Por Franklin Távora (1878)
<Eis o extremo a que chegamos. Os mascates em armas, senhores do porto, das fortalezas e agora do governo, visto que tem o bispo guardado por 150 soldados e ás ordens deles, tudo podem contra nós, enquanto nós muito pouco ou coisa nenhuma podemos contra eles. Se o bispo tivesse espirito, ou se o seu espirito fosse tão grande como é o seu coração, certo as coisas presentes seriam para nós pequenas. Mas é fraco e entende pouco de estratégias e ciladas. Que força se pode esperar de um governador que se deixou cair, por moleza, nas mãos dos seus próprios inimigos?> - Que havia de fazer ele? inquiriu Matias Vidal. Aquele feixe de virtudes não é para semelhantes lutas. - É isto exatamente o que escreve André respondeu João da Cunha. E prosseguiu a leitura:
< Enfim o Recife está cercado de trincheiras, fortemente guarnecidas de gente e providas de munições de guerra. < Como não tenho certeza de que esta vá Ter ás suas mãos, por isso que a todo canto a nobreza se está picando nos espinhos da traição, finalizo, rogando a Deus se sirva olhar por nós e por nossas famílias ameaçadas de toda sorte de calamidades, das quais a menos crua será a morte.
< Olinda, 19 de junho de 1711. – André da Cunha.>
- Meus amigos – disse João da Cunha dobrando a carta e metendo-a em um dos escaninhos da secretaria – foi menos para tomardes parte no meu prazer do que na desgraça da pátria, que me pareceu mandar chamar-vos á minha casa. Estão consternadoras para nós – os pernambucanos – as coisas publicas. Comandada a força militar por Miguel Correa, Manoel Clemente, Euzebio de Oliveira e Antonio de Souza Marinho, mascates conhecidos como odientos por todos nós, aos filhos da terra não nos resta, a meu parecer, outro recurso que o de lançarmos mãos das armas. Devemos acudir com as nossas fabricas e moradores, ao lugar do perigo, e ai castigar a audácia dos rebeldes. Este recurso deve ser usado sem perda de tempo. Dar pancada mortal na cabeça da cobra peçonhenta.
Não obstante ser mais forte João da Cunha em preconceitos de fidalguia do que em eloquência, dote que vem do berço mas que a cultura acrescenta e apura, suas palavras ressoaram, como ecos de discurso divino, nos corações dos amigos.
Entre estes viam-se alguns que eram mais bem versados em letras e em orações incendiarias do que o sargentomór.
Contava-se neste numero Cosme Bezerra dentre todos os que ali se achavam o mais ardente membro da nobreza, e o que, por sua força de vontade e grandeza de espirito, maior nome deixou nas crônicas do tempo, porque, degredado para a Índia em 1713, dai não voltou mais á sua pátria. Era juiz ordinário e capitão de ordenanças. Tinha a presença atrativa e gestos largos e arrebatados.
Cosme Bezerra, que foi dos primeiros que reagiram contra os mercadores, como dos que sofreram as conseqüências dessa reação, quis tomar a mão em seguida do sargento-mór; mas antecipou-se-lhe Manoel de Lacerda, ex-alcaide-mór; emprego que devera a seus longos e distintos méritos.
- Estou de acordo convosco, disse Lacerda a João da Cunha. Querem grande e rude lição esses que só têm recebido de nós hospitalidade e favores? Pois satisfaçamos á sua vontade. Não gosto de violências; mas quando sagrados direitos andam em perigo, não olho a desastres nem espero pelo dia de amanhã. O fogo, o sangue, a morte não me amedrontam, nem o receio de ser vitima na luta me retém no regaço morno da vida domestica.
- Demais, observou Cosme Bezerra, que estava impaciente por manifestar-se sobre o assunto, nas atuais circunstancias a guerra é inevitável. Certo, os mascates a esperam. Se nós não formos leva-la a eles, hão de vir eles traze-la a nós. Das fortalezas passarão ás estradas, e por estas virão Ter ás vilas mais importantes e enriquecidos, menos pela grandeza do seu trabalho do que do nosso coração e da nossa complacência projetam sobre as ruínas da agricultura, levantar em pedestais de ouro o seu comercio ilícito e plebeu. Quem julgar que eles ficam ai, engana-se. eles põem a mira em completar a obra do desmoronamento pernambucano, derramando o sangue daqueles que com os nobres portugueses, e não com a gentalha de Portugal, sustentaram no mar e nos campos de batalha a honra e o poder da lusa monarquia. Hão de ir mais longe ainda, porque em seu bestunto supõem, e até o dizem, que somos tão selvagens como os índios que eles destruíram ou escravizaram. Armarão ciladas a nossa honra, tentarão manchar nossas famílias. Em seus tenebrosos plenos, tem mais lugar a idéia de enxovalhar do que a de destruir a fidalguia, que os admitiu em sua terra, levada de dó pela miséria deles. E havemos de consentir em que esta baixeza sem nome se tente praticar ainda que não passe da tentativa? De modo nenhum. Cá por mim estou prestes para a luta e entendo que é tempo de a travar com esses vis e ingratos hospedes.
- Este pontos está fora de duvidas, acrescentou Filipe Cavalcanti. Mas o essencial é assentarmos nos meios de ferir a batalha. Temos gente pronta para seguir á metrópole da capitania? Convirá seguirmos? Ou será mais prudente esperarmos que de lá se nos peça o auxilio das nossas forças! A meu parecer são estes os pontos mais importantes e graves da presente conjuntura.
- E que mais esperaremos? Inquiriu Jorge Cavalcanti. A luva está atirada, e embora nos venha de vilão, cumpre-nos apanhá-la para castigarmos a vilania.
(continua...)
TÁVORA, Franklin. O Matuto. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1812 . Acesso em: 28 fev. 2026.