Por José de Alencar (1870)
Nunca a primeira entrevista da mulher que mais amara produzira nele tão profunda emoção. Para achar alguma coisa comparável com o que então sentia fora necessário remontar aos dias da juventude, aos tempos das primeiras pulsações de um coração virgem.
Sua paixão por Amélia tinha realmente uma virgindade. O conquistador havia amado na mulher todas as graças e encantos, mas nunca até então havia adorado um pé. Devia pois experimentar realmente as sensações inebriantes de um primeiro amor.
Na sala dançava-se a sexta quadrilha.
— Acho-a pensativa, disse Leopoldo, reparando que o lindo rosto de seu par, ordinariamente animado por uma gentileza vivaz, estava agora amortecido pela reflexão.
Amélia fitou nele seus grandes olhos ingênuos.
— E não tenho razão?...
Leopoldo calou-se. Tinha compreendido o pensamento de Amélia. Na véspera de decidir de seu destino, de ligar eternamente sua existência, a mulher deve ter desses instantes de recolhimento íntimo. A dúvida agita-se no seio da fé mais profunda, o receio no âmago da esperança mais risonha. As flores do coração, como as da natureza, têm um verme, que as babuja.
Que podia Leopoldo dizer a essa alma perplexa? Aumentar-lhe a dúvida, dar força às vacilações, não seria digno; parecia-lhe uma sedução. Confortá-la em sua fé, animar-lhe a esperança, apontar-lhe para um futuro cheio de venturas, fora nobre e generoso; mas faltava-lhe abnegação para tanto.
Terminada a contradança, Amélia pelo braço do par deu uma volta pela sala. A um aceno de seu leque, Horácio, que estava conversando em um grupo, chegouse.
— Chame papai. São horas!
Enquanto o leão procurava o Sales para preveni-lo do desejo de sua filha, Amélia dirigiu-se ao toucador.
Leopoldo ficara surpreso de ver a moça falar a Horácio, e com um tom bem expressivo de intimidade.
— Não pensava que se conhecessem... tanto! disse ele com a voz comovida. — Pois é com ele...
O rubor que tingiu as faces da donzela rematou a frase com a sublime eloqüência do pudor.
— Não sabia? perguntou a moça para disfarçar.
— Não!
— Como o Sr. diz este não!
Com efeito a voz de Leopoldo tivera uma vibração profunda, quando pronunciara aquele simples monossílabo.
— Desejava que não fosse ele? perguntou a moça com certa ansiedade.
— Por quê?
Aproximava-se Horácio dando o braço a D. Leonor, e seguido pelo negociante. Amélia separou-se de seu cavalheiro, e levantando a cortina de veludo do toucador, voltou-se:
— Há de me dizer! insistiu.
— É preciso? perguntou Leopoldo, e seu olhar desceu lentamente do rosto da moça à fímbria do vestido.
Amélia empalideceu; a cortina, escapando de sua mão trêmula, ocultou-a.
— Conhecias Amélia? perguntou Horácio, enquanto esperava que as senhoras saíssem do toucador.
— Estás admirado, sem dúvida! retorquiu Leopoldo secamente.
O leão fitou no companheiro um olhar interrogador; mas ocorreu-lhe de repente uma idéia, que lhe trouxe aos lábios um sorriso de ironia. Lembrara-se do aleijão.
A mulher amada por Leopoldo não podia ser Amélia. Mas quem sabe se o idealista capaz de adorar uma monstruosidade, o espírito severo que desdenhava a beleza material, não sofria a sedução irresistível do mimoso pezinho?
— Admirado de quê? De te ver convertido à idolatria da beleza material? . . .
Amélia que saía do toucador, embuçada em sua capa de caxemira escarlate, tomou o braço do noivo e desceu as escadas.
Quando partia o carro de Sales, Leopoldo que também se retirava, encontrou Horácio na porta.
— A ilusão é a única realidade desta vida! disse ele sorrindo.
— O quê?
— Adeus!
CAPÍTULO XV
Seriam quatro horas da tarde. Amélia, já vestida para o jantar, esperava o noivo trabalhando em um bordado de tapeçaria. A seu lado, em uma linda banca de costura forrada de pau-cetim, havia, além dos utensílios necessários, uma profusão de seda frouxa de várias cores.
No cetim branco, estendido pelo elegante bastidor de mogno, via-se o risco de um par de sandálias, que pareciam destinadas a alguma fada, tão pequena, mimosa e delicada era a forma do pé.
Um dos esboços estava ainda intato; no outro porém via-se já um florão de rosas bordadas a seda frouxa, e no centro a letra L, feita com torçal de ouro. Era naturalmente a inicial do nome, em cuja tenção a moça trabalhava.
Amélia estava nesse dia talvez menos formosa, porém em compensação mais sedutora. Certa expressão languida, ou de cansaço ou de melancolia, embotava a flor de sua habitual lindeza, desmaiando o matiz dos lábios e das faces, velando o brilho dos olhos pardos. Seu traje branco ainda mais ameigava a sua fisionomia.
(continua...)
ALENCAR, José de. A Pata da Gazela. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16673 . Acesso em: 8 jan. 2026.