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#Romances#Literatura Brasileira

Diva

Por José de Alencar (1864)

—Acha bonita a nova moda de vestidos? Respondia-lhe com volubilidade, sem dar grande importância à questão. Acontecia às vezes que o vestido era da cor ou da moda não preferida por mim; ela o imolava sem piedade; em folha, como estava, fazia dele presente a alguma moça, ou sepultava-o nos recantos de uma cômoda. 

Entretanto o vestido era lindo; e fosse feio, que eu o achara divino, trajado por ela. 

Se eu incomodava-me com estes novos caprichos de humildade, tão avessos dos anteriores inspirados no orgulho, e como eles tão imperativos, ela insistia impaciente, e não tolerava da minha parte a mínima observação. Muitas vezes por essa causa nos separamos tristes e magoados. 

Em nossos mútuos devaneios, quando me cabia a vez de falar, vazando as expansões de meu coração cheio, ajoelhava todo meu ser ante o ídolo de sua graça. 

Ela, antes meiga e dócil à minha palavra, já a não escutava; e abstraía-se às ferventes adorações para se refugiar em não sei que penosa e amarga cisma. O que encantara outra mulher, parecia enfastiá-la; derramava-se por seu rosto uma nuvem de tédio e desgosto. 

Quase sempre esquivava-se logo, e deixando-me só alguns instantes, rompia a conversa. 


XVII

FOI ontem. 

Deixara Emília na véspera descontente por causa de um dos nossos conflitos de submissão recíproca. 

Achei-a porém já esquecida dessa pequena contrariedade, e satisfeita. Contudo, tinha certa gravidade no olhar e na fronte que anunciava o peso de muitos pensamentos ali concentrados. 

Falou com sua graça costumada; falou do passado, recordando de leve as fases por que passara nosso amor. Era sua história íntima, o romance de sua alma, que ela esboçava a traços finos e delicados. Depois de comparar sua existência anterior tão agitada com o atual isolamento e tranquilidade, fixou-me nos olhos, enquanto me dirigia com a voz lenta estas palavras: 

—Está satisfeito? Não foi cegamente obedecido? —Oh! Mila! Obedecido, não! Não me atrevia a pedir tanto... 

É uma graça que me concedeu... e eu a recebi de joelhos!... 

—Ah! fez ela com uma expressão indefinível de tédio. 

Geraldo entrava nesse momento. Depois de apertar-me a mão: 

—Diz-me uma cousa, Amaral? Por que razão proibiste a Mila de sair de casa? —Ora, Geraldo! respondi eu enfadado. Nunca hás de ter juízo. 

—Foi ela quem me disse!... 

—D. Emília?... 

—E tu acreditaste! disse Mila ao irmão com um riso irônico. Isto passava-se ontem. 

Hoje à tarde, chegando à sua casa, achei o carro à porta e ela na sala pronta para sair; só esperava por D. Leocádia. 

—Vai sair? perguntei-lhe triste. 

—Não vê? respondeu correndo os olhos pelo seu trajo. 

—Volta cedo? —Não! Vamos ao teatro. 

—Ah!... Tinha-me... prometido não, mas habituado já a vê-la longe do mundo, bonita e risonha só para mim!... 

—É verdade; mas os hábitos sempre continuados afinal trazem a monotonia. 

Tive um terror pânico. Ouvindo as palavras desdenhosas de Emília e vendo-a calçar as luvas, não sei que alucinação foi a minha; se me afigurou que essa moça ia outra vez ser-me arrebatada pela vertigem do mundo; que eu a ia perder, e agora para sempre. 

—Mila, não sei que tristeza profunda me causa esta sua ida ao teatro... É uma esquisitice minha!... Que cousa mais simples do que ir ao teatro?... Mas... Não compreendo este temor... Eu lhe suplico!... Antes de partir dê-me coragem! Diga-me essa palavra que eu espero há tanto tempo! Ela esquivou a mão, que eu procurava, vestindo-se da dignidade fria que a envolvia às vezes como túnica de gelo. 

—Tem muita pressa de ouvir essa palavra!... Há, de querer também um juramento solene... que firme seus direitos... Poderá então impor-me sua vontade, e que remédio terei eu se não sujeitar-me!... Mas ainda é cedo. Espere, meu senhor! Súbita e profunda revolução se operou em mim; subjugado por ela eu apenas pude pronunciar uma frase; mas que profusão de sentimentos, que riqueza de paixão, a alma não verte numa só palavra, mesmo vulgar!... 

—Basta, senhora! Não sei se minha voz ecoou nalma de Emília, como ressoava na minha; era o grito de uma paixão na agonia. 

Emília caminhou para mim, absorta em dolorosa emoção: senti sua mão pousar no meu ombro, os seus olhos nos meus, o seu hálito nas minhas faces, a sua palavra caindo a uma e uma no meu cérebro. Mas eu estava tão profundamente mergulhado em mim mesmo que não compreendia naquele instante nem o que olhava, nem o que ouvia. 

(continua...)

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