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#Romances#Literatura Brasileira

O Garimpeiro

Por Bernardo Guimarães (1872)

- Bem conheço o motivo de tudo isto, disse ele, este pobre rapaz há muito tempo gostava de Lúcia, e parece que tinha a louca pretensão de casar-se com ela. A paixão e o desejo transtornaram-lhe a cabeça, coitado! tenho pena dele; mas não devo tolerar que fique impune semelhante desacato.

Assim o infeliz Elias, para cúmulo dos males, era objeto da compaixão desdenhosa de uns, dos motejos de outros, e do ódio de alguns. Somente o negociante, em cuja casa se hospedara, e a quem tinha contado sua triste aventura, tinha motivos para não acompanhar a opinião do vulgo; mas, homem de espírito fleumático, não querendo ir de encontro ao parecer de ninguém, guardava para si sua convicção, esperando que o tempo viesse deslindar aquele negócio, o que julgava que não poderia tardar muito.

-tantos contratempos viraram-lhe a bola, dizia um.

- Era um rapaz pacífico e prudente, ajuntava outro, não sei que diabo lhe entrou na cabeça para fazer aquela estrada!

- Coitado. . . observava outro, de um dia para outro viu-se roubado em tudo que possuía, e atraiçoado em seu amor. . . o caso é mesmo para enlouquecer.

Assim, enquanto Leonel campeava insolente e orgulhoso, protegido pela estima e simpatia geral, Elias jazia em uma prisão, como um pobre maluco, que apenas merece um pouco de compaixão.

Do seio de sua prisão Elias formulou uma denúncia contra Leonel. Mas Elias era um maníaco; as autoridades desprezaram a denúncia, embora estivesse concebida nos termos mais sensatos e procedentes.

Leonel, para remover toda e qualquer suspeita que alguém pudesse nutrir a seu respeito, quis que se desse rigorosa busca em tudo quanto era seu, em todos os valores que trazia consigo, e nada encontrou que o pudesse comprometer.

Todavia, como bem se pode julgar, Leonel estava longe de viver tranqüilo depois daquele desacato, e esperava com a maior impaciência e inquietação o domingo seguinte para efetuar o seu casamento, e depois- com a noiva ou sem ela- evaporar-se. Teria desaparecido incontinenti, se esse passo não viesse despertar contra ele as mais bem fundadas suspeitas, não fosse um terrível indício, uma confissão tácita de seu crime. Via-se enleado em um labirinto, cuja saída se lhe ia tornando extremamente difícil.

Mas como Elias nenhuma outra prova tinha contra ele mais do que a sua palavra, e além disso estava por poucos dias a ver-se livre do compromisso que ainda o detinha na Bagagem, ainda não julgava tão crítica a sua situação que devesse tomar logo o partido extremo da fuga. Para manter-se na reputação que soubera conquistar, de leal e honrado cavalheiro, forçoso era levar a cabo o odioso drama em que se envolvera. Uma vez casado, ou a pretexto de ir arrecadar seus bens, ou em virtude de uma carta que recebesse de seu pai ou de sua mãe, que estava à morte, chamando- o junto a si, se retiraria poucos dias depois muito honestamente, e sem despertar suspeitas teria tempo de pôr-se a salvo.

Para melhor disfarçar sua perfídia e mais arras dar de generosidade e cavalheirismo, como o crime de Elias era particular, e por ele não poderia ser acusado sem haver parte queixosa, Leonel desistiu da acusação judiciária, mas protestando sempre que apenas o visse solto, ou havia de morrer às suas mãos, ou havia de lavar em seu sangue a afronta de que fora vítima.

Mas seus amigos tiveram o cuidado de dissuadi-lo, fazendo-lhe ver que nenhum desdouro sofria em sua honra em conseqüência do desatino de um louco rematado; que ele seria tão louco como o seu ofensor se fosse arriscar a sua existência nas garras de uma fera intratável, por motivos de pundonor; que se vingava do coice de um burro, ou da cornada de um touro bravio.

Leonel, que não primava pela coragem, e que sabia quanto o seu adversário era vigoroso e destro no manejo de toda a espécie de armas, mostrou ceder com dificuldade a estes conselhos, reservando-se todavia interiormente o direito de tomar alguma cobarde e traiçoeira vingança, se porventura tivesse ocasião.

A riqueza, principalmente quando é acompanhada de um verniz de cortesia, generosidade e cavalheirismo, é sempre cortejada e adulada.

Leonel tinha pois uma numerosa roda de aduladores, que só para não incorrerem em seu desagrado deixaram de cumprir um dever de humanidade para com o pobre moço, que jazia na prisão sozinho, abandonado, sem ser visitado por quase ninguém.

(continua...)

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