da campina chamas que, conglobando-se, tomaram aterradoras proporções.

(continua...)

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